Carta aberta a Tarso Genro: Sobre a língua viva não se legisla. Vete a lei, Governador

Excelentíssimo Governador Tarso Genro: Eu e uma legião de eleitores de esquerda fomos surpreendidos, no dia 19 de abril, com a aprovação, pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, do projeto de lei 156/2009, de autoria do Deputado Raul Carrion (PCdoB), que...

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Excelentíssimo Governador Tarso Genro:

Eu e uma legião de eleitores de esquerda fomos surpreendidos, no dia 19 de abril, com a aprovação, pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, do projeto de lei 156/2009, de autoria do Deputado Raul Carrion (PCdoB), que “institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul”. Foi o estranho dia em que a direita representou a voz da sensatez. Apesar de que, felizmente, não está claro que o Sr. sancionará essa nociva e inútil lei, o Sr. condenou as chacotas e declarou que só as pessoas “muito caipiras” podem se opor às tentativas de defesa do vernáculo. Começo esta carta aberta atendendo o seu pedido de que a matéria seja tratada com seriedade, embora, que fique dito, para quem conhece algo acerca de como funciona o idioma, é meio irresistível dar algumas risadas de uma lei como esta. Noto, no entanto, minha discordância com seu uso do termo “caipira”. Em seu sentido pejorativo—que eu costumo evitar, aliás–, “caipira” é, segundo Houaiss, o “acanhado, pouco sociável”, enfim, justamente aquele que constrói cercas em volta de si mesmo. Caipiras são, portanto, os defensores da lei.

Tenho esperança de que o Sr. consultará alguns dos extraordinários profissionais do Instituto de Letras da UFRGS ou da Faculdade de Letras da PUC/RS—duas instituições de ponta, que estão entre as melhores do Brasil, tanto em literatura como em Linguística—antes de sancionar essa sandice. Sim, porque de sandice se trata.

A Linguística, como qualquer outra disciplina, possui diversas correntes e debates internos. Mas há um postulado do qual nenhum linguista discordaria: a língua é organismo vivo, em constante transformação. O dicionário é só uma sistematização pontual—um recorte—da coleção de vocábulos utilizados pelos falantes da língua em determinado momento. Essa coleção vai mudando, com a queda em desuso de algumas palavras e a incorporação de outras. É um processo natural da língua. Nele, os chamados estrangeirismos aparecerão sempre. Especialmente num mundo globalizado, eles são inevitáveis e, acima de tudo, não reguláveis por decreto, ainda mais um decreto estadual. Os próprios mecanismos internos da língua se encarregam de incorporar alguns, expelir outros, aportuguesar outros. Aliás, se formos ser rigorosos e eliminar todos os estrangeirismos, terminaremos onde? No tupi-guarani ou na passagem da vulgata latina ao galaico-português?

Vamos aos exemplos.

O Sr., que é colorado, se lembra da época em que os termos “córner” e “escanteio” coexistiam na língua portuguesa. Houve época em que era só “córner”. Com o tempo, os dois foram coexistindo e hoje “escanteio” parece ter se imposto, embora “córner” ainda seja compreensível para a maioria dos fãs de futebol. Aliás, “futebol”, um dia, foi gravado “football” e era um puro estrangeirismo. Será que a língua portuguesa estaria mais autêntica e protegida se usássemos “ludopédio”? Ora, a grafia de “football” foi aportuguesada e hoje ninguém pensa mais nisso. É a língua, Governador. Por outro lado, “match”, que era o termo usado nas publicações esportivas brasileiras dos anos 20, morreu mesmo, substituído por “jogo”, “partida”, “certame” ou “peleja”, sem que nenhum Carrion tivesse aparecido para decretar seu fim. Os próprios mecanismos que regem a interação real entre os falantes—estudados pela sociolinguística e pela pragmática—se encarregam da triagem. Muitas vezes, a grafia estrangeira permanece, sem dano nenhum ao idioma, como é o caso, aliás, dos dois gigantes gaúchos, o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e o Sport Club Internacional.

“Abajur”, não muito tempo atrás, era “abat-jour”. Algum Carrion da época teria nos obrigado a usar “quebra-luz” e, assim, privado os falantes da língua de um enriquecimento lexical, que hoje nos permite designar um objeto específico, sem nenhuma ambiguidade. “Sutiã”, até outro dia, era “soutien”, e a vernaculização do estrangeirismo nos poupou do “sustenta-seios” que o PCdoB teria preferido.

Imagine, Governador, se o Deputado Carrion tivesse assessorado a administração das capitanias hereditárias e proibido os estrangeirismos na época. Não teríamos hoje a marca lexical mais distintiva da língua portuguesa, que não é “saudade” coisa nenhuma, mas a indefectível “bunda”. Só nós a possuímos. Foi um presente maravilhoso do quimbundo, e que hoje é tão brasileiro como o samba–outro estrangeirismo, aliás. Os hispanos não têm “bunda”. Usam “culo”, o que, sabemos, não é a mesma coisa. Dá para imaginar, Governador, uma língua portuguesa sem bunda?

