Os sofismas do jornalismo brasileiro contra o financiamento público de campanha

Aqui e acolá, o jornalismo brasileiro anda sofismando com o tema do financiamento público de campanhas eleitorais. Os recursos retóricos são os conhecidos: inconsistências lógicas, non sequiturs, falsos...

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Aqui e acolá, o jornalismo brasileiro anda sofismando com o tema do financiamento público de campanhas eleitorais. Os recursos retóricos são os conhecidos: inconsistências lógicas, non sequiturs, falsos silogismos, analogias enganosas, enfim, a matéria de todos os dias da imprensa brasileira. Em boa parte dos casos, a coisa se resume a uma ou outra versão de um conhecido sofisma: o jornalista reconhece que o conluio entre o dinheiro privado e o Estado é a fonte da corrupção, mas retruca que o financiamento público não acabará com ela. Em termos formais, é como descartar a Lei Maria da Penha dizendo que ela não acaba com a violência contra as mulheres. Ora, não façamos nada, então? Eliminemos, pois, o artigo 121 do Código Penal, já que homicídios continuam acontecendo por aí. E voltemos ao mundo de Hobbes.

O debate é difícil, porque esse raciocínio sofístico já está tão arraigado no senso comum – alimentado por uma imprensa que sempre noticia a corrupção do agente público, mas nunca quem é o corruptor – que uma felicíssima pesquisa da agência de comunicação APPM, publicada por Carta Capital, colocou os pingos nos i’s. Os números são sensacionais e quem conhece o senso comum não duvidará de sua veracidade. Se perguntados se são contra ou favor da corrupção, claro, 100% dos eleitores, ou algo próximo disso, se declararia contrário. Nada menos que 84% dos eleitores pesquisados disseram que o fato de um candidato receber doações de empresas aumenta as chances de corrupção política. Ou seja, o eleitor sabe de onde vem a grana que corrompe, mesmo que 45% não saiba que o modelo brasileiro atual mescla dinheiro privado e dinheiro público (do fundo partidário e da isenção fiscal do horário político em TV e rádio). No entanto – e eis aqui o pulo do gato –, nada menos que 81% dos eleitores se declara contra o financiamento público de campanhas.

Não é sensacional? Ele sabe que é a doação privada que corrompe, mas é contra o financiamento público. Como explicar essa bizarríssima combinação? Ora, é muito simples: a esmagadora maioria do eleitorado não sabe que, com o financiamento privado, ele também está pagando a conta. Com a singela diferença de que não temos contabilidade da coisa. A empresa repassa os valores gastos aos produtos ou, pura e simplesmente, recolhe depois, via corrupção, as benesses em nome das quais investiu no político. Paga-se a conta sem saber, porque, afinal de contas, “dar dinheiro público para político” não pode. Só pode se não houver contabilidade, porque aí, claro, mantemos nosso direito de gritar contra os safados dos políticos e “toda essa corrupção que está aí”. O financiamento privado é despolitizador por excelência, pois favorece o discurso que reduz a política à moral.

O jornalista Elio Gaspari cometeu uma espantosa sequência de sofismas em seu recente libelo contra o financiamento público. Limito-me a citar o parágrafo que trata dos EUA:

A proposta [de financiamento público] instala uma ditadura financeira dos partidos. No atual sistema, os diretores das empresas privadas tiram dinheiro do cofre dos acionistas e jogam-no nas campanhas de seus candidatos. Esse tipo de financiamento poderia ser limitado, ou mesmo proibido, como sucede nos Estados Unidos. Lá, nas últimas décadas, ao longo de 16 eleições, apenas 18 bilionários tiraram de seus bolsos quantias que, somadas, superaram a marca de US$ 1 milhão. Todas as doações desses magnatas totalizaram US$ 41,6 milhões. Na última eleição brasileira, sozinha, a Camargo Correa doou o equivalente a US$ 51 milhões do patrimônio seus acionistas.

