Poesia cantada

Lançamentos de CDs e livros apontam para a intensificação do diálogo entre música e poesia Por Ricardo Santhiago   Pergunte à poeta Alice Ruiz sobre o seu próximo lançamento. Se a resposta sugerir que “o CD sairá...

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Lançamentos de CDs e livros apontam para a intensificação do diálogo entre música e poesia

Por Ricardo Santhiago

 

Pergunte à poeta Alice Ruiz sobre o seu próximo lançamento. Se a resposta sugerir que “o CD sairá em breve”, não se espante. Ela e Alzira Espíndola, cantora e compositora sul-mato-grossense ligada à Vanguarda Paulista, finalizaram recentemente o álbum “Paralelas”, que celebra quinze anos de suas parcerias musicais e deve chegar às lojas até o mês de maio.

Esse é apenas um dos vários exemplos da reaproximação entre a música e a poesia – ou melhor, entre músicos e poetas – fornecidos pelo mercado fonográfico. Para o compositor e pesquisador Luiz Tatit, “os poetas contemporâneos, desde os anos 70, estão se aproximando mais da canção”. “Eles sentem que serão muito mais ‘curtidos’ se entrosarem os seus versos com uma melodia”, garante.

Em diversos álbuns e CDs lançados recentemente, escritores atuam como letristas, músicos e até mesmo cantores, lavrando e consolidando não apenas o dizer poético, mas também o como dizer. Engano, porém, pensar que essa prática seja recente.

Desde a Antiguidade Histórica, o ritmo é elemento-chave na expressão poética. Mesmo nas mais radicais revoluções estéticas, foi mantido, sempre roçando as outras estruturas. “Pra mim, poesia é sons, imagens, sentidos, numa dança de acasalamento. Um triângulo amoroso. Seduzindo, tentando copular entre si. Mordendo aqui, lambendo ali, encaixando lá”, confirma o poeta Alexandre Brito.

O Trovadorismo, momento artístico iniciado em Portugal no final do século XII, potencializou o estatuto musical da poesia, seu principal meio de expressão literária. Como forma fixa, adotou a cantiga, composição feita para ser cantada ou acompanhada por instrumento musical. Era feita na chamada “medida-velha”, a redondilha, em versos de 5 ou 7 sílabas. O poeta chamava-se trovador e suas criações, líricas ou satíricas, eram reunidas em cancioneiros.

Canção O desenvolvimento da poesia foi cobrado, no início do século XX, por Mário de Andrade, também professor e pesquisador de música. Para ele, se a melodia havia passado para a harmonia, com a combinação de sons simultâneos, a poesia também deveria desenvolver um tipo de verso harmônico, que convidasse o leitor a preenchê-lo.

É dessa mesma época que data o casamento célebre e decisivo entre música e letra. “Se pensarmos que o século XX viu consagrar-se a arte da canção, e que a canção é a arte que conjuga a música e a poesia, podemos concluir daí que a retomada dessa união, na forma da canção, completará um século em breve”, diz o letrista e jornalista Carlos Rennó.

Não são recentes, portanto, nem a união entre as duas artes nem seu resgate. O estranhamento entre as duas encerrou-se no Brasil há cerca de cem anos. No livro O Século da Canção, Tatit diz que eles foram “suficientes para a criação, consolidação e disseminação de uma prática artística que, além de construir a identidade sonora do país, se pôs em sintonia com a tendência mundial de traduzir os conteúdos humanos relevantes em pequenas peças formadas de melodia e letra”.

Ao longo de todo esse período, o refinamento poético acompanhou a tradição musical brasileira e foi uma de suas principais marcas. Basta passar os olhos pelas letras de Chico Buarque, Vinícius de Moraes ou Hermínio Bello de Carvalho para que quaisquer dúvidas sejam sanadas.

A impressão que se tem, de uma retomada da união entre música e poesia, talvez possa ser creditada ao elevado grau de refinamento que a canção contemporânea atingiu. Desconsiderando as paradas de sucesso – quem ouvir os top hits vai achar que elas nunca estiveram tão separadas –, o discurso da música popular brasileira é rico em som e sentido. “Em muitos casos, a letra de música de nosso tempo resulta no que poderíamos chamar de poesia; ela atinge o status poético – a letra artística. Em alguns casos muito especiais, ela prova uma sustentabilidade autônoma da música, isto é, uma sustentabilidade na página”, diz Rennó.