O Deputado Carrion, inclusive, demonstra ignorância da língua que quer defender. Em sua justificativa ao projeto, ele declarou que não vai ao shopping center, e sim ao centro comercial. Ora, essas duas expressões não são sinônimas! “Shopping center” é parte da língua portuguesa, e quem o diz é o dicionário Houaiss, que em sua edição de 2008 reconheceu o uso dos falantes reais, como fazem sempre os bons dicionários, e registrou: “shopping center: centro comercial de arquitetura específica”. Qualquer falante brasileiro, pelo menos das áreas urbanas, sabe disso, mesmo que intuitivamente. Mas a esquerda legislativa do Rio Grande quer abolir esse saber natural dos falantes por decreto. O Deputado Carrion afirmou que só nos EUA ele iria ao “shopping center”. Teria dificuldades, pois o que, em língua portuguesa, é “shopping center”, na língua inglesa, pelo menos nas variações dialetais estadunidenses, chama-se, em geral, “mall”, da mesma forma como o que designamos como “outdoor” em português é chamado de “billboard” em inglês. É o que ficou imortalizado como “a contribuição milionária de todos os erros” pelo genial Oswald de Andrade, escritor que confiava na nossa capacidade de absorver, incorporar, processar e transformar tudo, sem medo e sem complexo de inferioridade. É um autor que o PCdoB deveria ler com mais frequência.

O PCdoB, partido que eu respeito e ao qual é filiada a minha atual representante na Câmara dos Deputados—já que o PT-MG meteu-se em tucaníssimos enredos–, tem, no entanto, essa estranha mania de decretar o que é e o que não é autenticamente brasileiro, como se o comunismo tivesse sido invenção tupiniquim. As cotas para as indústrias cinematográfica e televisiva brasileiras, por exemplo, são temas que podem ser debatidos seriamente. Decretar uma cerca em volta do idioma, não. Como afirmei num texto anterior, projetos desse tipo são de mastodôntica ignorância:

a) sociolinguística, porque ignoram que sobre a língua viva não se legisla.

b) filológica, porque não sabem que a evolução da língua inclui a incorporação de vocábulos estrangeiros.

c) pragmática, porque ignoram que cada falante, individualmente, tenderá a ter a capacidade de selecionar os estrangeirismos adequados para cada contexto e, no caso de não fazê-lo, a própria interação subsequente com os outros falantes atuará, corrigindo-o.

d) psicolinguística, porque querem cercear legislativamente o leque de escolhas lexicais do falante da língua.

A língua portuguesa vai bem, Governador, obrigado. Cada vez mais enriquecida pela interação com as outras. Não deixe que a esquerda do Rio Grande pague esse mico. Consulte o seu companheiro de lutas, Olívio Dutra, que é formado em Letras. Vete essa nociva, inútil, xenofóbica e medrosa lei.

Atenciosamente,

Idelber Avelar


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Comentários

23 comments

  1. César Schirmer dos Santos Responder

    Assino embaixo.

    Sou eleitor no Rio Grande do Sul, e não creio que nosso estado merece a mácula de ter instituído o preconceito linguístico em lei, com nenhuma base senão a repulsa ou desgosto estético de algumas pessoas com preferências estéticas lusofônicas.

    Rejeições estéticas análogas a esta que a lei Carrion propõe estão na base da rejeição da união homoafetiva, e mesmo dos casamentos mestiços, e bem sabemos, nesses casos, que uma república justa não pode transformar o dessabor preconceituoso em proibição instituída.

    Sou professor de filosofia da linguagem, lógica, filosofia da mente e teoria do conhecimento.

  2. Marco AR Vieira Responder

    Claro, preciso, justo, irônico e principalmente coberto de razão.

  3. Romilda Responder

    Acontece que por ‘estrangeirismo’ o nobre deputado Carrion deve estar querendo dizer ‘americanismo’, já que a língua mais que viva, por aqui, está sendo o inglês, introduzido pelos EEUU entre nós especialmente a partir da II Guerra.
    Acontece que a língua não é neutra, meu caro, e pode ser uma bela arma ideológica. Já reparou que há momentos em que a gente parece estar nos EEUU? ‘Sale’ (em lugar de ‘venda’), ‘% off’ (em lugar de ‘desconto’), ‘the best’, em lugar de ‘ótimo’ – e por aí vai; as pessoas agora não fazem mais o melhor que podem, que faziam até há poucos anos, e sim ‘o seu melhor’ (his/her best); já ouvi várias pessoas dizendo ‘eu prometo’ (I promise) em lugar do bom e velho ‘eu garanto’ – influência das traduções literais (e muitas vezes mal feitas) da tv a cabo.
    Você vê quantas expressões em espanhol, por exemplo (o que seria natural no RS, histórica e culturalmente falando), para cada expressão em inglês? Você vê quantas expressões em francês (o que daria para entender, já que os filhos das ‘boas famílias’ eram enviados a estudar na França) para cada expressão em inglês? Você já observou a França, a Espanha, Portugal? Ao contrário do que muita gente insiste em afirmar, o inglês não domina por lá – aliás, na França e em Portugal, nem mesmo os termos tecnológicos, se houver expressão equivalente no idioma nacional.
    O que as pessoas não estão percebendo é a DENÚNCIA embutida no projeto do Deputado: ESTAMOS FICANDO COM UM BAITA PROBLEMA DE IDENTIDADE!!!
    Não apenas eu, mas MUITA gente já está ficando ‘de saco cheio’, para falar o bom português, de ler inglês por todo lado! Se ainda fosse o guarani, idioma autóctone…

  4. Eduardo Martinez Responder

    Quero denunciar o lado direita do articulista Idelber Avelar e o desprezo e o desrespeito com que fui tratado no seu perfil no Facebook. Além disso, quero denunciar também que o professor, que se apresenta como “eleitor de esquerda”, se apossou de minhas manifestações que contestavam sua irresponsabilidade na análise do projeto e, particularmente, a respeito do seu autor, o deputado Raul Carrion, censurando minha opinião ao excluir meu nome dos seus “amigos”. Quando se exclui alguém no Facebook, todos os seus comentários são igualmente excluídos. Ou seja uma censura que só deveria ser feita com criminosos em uma rede social.