Nada do que Gaspari diz aqui é incorreto, mas o problema está no que ele omite. Parece-me espantoso que alguém argumente contra o financiamento público usando como referência justamente os EUA, país onde o dinheiro corrompeu todo o sistema político. Porque se é verdade, como diz Gaspari, que poucos bilionários contribuíram a campanhas eleitorais com quantias vultuosas, também é verdade que Gaspari omite as duas grandes fontes de circulação de grana no sistema político dos EUA: as 527s e o chamado soft money. Para esses enormes balcões de negócios, não há nenhum limite. O resultado é o que temos hoje: 86% dos cidadãos norte-americanos desaprovam o Congresso do país, mas não têm nenhuma condição de mudá-lo. Realmente, deve ser uma beleza de sistema, prontinho para o Brasil copiar.

Em primeiro lugar, só num sentido bem superficial é verdadeiro que as empresas não podem financiar campanhas nos EUA. Sim, elas não podem doar dinheiro diretamente a um candidato. Mas, especialmente depois da decisão da Suprema Corte Citizens United vs. Federal Electoral Commission (que quem tiver paciência pode ler na íntegra aqui), os limites praticamente inexistem, porque a própria legislação cria as alternativas para o capital. Comentando na época, Nathaniel Persily, professor de ciência política em Columbia University, afirmou: “esta decisão só não abriu totalmente as porteiras para o capital privado porque, para começar, as porteiras já estavam abertas”.

Uma corporação não pode doar dinheiro a um candidato nos EUA, mas pode criar, para esse objetivo, uma PAC (Political Action Committee). Ali os limites já não são US$1.000,00 por ano, como é o caso dos indivíduos, mas pulam para US$ 5.000,00. Ainda é um valor razoável, certo? Sim, se não existisse a instituição do soft money – o dinheiro que não é doado explicitamente para uma campanha eleitoral, mas dado ao partido político ou a organizações político-propagandísticas independentes (por oposição ao hard money, doado à campanha do candidato e para o qual há limites estritos). As típicas organizações receptoras do soft money são as 527s, nomeadas a partir do código de imposto de renda que as regula. Se você não sabe o que é uma 527, você não terá condições de medir o tamanho da monstruosidade que Gaspari quer apresentar como modelo de financiamento de campanha eleitoral.

Não há qualquer limite para doações às 527s. A contrapartida é que ela não pode pedir votos explicitamente para um candidato mas, na maioria dos casos, isso não é necessário. Tomemos um exemplo, a Swift Boat Veterans for Truth, uma organização 527 que investiu dezenas de milhões de dólares em comerciais de televisão que caluniavam o candidato democrata à Presidência em 2004, John Kerry, dizendo que ele havia colaborado com o inimigo na Guerra do Vietnã. Os comerciais manipulavam as posições anti-guerra abraçadas, depois da volta ao país, por um militar condecorado, em favor, evidentemente, do seu único adversário, George W. Bush (que, aliás, escapou da guerra por um estrategema montado por seu pai). O efeito dos comerciais foi devastador, decisivo para o resultado da eleição. Os Swift Boaters não precisavam pedir votos para Bush para que soubéssemos que trabalhavam para ele.

Aí vão, como exemplos, as quantias gastas por algumas 527s para as últimas eleições: a Republican Governors Association gastou 131 milhões de dólares. A Democratic Governors Association gastou pouco menos da metade, 64 milhões. A Citizens for Strength and Security, financiada pelo lobby das armas, levantou quase 7,2 milhões. Por aí vai. E Gaspari diz ao leitor da Folha de São Paulo que nos EUA o financiamento de campanhas por empresas privadas é “proibido”. É como se alguém me perguntasse “Quem foi Pelé?” e eu respondesse “foi o ponta-de-lança vice-campeão paulista de 1959 com o Santos”. Menti? Não. Só omiti tudo o que importa.