Nos livros Se o compromisso poético já se apresenta como componente indissociável da canção, a recíproca é verdadeira. O aparato externo da música acaba por influenciar até mesmo a produção editorial, em aspectos muito peculiares.

A novíssima AMEOP – Ameopoema Editora, de Porto Alegre – lançou 14 títulos de uma só vez. E a sua originalidade não está apenas nos versos de Glauco Mattoso e Fred Maia, entre outros. Nas capas, há fotos dos escritores – como nos CDs em que os cantores aparecem – vestindo uma camiseta com a inscrição da editora.

Os lançamentos coletivos, com o maior número possível de autores, aludem a turnês. “Na poesia, mais do que na prosa, há uma voz. Há uma cara por trás do poema. Às vezes, o eu lírico se confunde com o eu eu. A cara e a voz de Drummond, por exemplo, estão na nossa memória junto com o seu texto. Isso aproxima do cantor, da banda”, diz Ricardo Silvestrin, poeta e um dos editores da AMEOP – o outro é também o criador Alexandre Brito.

Não é coincidência que eles, junto com Ronald Augusto, tenham acabado de lançar o CD Música Legal com Letra Bacana. Eles formam o grupo Os poETs (leia-se poetês), unido pela vontade de juntar talentos e afinidades para compor canções.

“Compusemos diversas canções em um período relativamente curto, que desembocou em shows e nas várias edições do espetáculo Abdução, onde apresentávamos nossas canções permeadas por alguns poemas”, diz Brito. O trabalho chamou a atenção dos produtores musicais Alê Siqueira e Maurício Tagliari, da YB Music, selo pelo qual o CD chega às lojas.

Múltiplo, o disco traz influências da linguagem da música pop. Como dizem os autores, há música para dançar, pensar, namorar, rir, chorar e surpreender. “Dentro da palavra poeta tem um ET”, dizem na última faixa, sugerindo versatilidade, mas não confusão. “São duas artes para dois públicos. Nossos poemas estão nos nossos livros. E nossas músicas, no nosso CD”, afirma Silvestrin.

Mesmo longe dos aparatos promocionais das grandes gravadoras, esse tipo de produto atinge inevitavelmente um público maior do que o livro consegue alcançar. São, também, audiências diferentes e dispersas. Como aponta Alice Ruiz, “a questão é a simultaneidade da recepção [no caso do rádio] versus a relação solitária do leitor e seu livro”.

No CD Paralelas, ela conta, porém, com dois trunfos: as participações especiais de Arnaldo Antunes e Zélia Duncan. A cantora niteroiense não apenas participa como intérprete em três canções, como também assina o projeto com o seu selo, o Duncan Discos. Arnaldo participa de Ré za em Fá – para Alzira Espíndola, “mais como um poeta”. “Sempre vimos, nessa música, uma ‘música-poema-visual’ que ele soube traduzir como ninguém”, diz.

O lançamento das duas artistas chega à mídia digital dois anos depois de estrear no palco. O espetáculo Fundamental – que não era recital, nem sarau, mas show – já viajou pelo país, mudou de nome e será consolidado em num disco que reúne poesias musicadas, canções em parceria e poemas “proclamados”.

O formato é inspirado em uma apresentação que Alice e a cantora Rogéria Holtz fizeram no final da década de 1990, em Curitiba. Em 2001, quando mudou-se para São Paulo e aproximou-se mais de Alzira, percebeu que as duas tinham um trabalho pronto para um CD, que recusa o rótulo de produto híbrido. “Estou nele como poeta e como letrista. São dois momentos. No mesmo momento”, diz a autora de Pelos Pêlos, vencedor do Prêmio Jabuti de Poesia de 1989.

A unidade de um livro está presente em Paralelas e pode ser sintetizada em seu primeiro texto. “No princípio era o ritmo / e o ritmo transformou-se em som / e fez-se o verbo / e o verbo viu que o som era bom”, fala-se, subvertendo a gênese e explicando o próprio trabalho criativo. “A letra fica processando intuitivamente até gerar a música. Eu posso, no máximo, olhar um texto e ter a intuição se ele é musical”, diz Alzira.

Alice, que não toca nenhum instrumento, também sente algo parecido. “Alguns parceiros dizem que sou muito musical e isso é música para os meus ouvidos”. Sobre a possibilidade de ter seu trabalho poético disseminado, ela é categórica. “Espero que Paralelas seja bem ouvido. E que os livros dos bons poetas também sejam lidos. E que nem seja válida essa disputa.”

 

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