    Abaixo, envio minha única manifestação a respeito desta questão que o professor Idelber não conseguiu banir do Facebook.

    “Minha postagem de denúncia contra o “professor” que me excluiu como amigo no facebook por discordar dele e escreveu o texto infantil abaixo, em resposta à minha pergunta, foi deletada do facebook.

    Essa é a liberdade de expressão que é oferecida como alternativa à mídia corporativa?

    Minha pergunta ao Idelber:

    ‘É isso mesmo cara? Fui excluído por discordar? Essa é a blogosfera livre? Democrática? Que exclui quando não submete? Não quero acreditar que cometi um erro tão grande assim de acreditar’?

    A resposta do ‘professor’ de uma universidade dos EUA:

    24 de abril às 04:01 Denunciar
    ‘Você foi excluído porque é um chato, grosseiro, a quem eu tenho certeza que nunca acrescentei a nenhuma lista de amigos minha e de quem tenho certeza que nunca ouvi falar, o que coloca a você na obrigação de ter uma preocupação extra com a educação e a cordialidade no momento em que visita MEU espaço para dar uma opinião. Minha lista de amigos não é uma “blogosfera democrática”. Você é tão burro que não consegue perceber a diferença entre o critério para escolher um governo (democracia) e o critério para escolher uma LISTA DE AMIGOS. Tchau, babaca’.

    Todo aquele que questiona o status quo e desmonta os argumentos dos que defendem a comunicação que não se comunica com a maioria e denuncia suas contradições, é chato, grosseiro e burro.

    Isso é atitude de professor universitário?

    Que usa dois pesos e duas medidas. Desclassificou e fez chacota com o projeto contra estrangeirismos na língua portuguesa brasileira e contra seu autor, o deputado gaúcho Raul Carrion, do PCdoB. Quando eu denunciei sua irresponsabilidade ao tratar de assunto tão sério, ele apelou, me excluiu, se apossou de meus comentários, dos quais não fiquei com nenhuma cópia por confiar na sua honestidade intelectual e agora não posso confrontar as duas opiniões porque não tenho os comentários que fiz no perfil dele para provar o que eu disse.

    É justo isso?

    É coisa de professor de comunicação afirmar que são diferentes a ‘blogosfera democrática’ e sua lista de amigos ou ‘o critério para escolher um governo (democracia) e os critérios para escolher uma lista de amigos’ (autocracia virtual?) numa rede (pasmem!) social? Quando ele me aceitou como amigo, sem me conhecer, esse argumento ridículo não foi por terra? Ou as ‘celebridades’ só aceitam pessoas que não conhecem, como amigos no facebook, quando elas apenas servem de plateia, sem nenhum protagonismo?”

    Gustavo, acredito que não dá para comparar o uso e a incorporação de expressões na língua espanhola ao nosso idioma com as de língua inglesa. Especialmente quando falo com quem me apresentou Angel Rama, justamente o cara que desmontou as fronteiras definidas na Europa e demarcou nossas comarcas culturais.

    Apesar de tudo, nunca afirmei ser a favor do projeto como foi elaborado, apenas reagi, com muito menos diplomacia que o governador Tarso Genro, é verdade, ao trato irresponsável, arrogante e desrespeitoso com o qual as críticas foram feitas.

    Uma pergunta: é natural a presença entre nós dos termos em língua inglesa, como os de língua espanhola, pela proximidade e origem comum, ou são resultado de uma correlação de forças desigual na mídia?

    Espero que meu comentário, por não ser alinhado com o autor do artigo publicado aqui, não seja excluído e que o meu direito inalienável, apesar de alguns eleitores de esquerda revogarem essa palavra quando lhes convém, à livre manifestação do pensamento seja garantido.

    A última “sandice” do senhor Idelber a meu respeito e pelas costas, ou seja, sem que eu pudesse saber e ter o direito de me defender, como acontece em ambientes não obscurantistas.

    – “Sugestão para um certo mala: ao ser excluído da lista de amigos de alguém no Facebook, não grite que a outra pessoa não é “democrática”. Soa ridículo. Democracia é a melhor forma de organização do estado, não o melhor critério para escolher amigos”.

    Acredito que esse lado do articulista seja desconhecido pela maioria de seus admiradores e serve como alerta para quem se atrever a fazer com ele algo parecido com o que ele faz com quem elabora projetos que ele compare a sandices.

    1. Luís Responder

      Já contou tudo pro seu pai?

      1. Eduardo Martinez Responder

        Não entendi, Luís Sem Sobrenome, a que pai te referes?

        1. Luís Responder

          Eu sou sem sobrenome? Pois muito bem Eduardo Com Sobrenome, o pai a que me refiro é o seu pai, Eduardo Bebê Chorão.

  5. claudia cardoso Responder

    Baita texto! :-)
    Abração!

  6. Rogério Rosa Responder

    O teu saber é admirável.
    Mas por mais que assimilei a importância do veto, causo-me dúvidas.
    A proposta de lei é individual, o seu autor é apenas um deputado, ou é partidaria?
    O aludido partido em seu texto, representa a esquerda brasileira em sua totalidade, ou é um entre vários outros?
    Se não pode afirmar positivamente em relação as minhas dúvidas. Percebo a sua inteção, além da sua manifestação.
    Qual é?
    Com certeza não é a contradição.
    É a sua coerência, mesmo que subjetiva.