Comentando o atual sistema de financiamento de candidatos ao Congresso dos EUA, Michael Barone, que foi editor do Yale Law Journal e do Harvard Crimson, explica as coisas direitinho: “Uma viagem a qualquer capital estadual – por exemplo, Harrisburg, Pennsylvania ou Springfield, Illinois – lhe permite descobrir que tal ou qual pessoa na Califórnia doou US$1.000, 00. Mas permanecerá escondido aquilo que os proprietários do fundo nacional de soft money dos partidos sabem muito bem, ou seja, que esse doador da Califórnia também lhes deu um cheque de US$100.000,00. Em outras palavras, aqueles que se beneficiam do dinheiro sabem de onde ele veio, mas o público está efetivamente barrado de sabê-lo”. Esta última frase de Barone define o sistema de financiamento político que funciona nos EUA. Até as baratas de New Orleans sabem disso, mas os jornalistas brasileiros que querem apresentar o sistema dos EUA como modelo parecem não saber. Eu jamais afirmaria, claro, que eles fingem não saber porque as próprias empresas em que trabalham são doadoras.

Mas os sofismas dos jornalistas não param nos de Gaspari. Alon Feuerwerker critica o financiamento público com o seguinte argumento: O partido majoritário, por ter vencido a última eleição, terá garantida uma vantagem financeira irreversível, pois se não é razoável que a verba seja igualmente distribuída pelas legendas, o único critério alternativo é o apoio obtido na última eleição.

Segundo o raciocínio do Alon, será irreversível a vantagem financeira de um partido que teve, digamos, 45% dos votos sobre um partido que teve, digamos, 38% dos votos! Mais irreversível que a atual vantagem que detêm os candidatos financiados por Camargo Corrêa e Odebrecht contra os candidatos que se financiam com vaquinhas, feijoadas e contribuições de eleitores comuns! Só no jornalismo brasileiro você lê essas coisas.

O financiamento público de campanhas não acabará com a corrupção, da mesma forma como o artigo 121 do Código Penal não acaba com o homicídio. Ele criará, inclusive, um mecanismo para que se entenda de onde vem a corrupção. Porque, afinal de contas, se Gaspari argumenta, contra ele, dizendo que a eleição passada custou R$ 3,23 bilhões pelo Caixa Um, e se ele concede que, com financiamento público, ela poderia custar um terço disso, falta fazer mais um cálculo, não é, caro jornalista? Quanto a eleição passada custou pelo Caixa Dois? Claro, não sabemos. O que é espantoso que não se saiba, como afirmou a tuiteira Renata Garcia, é que, de um jeito ou de outro, somos nós que pagamos a conta. Eu não sei vocês, mas eu quero ver a contabilidade.



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25 comments

  1. Otto Responder

    Idelber: e o que vc. acha de associar financiamento público à doações de pessoas físicas, desde que limitadas a um teto de, digamos, R$ 100,00 por CPF?

    1. Idelber Responder

      Caro Otto, eu toparia até um teto maior, digamos, de R$ 5.000 por CPF. O problema são as montanhas de dinheiro de empresas. Isso aí tem que acabar.

    2. Otto Responder

      Desculpe retomar só agora: mas porque esse lance de doações de pessoas físicas (independente se o teto é 100 ou cinco mil) não aparece no debate? Parece-me que esta “janela” tornaria o financiamento público de campanha mais palatável.

  2. Roberto Responder

    Meu caro Idelber Avelar,artigo esclarecedor sobre o uso do dinheiro nas campanhas eleitorais, mudou minha posição, passo a ser defensor do financiamento público de campanha.É o rumo para o Brasil.
    O que mim intrica é que o Sr. coloca que o povo americano não tem nenhuma condição de mudar o Congresso, com 86% de rejeição.Qual os motivos, o que recomenta para minha maior compreensão.
    Grato,
    Roberto

    1. Idelber Responder

      Roberto, para resumir uma história que é longa e complicada: tanto o Partido Democrata como o Partido Republicano estão tomados por poderosíssimos lobbies, muito ricos. Dadas as limitações da legislação sobre os outros partidos, e dada a quase ausência de limitação sobre a grana, torna-se impossível construir uma alternativa com um mínimo de chances. Abraços.

