Engana-se quem pensa que com a posse de Duhalde o movimento popular que derrubou De la Rúa e Adolfo Rodriguez Saa foi abortado. O povo argentino não vai aceitar quieto a política neoliberal que o atual governo pretende manter
Por Miguel Graziano
“Vou ser o presidente de um povo feliz”. Foi sua frase de campanha em 1999. Uma das tantas recordadas com tristeza na quinta-feira, 20 de dezembro de 2001. Nesse dia, à tarde, Fernando de la Rúa teve de deixar a Casa Rosada num helicóptero, depois de uma última e desesperada tentativa de permanecer no poder. Nas ruas, milhares de pessoas sofriam uma das mais violentas repressões policiais desde a volta da democracia, em 1983: trinta mortos e mais de quinhentos feridos foi o saldo dos conflitos que aconteceram durante o anunciado dia D da crise social. E a Praça de Maio voltou a ser um símbolo da luta popular.
A queda de De la Rúa começou 48 horas antes, com uma revolta popular nascida nas camadas mais pobres. Cerca de cinqüenta mercados foram saqueados e pelo menos dezesseis pessoas morreram em todo o país durante as primeiras 24 horas de manifestação. Os pobres saíram às ruas desesperados em busca de comida. O protesto foi uma verdadeira resposta à política que aumentou o número de indigentes de 2 para 5 milhões de pessoas.
Na Argentina, hoje, dos 38 milhões de habitantes, 14 milhões vivem abaixo da linha de pobreza. A taxa de desemprego alcançou 18,3% da população economicamente ativa durante o ano de 2001, apenas 0,1% menor do que a cifra recorde de 1995. Trabalham menos de 35 horas semanais 16,3% das pessoas. Segundo estatísticas oficiais, durante os últimos dois anos, a cada dia mil argentinos, em média, eram demitidos. Com o desemprego aumentou também a precarização das condições de trabalho.
Por isso e muito mais o povo argentino não tinha medo naqueles últimos dias do ano passado. Cada indivíduo estava disposto a se expressar e a lutar depois de tantas humilhações. E cada passo era acompanhado por outros muitos milhares “com a mesma vontade de começar mais uma vez a escrever um pouquinho da história”, contou à Fórum um manifestante.
O ano de 2002 começou com um novo acordo político entre os partidos Radical e Peronista, que levou à presidência o ex-vice-presidente e ex-governador de Buenos Aires Eduardo Duhalde. Antes dele, o senador Ramón Puerta, o governador da província de San Luis, Adolfo Rodriguez Saa, e o deputado Eduardo Caamaño revezaram-se no cargo.
As primeiras horas do ano encontraram a velha política unida para que não ocorram eleições antes de 2003. Seus realizadores serão os mesmos que levaram o país à atual crise: os peronistas Carlos Menem (1989-1999) e seus ex-vice-presidentes, Eduardo Duhalde e Carlos Ruckauf, e o ex-presidente da UCR Raúl Alfonsín (1983-1989). Suas políticas até agora não só fracassaram na solução dos problemas básicos do país como ainda os aprofundaram.
São os líderes que instauraram o modelo econômico do pensamento único, levando adiante privatizações e a flexibilização da legislação trabalhista, e em cujos governos se multiplicaram a dívida externa, o déficit fiscal e a corrupção escandalosa. Apresentam-se como salvadores para devolver a confiança aos investidores e restabelecer uma dita credibilidade.
Só para recordar, como vice-presidente, Eduardo Duhalde assinou, por exemplo, o decreto presidencial que permitiu a privatização da Aerolíneas Argentinas e, durante seu governo na província de Buenos Aires, o desemprego passou de 6,5% em 1991 para os 17,5% registrados ao final de seu mandato, em 1999.
O novo governo tomará medidas urgentes e até necessárias. Por um tempo, ficará escondido atrás de imagens que assemelharam a Argentina ao Afeganistão, com gente em volta de caminhões que distribuíam alimentos. Porém, soa utópica uma mudança mais profunda no modelo. O que deve ocorrer é uma “Segunda Reforma de Estado”, que terá moratória programada, déficit zero, maior precarização das condições de trabalho e a definitiva privatização da educação e da saúde. Ainda que nada esteja nos primeiros discursos de 2002, é isso que o grupo que assume o poder tem como receita para a crise.
Uma Argentina diferente nasceu em 20 de dezembro de 2001. O parto foi doloroso, morreram 30 pessoas. Isso não aconteceu à toa. E as mudanças exigidas por esse movimento popular não vão se concretizar com o governo que assumiu no princípio de 2002. As ruas vão falar de novo. Podem esperar.
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