  7. larissa Responder

    Já que a regra é se valer de argumentos de autoridade, deixo aqui um contraponto: Ariano Suassuna, maior conhecedor das línguas e dos jeitos brasileiros, tem uma opinião bem diferente que o sr.

  8. zcarlos Responder

    Meu caro Idelber,
    Reproduzi sua Carta Aberta ao Tarso Genro em meu blog.
    Veja aqui: http://contextolivre.blogspot.com/2011/05/carta-aberta-tarso-genro-sobre-lingua.html
    De Cara já recebi um comentário contrário a sua posição, chamando-o de ‘metido a besta’.
    Respondi anexando seu curriculum, para que conhecesse quem era esse ‘metido a besta’.
    Posteriormente encontrei uma longa Carta Aberta destinada ao Tarso, assinada pelo Coletivo Vila Vudu.
    Também a reproduzi no meu blog, com um irônico comentário, veja aqui:
    http://contextolivre.blogspot.com/2011/05/carta-aberta-ao-governador-tarso-genro.html
    Comunico-o, pois o espaço está aberto para sua tréplica, caso desejar.
    Grande abraço,

    zcarlos

  9. Castor Filho Responder

    (Este texto foi enviado por e-mail pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e postado no blog redecastorphoto e seu coordenador decidiu também postá-lo nestes “comentários”)

    Sancione a “Lei da Língua” do Deputado Raul Carrion, Governador!

    Imagine-se que Newton (o dos Principia) recebesse, um belo dia, uma carta de um dos professores da Igreja do século 17, que lhe dissessem que “não se atreva!” [a escrever leis sobre os céus], porque só Deus é autoridade para escrever leis sobre os céus.

    O absurdo seria o mesmo, se um gnomo, um dia, escrevesse à presidenta Dilma e lhe dissesse que “não se atreva!” [a escrever leis sobre a Floresta Amazônica], porque só os gnomos são autoridade para escrever leis sobre florestas.

    Esses exemplos caricatos são úteis, porque fazem aparecer o absurdo evidente: primeiro, porque em todos os casos, nas sociedades humanas, sempre há e sempre haverá quem se interesse por legislar sobre o mundo social. Evidentemente, quem se interesse por legislar sobre línguas, tem e deve ter perfeito direito democrático de fazê-lo. A ideia de que “não se atreva a legislar” sobre isso ou aquilo é doideira – quando não é o liberalismo conservador mais leviano e arrogante – ou de professores de igrejas e igrejinhas, ou de gnomos.

    Em segundo lugar, também é perfeito absurdo pretender que “não se legisla sobre língua”.

    A língua é construto social, só existe inteira dentro da sociedade da qual é parte constitutiva e potência constituinte. Assim, a língua está sujeita, como todos os construtos sociais e potências constituintes, às vicissitudes em função das quais a humanidade se faz leis.

    Portanto, pode-se definir como direito inalienável das sociedades (1) legislar sobre o que bem entenderem; e (2) legislar sobre língua, se uma ou outra sociedade entender que alguma lei sobre língua é necessária ou útil.

    O argumento de que não se poderia legislar sobre língua, porque a língua “é viva”, como escreveu o professor Idelber Avelar em “Carta aberta ao Governador Tarso Genro” (adiante, cortada-colada para referência) é tão completamente absurdo quanto pretender que não se poderia legislar sobre a preservação da Floresta Amazônica. A Floresta Amazônica e todos os seres que nela e dela vivem, afinal, são tão perfeita e absolutamente “vivos” quanto qualquer língua e seus falantes. Ou que não se poderia legislar sobre a preservação de tartarugas e golfinhos, sob o argumento segundo o qual, de tão “vivos” que são, poderiam ser deixados entregues às forças… da seleção natural.

    O argumento segundo o qual a vida é viva e, por isso, poderia ser deixada, rendida, à “natureza”, é tão epistemologicamente e historicamente e linguisticamente ridículo, que quase nem se vê o quanto é reacionário. É perfeita, rematada – e muito reacionária – bobagem.

    Verdade, mesmo, é que já se legislou, com efeito muito produtivo, até sobre língua dita “morta”: Israel fez exatamente isso, com extraordinário, sensacional sucesso, ao fazer do hebraico dado como língua morta, a língua vivíssima que hoje já é primeira língua de milhões de falantes. O que Israel fez fê-lo por lei e não teria feito sem leis (aliadas a muito bom saber lingüístico, claro, de lingüistas que JAMAIS diriam que “não se legisla sobre língua” – o mantra tolo, a asnice oficial, de parte significativa da patética ‘linguística’ brasileira).

    Verdade é que, exatamente ao contrário do que nunca se cansam de repetir alguns linguistas brasileiros, o mundo está cheio de “leis sobre línguas”, sempre requisitadas pelas sociedades como instrumento necessário.

    Há milhares – sim, senhor! Milhares – de leis sobre língua, produzidas em todo o planeta, exatamente em 318 países, reunidas, por exemplo, na página “L’Amenagement Linguistique dans le Monde”, mantida pela Université Laval, do Canadá, na Internet. Essa página é gigantesca, e os interessados encontram lá leis sobre línguas, para todos os gostos.