  3. Alon Feuerwerker Responder

    Caro Idelber:

    1) Não vejo por que ideias diferentes das nossas devam ser desqualificadas como “sofismas”. São só ideias diferentes.

    2) Não concordo que o financiamento privado torne o beneficiado automaticamente refém de quem o financiou. Ao contrário, acredito que a liberdade para buscar recursos eleitorais na sociedade é um vetor democrático.

    3) Seu exercício estatístico de 45 x 38 faz sentido, mas se os números se afastam deixa de fazer. Como teria sido a trajetória do PT se o financiamento público exclusivo com distribuição proporcional estivesse em vigor quando o PT tinha menos de 10% dos votos? O que escrevi, e mantenho, é que o mecanismo proposto engessa a moldura partidária e impede a ascensão de novas forças políticas. E no Brasil a possibilidade de renovação política tem sido vetor fundamental na defesa da cidadania.

    De todo modo, obrigado pelas observações. A crítica sempre ajuda mais que o elogio.

    Abs.,

    Alon

    1. Idelber Responder

      Caro Alon: gostei muito do nosso papo e da ideia de um debate. Reitero que há muita coisa no seu texto que me fez pensar bastante. Deixemos a discussão do seu ponto nº 3 para a nossa conversa pública, mas adianto que acredito que se o mecanismo de financiamento público já estivesse em funcionamento na época em que o PT tinha 10% dos votos, ele teria crescido ainda mais, ou mais rapidamente. A diferença entre toda a grana dos PMDBs e quetais e a “venda de estrelinhas” teria sido menor. Claro que, depois, o próprio PT saiu da “venda de estrelinhas” para o dinheiro de empreiteiras, mas isso foi em outro momento. Enfim, mantenhamos o papo. Forte abraço.

  4. Manuel Responder

    E agora ainda tem os SuperPACs, né Idelber?

    Mas a maior querela da imprensa (desses dois jornalistas inclusive) é com a lista fechada, que, dizem, seria passaporte pra ditadura das cúpulas partidárias. Você não quer fazer outro texto sobre essa polêmica da lista?

    1. Idelber Responder

      Oi, Manuel, o problema da lista totalmente preordenada é que, pelo jeito, Inês já é morta. A proposta em tramitação agora é um sistema misto, em que metade seria eleita por votação nominal e a outra metade por lista. Não é o ideal, mas já melhora, especialmente porque pressupõe o fim das coligações nas proporcionais.

  5. Lourdes Araujo Responder

    Boa tarde a todos.

    Já existem estudos sobre a parcela de financiamento público de eleições e partidos no Brasil. Não me lembro o(s) autor(es), mas já temos resultados publicados. O horário eleitoral gratuito, por exemplo, é gratuito para os partidos e candidatos, mas as redes de TV e rádios são ressarcidos pelo poder público; existem fundos partidários distribuídos a partir da justiça eleitoral; verbas que deputados e senadores eleitos recebem no Congresso vão, muitas vezes, para o processo eleitoral (nacional ou local).
    Este financiamento público já existente precisa ser incorporado ao raciocínio, senão a gente pensa que está diante de uma eleição financiada apenas por setores e/ou pessoas tomados privadamente.

    1. Idelber Responder

      Caro Lourdes: corretíssima. Eu acreditava haver incorporado isso ao argumento, na penúltima frase do segundo parágrafo. Um abraço.