    Assim se dá por provado que, sim, se legisla sobre língua. E que se pode legislar muito democrática e muito legitimamente sobre língua –, exatamente o contrário do que ensina o prof. Idelber Avelar, dentre outros ‘inteligentíssimos’ ou metidos a.

    As leis de língua podem ser abordadas a partir de uma posição política e, também, a partir de uma posição científica. Nos dois casos, claro, a discussão pode ser complexa, mas a evidência de que uma discussão seja complexa jamais foi argumento democraticamente válido para fugir da discussão e pretender ‘resolver’ a questão por argumentos de autoridade.

    Um caso de lei de língua abordada por posição política clara pode ser lindamente exemplificada pelo discurso dos guerrilheiros angolanos que, um dia, souberam que havia em discussão no Brasil uma lei apresentada como “de preservação da língua portuguesa do Brasil”. Aqueles atormentados guerrilheiros angolanos correram a se manifestar contra a tal lei.

    Rejeitavam a lei que lhes parecia reacionária, e, claro, pediram outras leis, que mais lhes interessavam. Disseram que:

    [Guerrilheiros de Angola, em 1979] “Não, não, de jeito nenhum! Essa lei é inadmissível! Se a língua portuguesa for muito protegida, estamos é danados, nós, de vez! Cá em Angola, só os ricos falam português. Os pobres falam mais de cem línguas nativas, e esse, aliás, é um dos motivos pelos quais pouco se entendem entre si e absolutamente não se entendem com os ricos. E os vendedores planetários de armas só falam inglês.

    Então, por favor, quem quiser ajudar Angola, que escreva logo uma lei que obrigue as escolas a ensinar todas as línguas a todos os pobres: o português dos ricos, faz favor, para todos; e o inglês dos comerciantes de armas, no mínimo, só para nós, para que eles nos engambelem menos facilmente. Sendo possível, ok, que ensinem inglês para todos. E além dessas duas línguas, e também para todos, e para que não se percam as línguas tradicionais que já estão por um fio, e nas quais os pobres somos criados – que ensinem também línguas tribais, todas, para todos.

    Sendo possível, escrevam também uma lei que obrigue as escolas a alfabetizar as crianças nas línguas de suas respectivas tribos. Onde e quando as línguas tradicionais tribais não conheçam a escrita, chamem linguistas competentes que construam grafias. A grafia, afinal, sempre é artificial e sempre aparece muito depois da língua falada. Os tais linguistas que trabalhem e façam serviço útil aos pobres, afinal, prá variar!”

    Outro bom exemplo de lei de língua, também proposta como ativa militância política democrática e de resistência cultural e política, é o que se vê no Brasil, no município de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas.

    Ali, em 2002, escreveu-se, votou-se e aprovou-se muito democraticamente – belo trabalho das comunidades indígenas locais e do Instituto de Investigação e Desenvolvimento de Políticas Lingüísticas (Ipol) a pedido da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) – uma lei que co-oficializa as línguas Nheengatu, Tukano e Baniwa: a lei municipal 145/2002, aprovada no dia 22/11/2002, proposta pelo vereador indígena Camico Baniwa. Por essa lei, tornaram-se “línguas co-oficiais”, naquele município, as línguas ali faladas. As populações indígenas ganharam o direito de ter seus filhos alfabetizados nas suas línguas tradicionais e em português. As placas de rua são obrigatoriamente apresentadas nos dois (e mais) idiomas locais.

    E há, na cidade, jornais absolutamente diferentes, um para cada idioma ali co-oficial.
    É muito mais do que há, por exemplo, em São Paulo, uma das mais pujantes metrópoles do planeta, mas onde, desgraçadamente, tooooodos os jornais e noticiários de televisão são absolutamente idênticos (e identicamente desdemocráticos e desdemocratizatórios).

    A lei de língua de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, Brasil, como se vê, é lei que foi requisitada e conquistada por uma comunidade social humana vivíssima, e lei perfeitamente democrática.

    A possibilidade de legislar-se sobre língua, apresentada e defendida como “posição científica”, também se comprova em magníficos trabalhos no campo da lingüística séria – em muito diferente da lingüística leviana e pretensiosa que se ensina no Brasil.

    Há sólidos trabalhos de lingüística, com declarado conteúdo político, que fortemente recomendam que os países defendam por lei, seus idiomas locais ou nacionais, no caso de que os sintam cultural ou politicamente (ou, até, militarmente!) ameaçados. Nesses casos, fala-se de “políticas linguísticas de democratização e preservação de idiomas que se sintam ameaçados”.

    O exemplo mais famoso desses estudos, no mundo – embora continue perfeitamente ignorado na ridícula linguística brasileira –, é o trabalho do Professor Robert Phillipson, dinamarquês, exposto em seu livro, de 1992, Linguistic Imperialism (sem tradução para o português, apesar de ser item obrigatório de bibliografia especializada em universidades de todo o planeta).

    Bom resumo do seu pensamento atualizado encontra-se na conferência que o prof. Phillipson fez no simpósio “DUO IV Dialogue under occupation”, Washington DC, 2-4/6/2010, “Americanisation and Englishisation as processes of global occupation” [“Americanização e anglicização como processos de ocupação global”] (em , PDF, em inglês). No resumo dessa conferência, escreveu o prof. Phillipson, ano passado:

    “Os que defendem o idioma inglês como universalmente válido, aí incluída a atual moda na lingüística aplicada, de analisar o inglês como “língua franca”, veem o inglês como lingua nullius [língua de ninguém], separada das forças que comandam sua expansão política. A integração da educação superior na Europa, está sendo coagida a seguir um único padrão, segundo o qual “internacionalização” seria sinônimo de “formação em inglês”. Alguns países europeus, contudo, já começam a construir políticas para o idioma de modo a assegurar que o inglês seja mantido como língua assessória. Linguistas críticos, que lutam a favor de maior justiça social, já trabalham para demonstram como a ocupação, física e mental, está sendo legitimada, além de militarmente, também pelo idioma; e que é possível construir políticas linguísticas de resistência local.”

    E é nesse contexto de resistência política e cultural – resistência democrática e legítima, que nada tem de xenófoba, resistência tão legítima quanto é legítima a luta dos indígenas do município de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, que visam à preservação de seu idioma histórico e cultural tradicional – que se inscreve o projeto de lei 156/2009, de autoria do Deputado Raul Carrion (PCdoB).

    Esse projeto de lei, que aguarda – e conta com – a sanção do governador Tarso Genro, “institui a obrigatoriedade da tradução de expressões ou palavras estrangeiras para a língua portuguesa, em todo documento, material informativo, propaganda, publicidade ou meio de comunicação através da palavra escrita no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul”, e foi aprovado dia 19 de abril pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

    Diferente do prof. Idelber Avelar, que ouve cantar vozes “modernas” na oposição a essa lei, nós só ouvimos, na oposição a essa lei de resistência política também pelo idioma, as vozes do mais lamentável conservadorismo arrogante, mal disfarçado sob véus ‘linguísticos’, e de uma tão duvidosa e suspeita quanto só autoproclamada “esquerda”.

    É “meio irresistível dar algumas risadas”, na escrita enrolada do professor Idelber Avelar, não, evidentemente, da lei, mas dos saberes autoproclamados do professor Idelber, que se apresenta como alguém que conheceria “algo acerca de como funciona o idioma”.

    A nenhum dos indígenas do Alto Amazonas, que lutaram muito para ver protegidas por lei as suas línguas históricas tradicionais e venceram sua luta, jamais ocorreu apresentar-se ao mundo como alguém que conhecesse “algo acerca de como funciona o idioma”. Aquelas pessoas, os indígenas falantes e os lingüistas empenhados que trabalharam para construir e fazer aprovar aquela lei, apresentaram-se ao mundo e à luta, no máximo, como falantes política e democraticamente empenhados numa duríssima, dificílima, luta política. Não há melhor saber do que esse, em matéria de “como funciona o idioma”.

    E esse bom saber reivindicou a proteção da própria língua. É o que conta. O resto, como ensinou Mao Tse Tung, “só a luta ensina” (e, como samba, não se aprende na escola nem em cursos de lingüística no Brasil).

    Esperamos pois, governador Tarso Genro, que o senhor sancione a lei recém aprovada. Com isso, o Rio Grande do Sul estará na vanguarda nacional da luta pela preservação da língua portuguesa do Brasil, orgulhosamente posto ao lado dos valentes indígenas de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas.

    Com essa lei aprovada, sancionada e vigente, o Rio Grande do Sul estará também na vanguarda nacional da luta de resistência contra o imperialismo lingüístico. Até no Department of International Language Studies and Computational Linguistics da Universidade de Copenhagen, Dinamarca, haverá muita gente que saberá nos aplaudir. Os mesmos, precisamente, que aplaudiram os indígenas de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. E, isso, ainda sem dizer que os indígenas de São Gabriel da Cachoeira também muito aplaudirão o governo democrático do Rio Grande do Sul. O que mais se poderia desejar, em matéria de legitimação democrática?

    E a “esquerda” que riu da lei do Deputado Carrion, que ria. (O que mais, cá entre nós, se poderia esperar dessa “esquerda” já completamente endireitada?! Eles que vão rindo… Eles e o galaico-português metido a ‘erudito’ e só reacionário, lá deles!)

    Assina: COLETIVO DE TRADUTORES VILA VUDU

  10. zcarlos Responder

    Obrigado Idelber. Fiz novo post com o texto completo.
    Está aqui: http://contextolivre.blogspot.com/2011/05/carta-aberta-tarso-genro-sobre-lingua_11.html
    Um abraço.

  11. Vila Vudu Responder

    O Coletivo de Tradutores Vila Vudu faz há anos o trabalho voluntário de traduzir matérias que nos pareçam interessantes e necessárias aos leitores brasileiros e que jamais foram, seriam ou serão publicadas pela imprensa brasileira. Este blog, onde agora escrevemos, como centenas de outros, em todo o Brasil, publica hoje um dos artigos que distribuímos (“No Bahrein, a democracia quer derrubar o povo”, de Pepe Escobar — que está aí, na coluna da direita).

    Isso para dizer que, mais do que “defender posições” a favor ou contra leis, nós FAZEMOS o trabalho de traduzir e oferecer o que ler, aos brasileiros desgraçados pelo pior jornalismo que há no mundo.

    Se fazemos tanto e há tanto tempo, é porque NÃO TEMOS DÚVIDAS de que o Brasil vive sob sítio de um tipo de pensamento e de posição política que se implantou por aqui ao longo dos anos — desde a ditadura, estimulada, depois, pelo neoliberalismo pirado da tucanaria uspeana –. Esse pensamento e essa posição política ESTÃO CONSTRUÍDOS em inglês. Não no inglês de Shakespeare, nem no inglês de Banksy ou Kerouac, mas no inglês de Wall Street e dos exércitos de ocupação por aí, pelo mundo.