  6. wagner Responder

    Você diz que o argumento “o financiamento público não acabará com a corrupção” não é um argumento válido para criticar o financiamento público. Concordo totalmente, mas quem usa esse argumento não o faz com esse objetivo, mas sim para contrapor a outro argumento muito usado, e falso, que é o seguinte: “o financiamento público eliminará a corrupção”. Já li gente defendendo o financiamento público dessa forma, e, nesse caso, o primeiro argumento, é bastante válido, não tem nada de sofisma.

  7. Marcos Responder

    O Wagner disse tudo, Idelber. Normalmente estou com você, e realmente algo me diz que você provavelmente têm um ponto. Mas não vejo como o financiamento público irá impedir o capital de contornar a proibição que lhe façamos. Se o sofisma do jornalismo é real, esse que você coloca também me parece aquele sofisma clássico do comunista universitário, que diz que o capitalismo mata milhões de pessoas de fome logo não há problema em conduzir meia dúzia de paredones. Quer dizer que dar dinheiro público pro PR é justificado porque de qualquer forma eles pegam tanto dinheiro público, não é mesmo?, pelo menos assim o PSOL leva um pouquinho também.

    Seu argumento acaba parecendo mais um argumento contra limitações ao financiamento privado. Se nos EUA, que essa limitação existe, o dinheiro rola por vias alternativas, qual seria o sentido de dar mais dinheiro pro PRTB fazer campanha do Aerotrem? Isso, em si, vai fazer o pessoal da Odebrecht pensar duas vezes antes de financiar campanha do Jader? Afinal, ou você proíbe todas as ONGs de existirem ou o dinheiro vai continuar entrando em campanhas anti-Marinor como a campanha Anti-Kerry que você menciona. Daí de repente, em São Paulo, o Instituto von Mises e a APEOESP – na melhor das hipóteses – vão virar instituições milionárias. É esse o plano?

    Enfim, explique-se aí. Parece que você só ficou bravo com o Gaspari e não foi até o fim no próprio argumento!

    1. Idelber Responder

      Galera, vamos por partes:

      1. Eu não conheço nenhum defensor sério do financiamento público de campanha que diga que ele vai “eliminar a corrupção”. Pra quem pensou sério sobre o assunto (recomendo os textos do Fernando Limongi, que estuda muito bem o sistema político), a própria ideia de que algum dia você vai “eliminar” a corrupção é meio louca, desvairada. Você vai colocar limites, dar às leis alguma forma de combatê-la etc.

      2. Sobre o seu segundo parágrafo, Marcos: o lance é que o sistema dos EUA cria limitações que não são limitações. Eu falei das limitações, mas o ponto mesmo do texto é que esses limites, no fundo, não existem nos EUA.

      3. Sobre as “vias alternativas”: aí é com a lei. Se estiver explicitamente proibido, o Ministério Público, os órgãos de controle, têm instrumentos. Sim, eu sei que um país em todas as leis sejam respeitadas é utopia, mas ou trabalhamos com esse horizonte, mesmo sabendo que não se chega lá nunca, ou cruzamos os braços e não fazemos nada.

      4. O caso das ONGs no Brasil é bem diferente dos EUA. O sistema no Brasil não é bipartidista, não há tanta tradição de organizações propagandísticas interferindo na eleição, e não há razão para que o financiamento de campanha não regule também a participação delas.

      Enfim, em nenhum momento sugiro que o financiamento público é a panacéia que resolve tudo. Há que se pensar em uma série de outras coisas (fim de emendas individuais no Parlamento, por exemplo). Mas a alternativa ao financiamento público é a barbárie do capital comprando eleições.

  8. wagner Responder

    Talvez eu tenha exagerado. Você tem razão, ninguém sério diz que o financiamento público ELIMINARÁ a corrupção. Mas muitos dizem que é uma boa medida contra a corrupção, que a corrupção será mais difícil, etc. Mas tirando o exagero reafirmo o que disse.

    Sobre o seu comentário de que a alternativa ao financiamento público é a barbárie, me espanta que um defensor dos governos petistas como você diga isso. Quer dizer que toda a trajetória difícil, suada e lenta do PT desde os pequenos municípios até a presidência foi o capital comprando eleições? Essa tese pra mim é nova.