    A língua não é nem o dicionário, nem a gramática, nem o Rui Barbosa nem o Carlos Drummond ou o Bandeira. A língua é o interesse que ela carrega, falante.

    Se o interesse falante que se esconde por trás do inglês de Wall Street não é interesse que interesse ao Brasil — embora interesse à tucanaria, ao Estadão, à Folha de S.Paulo e à Rede Globo e aos seus anunciantes-empresas — há uma batalha POLÍTICA a ser travada, se se entende que é preciso construir alguma defesa contra o avanço, no Brasil, do inglês de Wall Street.

    Nesse sentido, não faz sentido algum perguntar aos linguistas o que eles pensam sobre “língua em si” ou sobre “lei de língua em si”.

    A única opinião que interessa conhecer é o que pensam os linguistas sobre a ocupação do Brasil pelo inglês de Wall Street e dos exércitos norte-americanos de ocupação. Sem que se conheça a posição política dos linguistas, o saber linguístico é pura teoria. E teorias são compromissos que parecem científicos e ‘verdadeiros’, num determinado momento e contexto, mas são só verdades generacionais.

    Mais 10, 20 anos, vão-se das academias brasileiras os linguistas formados pelas teorias hoje dominantes, e vêm outros. E sabe-se lá se, daqui a 50 anos (e atrasados, como sempre), os linguistas brasileiros não estarão aí, macaqueando, em vez das teorias europeias que eles hoje macaqueiam, alguma outra teoria um pouco menos funcionalista ou “poética” e “literária”, e teoria linguística mais política, mas comprometida com a vida real dos falantes reais e os processos políticos em que vivem imersos necessariamente.

    Quando isso acontecer, não faltarão linguistas que se empenhem em defender leis de língua. Não porque as leis de língua “funcionem” — porque nenhuma língua, em nenhum caso, será jamais perfeitamente domada por lei –, mas, só, porque o movimento de tentar escrever e fazer aprovar leis que visem a proteger um idioma tribal, tradicional, local ou nacional MOSTRAM o empenho POLÍTICO de tentar preservar alguma independência e alguma legitimidade social e história (além da legitimidade política democrática).

    A discussão sobre leis de língua parece bizantina, apenas, porque os linguistas brasileiros sentam-se nas teorias nas quais foram formados e só sabem defender o que aprenderam das/nas aquelas teorias. E as populações falantes — que nada devem às teorias linguísticas — são condenadas a defender seus desejos políticos sozinhas, sem poder contar com o auxílio de seus linguistas. É mais ou menos como alguém que tenha fome e encontre, como companheiro de viagem, um especialista em nutrição cinetífica. De que servirão os altos saberes de nutrição, para quem, para não morrer de fome, bastaria um pedaço de cacto seco?

    As leis de preservação do português do Brasil contra o avanço do inglês de Wall Street e dos exércitos de dominação dos EUA não são solução “linguistica”: são tentativa POLÍTICA de resistência.

    Uma linguística brasileira menos liberal-reacionária e mais democraticamente empenhada, saberia dar o salto do gato: aproveitar os bons saberes dos estudos sobre “preconceito linguístico” e estendê-los para estudos sobre “ocupação política pela língua”. A distância é muito pequena. Os saberes de sociolinguística que já há construídos estão a um passo do empenho político militante democrático. Só não salta quem não quer.

    Na Vila Vudu, reuniram-se vários professores de língua portuguesa, de várias línguas e de linguística. Todos somos formados na USP. E todos abandonamos a carreira de professores, porque nos pareceu que faríamos trabalho mais útil se traduzíssemos material de boa qualidade jornalística E POLÍTICA, para distribuí-lo em português. ESSA LUTA — não as aulas de Linguística — nos ensinou que, sim, há movimento político de ocupação política, na quantidade de termos em inglês que são transpostos para o português, sem tradução.

    Nosso empenho a favor da Lei do Deputado Carrion não é, portanto, corolário de estudo de linguística, mas corolário do nosso trabalho político militante feito.

    E, sim, sabemos, que todas as discussões que se façam SOBRE língua, fazem-se também EM língua, na e pela língua. E que a língua é fenômeno complexíssimo, no qual se condensam, além de ideologias, também desejos; além de história, também o futuro; além de saberes científicos, também preconceitos de classe; além de teorias, também as lutas. E a luta sempre continua, na vida de todos os pobres do mundo — os quais, de seu, muitas vezes, só têm a língua na qual nasceram. O que um dia acaba são, isso sim, as teorias linguísticas.

    Nenhuma lei de língua jamais resolverá problema algum. E, sim, a língua têm mecanismos de criação capazes de superar qualquer dificuldade de expressão. Mas a língua TAMBÉM tem potências e mecanismos capazes de traduzir ABSOLUTAMENTE qualquer ideia, construída em qualquer língua e em qualquer tempo. Nenhuma tradução será jamais perfeita, mas o esforço de traduzir ensina MUITO MAIS do que o conforto conformado, rendido, desó repetir, tantas vezes sem entender.

    Então… por que não explorar as potencialidades da língua portuguesa do Brasil e INSISTIR em traduzir palavras como “marketing”, “drone”, “commodities”, “hedge funds” e tantas outras? A experiência da Vila Vudu ensina que se aprende MUITO, só com arriscar-se a tentar traduzir o que jamais foi traduzido. Por que não, pelo menos, tentar traduzir?