    1. Idelber Responder

      Caro wagner, eu jamais diria que a trajetória lenta e suada do PT até a presidência foi fruto da compra de votos. Foi fruto do trabalho político de base. Mas também só um militante muito cegado pela ideologia negaria que a compra de votos pelo capital deixou o PT intocado e incólume, não é mesmo? Está lá o Vírgilio Guimarães com o BMG, está lá o Vaccarezza escrevendo projetos com a Monsanto, estão lá os conluios com empreiteiras no Pará … A lista é bem longa, não?

      1. wagner Responder

        Caro Idelber,

        Longe de mim imaginar pureza nos caciques petistas, pelo contrário, eles estão cada vez mais parecidos com os velhos caciques nossos conhecidos.
        Concordo que o sistema eleitoral pode e deve ser aprimorado para evitar ou diminuir as possibilidades de corrupção, e o financiamento público pode efetivamente ser uma melhoria (não tenho muita convicção, mas aceito). Mas na atual conjuntura eu acho que o que contribui mais para o estado lamentável em que nos encontramos é a total impunidade, diria até total imunidade, vigente. Continuando assim, nada vai adiantar pois como qualquer sistema é sempre vulnerável, só vai demorar um pouquinho para que tudo se arranje e a farra continue.

        PS. uma provocação: “militante cego” é quase um pleonasmo, né não?

  9. marcos nunes Responder

    Embora o financimento público não seja o melhor dos mundos, é o que há de melhor para controle (ao menos parcial) da dinheirama que rola nas campanhas políticas e os compromissos dos eleitos com plataformas defendidas por determinadas fontes de financiamento. Quando há uma campanha massiva dos meios de comunicação CONTRA determinada inovação, é batata: ela é a melhor alternativa. Gostaria de ver uma discussão acerca do famigerado “voto em lista”.

    1. Fernando Cesar Responder

      Olá Marcos!
      na tentativa de iniciar um pequeno debate, por aqui, sobre o voto em lista. Este processo eleitoral, atualmente, é um dos mais utilizados no mundo, porém muitos estao pensando em mudar ou ja estao utilizando o nosso modelo, o voto proporcional, que ao ver de alguns pensadores políticos, nao deixa de ser um voto em lista, porém aberto, onde o próprio eleitor coordena, por meio do voto, a ordem de classificaçao desta lista.
      Cabe ressaltar que um dos fatores que levou a crise atual na Espanha foi justamente o voto em lista fechada onde os candidatos sao colocados na lista pelos próprios integrantes do partido, que muitos vezes elaboram estas listas sem utilizar “criterios ou metodos muito republicanos”, ocasionando o que estamos presenciando, pelos cidadaos espanhois, a falta de representatividade politica.
      Cabe citar também aqueles países que possuem o voto em lista fechada, porém sem querer muda-ló para o proporcional, buscam fortalece-lo, como no casa da Argentina que criaram o mecanismo das “internas”, onde há duas eleiçoes, a primera para ele escolher a lista dos partidos (chamada de internas) e a segunda o voto direto no partido.

      1. marcos nunes Responder

        Caro Fernando,

        Gostaria de complementar dizento que o voto em lista, ao menos para mim, se afigura como uma forma de engessamento do processo político-partidário e tentativa de constituição de uma democracia sem povo. Por maiores defeitos que sejam apontados, o voto proporcional, ao menos como eu percebo, permite a figuras não dominantes de espectros partidários viciosos vencer as hegemonias encasteladas na própria sigla, isso com baase no referendo popular imediato. É claro que iso pode resultar na eleição de figuras partidárias satélites, astrounautas, de gente que pousa em determinado partido e, com votos do tipo clientelista, acaba se tornando referência, entre outros perigos do gênero. mas perigo maior não há do que facultar aos dirigentes partidários a formatação de uma lista composta por figuras preferenciais que não são, na visão dos eleitores, aqueles que mais representam o partido.

  10. Fernando Cesar Responder

    Tenho acompanhado alguns blogueiros e diarios virtuais serios e independentes e me parece que a questão está quase unânime, há uma grande corrente majoritária afirmando que o financiamento público exclusivo de campanha torna a pratica do chamado “caixa 2” mais difícil, porém superado este ponto há pouco debate sobre como tornar a campanha pública, barata e com igualdade de condiçoes para todos os candidatos.
    O cientista político Octaciano Nogueira já sugeriu a idéia de diminuir o periodo de campanha eleitoral dos 45 dias atuais para uma ou duas semanas (na Argentina o período de campanha é de 20 dias, assim como em outros países)
    fica aí uma provocação sobre mais um tema a ser debatido diante da nossa reforma política!

  11. Alex Catarino Responder

    Eu só queria acrescentar um fato irrelevante para a discussão, mas que é informação importante do ponto de vista, digamos, moral.
    A decisão do Supremo Tribunal Americano que o Idelber menciona afirma que, na prática, uma Corporação é uma cidadão, uma pessoa física. Esse concepção absurda é de uma corrupção moral preocupante.

  12. Jayme Responder

    Idelber, por uma questão de lealdade, eu preciso mandar um email pra você. Entenda porquê lendo o combalido Dito Assim. Abraços,

  13. Luís CPPrudente Responder

    A imprensa marginal do PIG é contra o financiamento público das campanhas eleitorais pois isto dará mais condições aos partidos honestos se tornarem menos dependentes delas.

    O financiamento público tem que vir, juntamente com a Ley de Medios.

  14. Luciana Responder

    Idelber, gostei do seu artigo. Passei a ser a favor do financiamento público de campanha quando me filiei a um partido político e me coloquei à disposição para me candidatar a vereadora da minha cidade, uma vez que os partidos precisam cumprir a cota de 30% de candidaturas femininas. De todas as tarefas que um candidato a candidato deve cumprir, a única que me fez desistir foi justamente a busca por financiamento. O diretor da regional me disse que eu, pessoalmente, é que terei de levantar os recursos para a campanha, uma vez que o partido tem recursos bem limitados. Assim, eu deveria passar o chapéu entre amigos, vizinhos e quem mais pudesse ajudar. Ou seja, eu, recém chegada na política, já estaria com meu rabo amarrado aos empresários financiadores da minha campanha!
    Eu acredito sim que o financiamento público de campanha trará um bom naco de moralização na nossa política. Não fosse verdade, não haveria tanto peixe graúdo contra.
    Mas eu vou além disso. O financiamento público trará para a política gente comum, com vontade de mudar e de fazer acontecer. Hoje, só entra na politica quem tem grana, seja advinda do próprio trabalho, seja de doações. Do jeito que é hoje, uma dona de casa da periferia da cidade não tem a menor condição de se candidatar, por mais que queira. Um pedreiro, que more na favela e que tenha contato direto com os problemas da sua comunidade, também está fora. Não adianta se filiar, não adianta projeto de trabalho, não adianta boa vontade, naõ adianta a democracia. Você só sai em campanha se tiver muita grana no bolso, rabo preso ou não. Gente famosa, por exemplo, têm a chance de se financiar; gente comum, como eu ou meu vizinho, não.
    Sem financiamento público, não se aplicam os artigos da constituição que diz que qualquer cidadão maior de 18 anos e com escolaridade mínima pode se candidatar a qualquer cargo representativo. É como se na lei houvesse uma frase restritiva, porém invisível, dizendo “(qualquer brasileiro é elegível)desde que tenha recursos financeiros para financiar a candidatura”. A democracia, assim, fica extremamente comprometida, deformada. Vira democracia do poder econômico. E, democracia apenas para alguns, sabemos todos, não é democracia. Abraço!