    De onde, diabos, saiu essa linguística que tanto se empenha em ensinar os falantes a repetir, como papagaios, o que tantas vezes absolutamente não entendem? E sobretudo: por que ensinar ISSO?!
    +++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

  12. Bruno Cava Responder

    Espero que Tarso Genro sancione essa lei com um sonoro “Anauê!”

    1. Eduardo Martinez Responder

      Ou vete, para que seja ouvido teu sonoro: – Heil! Hitler!

      1. Eduardo Martinez Responder

        Quis dizer vete e seja obrigado a ouvir teu “Heil! Hitler!” sem pé e sem cabeça. Só se sente “oprimido” pela identidade cultural quem não a tem.

        1. Luís Responder

          Godwin, sempre ele. A muleta retórica dos imbecis sem argumentos.

          1. Eduardo Martinez

            Os “inteligentes” que me perdoem, mas sabedoria é fundamental.

          2. Renata L

            Luis, tava zapeando por aqui e não resisti qdo vi sua obs sobre Godwin. Acabei de excluir um cara que conheço de outros carnavais do meu FB por conta disso.
            Usou Godwin, tá fora.
            E o cara usou.
            Ou seja… é exatamente…
            CQD.
            Abraços.

          3. Luís

            É, Eduardo Com Sobrenome Bebê Chorão, eu te perdoo. Temos que perdoar os idiotas de vez em quando.

            E obrigado pelo deferência, Renata L. :)

  13. Castor Filho Responder

    (texto enviado via e-mail pelo Emb. Arnaldo Carrilho (RPDC) para a redecastorphoto e postado nos comentários de: http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/05/carta-aberta-ao-governador-tarso-genro.html )

    Sou de uma geração em que os diplomatas tínhamos como colegas uma constelação de nomes de grande destaque na cultura brasileira: João Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, Vinicius de Moraes, Ribeiro Couto, Raul Bopp, Antonio Houaiss, Miguel Ozório de Almeida, Octavio Dias Carneiro, Roberto Campos, os então jovens José Guilherme Merquior, Francisco Alvim, Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães… O notável filólogo e lexicógrafo Antonio Houaiss, junto como Mattoso Câmara Jr, Jesus Bello Galvão, Adriano da Gama Cury e Rocha Lima, foram meus mestres de língua-linguística. Para ambos, a língua vivíssima e evolutiva do Brasil não era fenômeno de beletrismo masturbatório. Era o palco de suas pesquisas.

    Acho o cúmulo que haja gente que não divise em seus horizontes as manipulações de linguística, semântica e de linguagem na presente conjuntura globalizante. Vou um pouco mais longe, conceitualmente, que as classificações “inglês de Wall Street” e o das “tropas de ocupação”. Prefiro generalizá-las num “inglês televisivo” e da tornada medíocre (como todas) “classe média estadunidense”; em termos mais concretos, num “inglês reacionário”. É esse inglês que nos atinge em cheio, desestrurando o frágil idioma que herdamos.

    Os cursos primário e secundário, de uns tempos para cá, abandonaram o ensino desse idioma, deixando abert o cérebro de nossas crianças e adolescentes a toda sorte de más influências, para começar a da linguagem de nossa televisão (e do cinema também, que reune um sem-número de roteiristas sem nenhum preparo linguístico). Nossas telenovelas, v.g., esfaqueiam diariamente nosso idioma (ou alguem duvida?), tornando-o exangue e à beira da morte. Essa linguagem é a que eliminou os subjuntivos e o uso de tempos verbais adequados; a escolha de palavras da própria cultura do idioma, substituindo-as por ersatz (surrogati) ianques, de significado não-português, ainda que de origem filológica latina(*); a fatídica diminuição da capacidade vocabular de nossos patrícios, desabituados à leitura…

    A título de sugestão, alinho alguns livros do Houaiss que deveriam constar de aulas não só de português, mas até de Ciência Política: O que é a língua?, A crise da nossa língua de cultura, A crise de nossa língua, Sugestões para uma política da língua. Para os que conheceram o Embaixador filólogo e lexicógrafo, não é possível qualificá-lo como um fascista, neofascista ou pós-fascista, logo ele, desde os anos 50, vítima de perseguições e denúncias à socapa, articuladas e promovidas por colegas de direita. Os nomes destes não aparecem, conquanto os da minha geração no MRE saibamos quem são ou foram. O fascismo é eterno como Satã, que a lenda aponta como secretário do Criador (e ainda se discute se Este, passado o Juízo Final, mandará um comando para fuzilá-lo…).

    Abraços do
    Arnaldo C.

    (*) os gringos mudam tudo e nós adotamos tais mudanças acriticamente, até nas comidas, como nas pizze di peperoni, na verdade de salamino piccante ou alla diavola , já que peperone significa pimentão, nada tendo a ver, portanto, com embutidos.

    P.S.: se o que disse até agora não interessa aos Nômades Enxameados, aos quais aderi “para radicalizar a democracia” há sete anos, então penduro as chuteiras. Por que só os velhos dizem besteiras, segundo essa conceitualística brasileira de bosta? Alfabetizem-se e apareçam, que a distância das luzes está em aumento. Ciao!

    Postado por Castor Filho

    12 de maio de 2011 00:37

  14. C. Brayton Responder

    Idioma é patrimônio cultural público. Se a tradução atrapalha, contrate-se alguns bons tradutores (estou disponível). E menos artistas de dublagem, uma vez que produção cultural fortalece a língua. São 300 milhões de lusófonos. Acho que está na hora de algum reconhecimento do fato que não trata de alguma língua franca qualqur.