Afinidades eletivas

Monsanto, a gigante dos organismos geneticamente modificados, e a fundação de Bill Gates, ex-presidente Microsoft, se aproximam para financiar pesquisas com transgênicos na África Por Por Rafael Evangelista  ...

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Monsanto, a gigante dos organismos geneticamente modificados, e a fundação de Bill Gates, ex-presidente Microsoft, se aproximam para financiar pesquisas com transgênicos na África

Por Por Rafael Evangelista

 

Primeiro foi Robert Horsch que deixou, no ano passado, a vice-presidência de parcerias internacionais da Monsanto para se dedicar a projetos da Fundação Bill & Melinda Gates na África. Em março, foi a vez de Lawrence Kent juntar-se ao time, deixando a diretoria de programas internacionais do Donald Danforth Plant Science Center, instituto de pesquisa fundado e mantido com verbas da Monsanto. Sob os auspícios da mais rica fundação filantrópica do mundo, ambos devem continuar insistindo na iniciativa que os notabilizou nos últimos anos: a tentativa de introdução de transgênicos no continente africano.
Oficialmente, ambos foram recrutados pela fundação por sua experiência prévia com a África. Horsch esteve à frente do projeto que buscava introduzir uma variedade resistente de batata-doce no continente. Para isso, usou uma pesquisadora queniana, Florence Wambugu, como testa-de-ferro, omitindo o patrocínio da companhia. Wambugu anunciou, durante anos, falsos sucessos do projeto, até ser desmentida por pesquisadores independentes, que apontaram o comando da Monsanto e a fragilidade dos dados anunciados. A batata-doce tradicional mostrou-se mais produtiva que a variedade transgênica.
Kent, por sua vez, dedicou-se por sete anos a pressionar os governos africanos a liberarem a variedade de mandioca resistente ao vírus do mosaico africano, desenvolvida no Danforth Center. Profissional de relações públicas, esteve no Quênia, Malawi e Uganda. Porém, em maio do ano passado, os cientistas de Danforth tiveram que admitir que a variedade que desenvolveram em 1999 perdeu a resistência à doença.
Horsch e Kent responderão, em seus novos empregos, a Rajiv Shah, diretor de desenvolvimento de programas agrícolas da Fundação Gates, que cuida do financiamento de quatro áreas: tecnologias para o melhoramento de sementes; fertilizantes, irrigação e sistema de gerenciamento de fazendas; acesso a mercados; e defesa pública de melhores políticas agrícolas (o popular lobby).
Questionada pelo jornal Seattle Times, em 17 de outubro de 2006, sobre se está passando a advogar pelas sementes geneticamente modificadas, a Fundação responde apenas que “quer perseguir qualquer opção que possa levar a atingir seu objetivo de aumentar a produtividade agrícola em países pobres”. A lista de novos funcionários ajuda a corroborar a idéia de que a biotecnologia é, para os Gates, a escolha da vez. Ela inclui, além dos ex-Monsanto, o ex-presidente da Alta Genetics, uma empresa canadense de biotecnologia, (a maior em inseminação artificial bovina do mundo), e o ex-diretor de pesquisas da gigante farmacêutica GlaxoSmithKline.

Nova revolução verde
As novas contratações e a expansão da Fundação Bill & Melinda Gates surgem logo após o anúncio de um gigantesco aporte de recursos. Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo, perdendo apenas para o próprio Bill Gates, decidiu destinar 85% de sua fortuna à instituição, o equivalente a US$ 30 bilhões, o que dobrou o seu tamanho. O dinheiro será aportado paulatinamente e, como condição, a Fundação deverá gastar a cada ano o que recebeu no ano anterior. Para se ter uma idéia do peso da Fundação no continente, o Produto Interno Bruto (PIB) do Quênia é de US$ 50 bilhões. Uganda, Camarões e Angola têm PIBs pouco superiores a US$ 40 bilhões.
No campo da agricultura, um dos parceiros mais importantes da Fundação Gates na África é a Fundação Rockfeller. Ambas estão liderando a “Nova Aliança por uma Revolução Verde”, que pretende gastar US$ 150 milhões em cinco anos no “aumento da produtividade das pequenas fazendas”. Os objetivos mestres do programa são: desenvolver novas variedades de plantas africanas; treinar uma nova geração de agrônomos africanos; garantir que sementes “melhoradas” cheguem aos pequenos produtores; e desenvolver uma rede de comércio agrícola no continente. Parte desse dinheiro será investida na construção de centros de biotecnologia por toda a África.
Duramente criticada por ambientalistas de todo o mundo por ter promovido o uso indiscriminado de agrotóxicos e por prejuízos causados ao meio ambiente, a “revolução verde” é vista com bons olhos pela Fundação Rockfeller. “A Revolução Verde original foi um grande sucesso em muitas partes do mundo”, afirma a presidente da instituição, Judith Rodin. “Nós e a Fundação Bill & Melinda Gates estamos comprometidos em lançar uma ‘Revolução Verde Africana’”, completa.
Organizações sociais ligadas ao cultivo de orgânicos e à soberania alimentar criticam duramente a iniciativa das fundações. O instituto Food First lançou um documento em que aponta dez motivos pelos quais o programa deve agravar o problema da fome e da concentração de renda em vez de resolvê-lo. Essas fundações estariam ignorando as principais lições a serem apreendidas com o desastre da Revolução Verde original, que, pela introdução de pacotes tecnológicos, aprofundou as diferenças sociais e causou diversas mortes derivadas do uso de pesticidas. O problema da fome não seria derivado da falta de produção, mas da falta de dinheiro para que as pessoas possam comprar seus alimentos.
Essa opinião sobre a Revolução Verde é compartilhada por Peter Rosset, pesquisador da Universidade de Columbia, EUA, e autor do livro World Hunger: Twelve Myths (“Fome no mundo: doze mitos”, publicado somente em inglês). Segundo ele, a Fundação Rockfeller já teve um papel ativo na Revolução Verde original, “exportando para o terceiro mundo uma agricultura industrial, baseada em químicos. O resultado foi um aumento na produção de algumas poucas culturas acompanhado de um aumento da fome e da devastação ambiental. Pesticidas e fertilizantes podem degradar o solo, levando à queda de produtividade e ao aumento do custo de insumos de produção. A aparente ingenuidade dos Gates está levando a esses in vestimentos altruísticos na promoção de pacotes tecnológicos que incluem novas sementes. Infelizmente, o resultado deve ser mais lucros à indústria de sementes e fertilizantes”.
O Food First aponta ainda que tanto a Fundação Rockfeller como a Fundação Bill & Melinda Gates têm financiado diversos projetos de modificação genética e que Bill Gates é, pessoalmente, um grande investidor em empresas de biotecnologia.
Durante o último Fórum Social Mundial, realizado em Nairóbi, no Quênia, mais de 70 organizações de trabalhadores rurais africanos e grupos pelo desenvolvimento sustentável assinaram um manifesto em que afirmam que a iniciativa atende apenas a objetivos industriais e guarda uma abordagem para a produção que a faz depender de produtos químicos. Acusam ainda as fundações de usarem a fome para introduzirem sementes transgênicas no continente.

Quem ganha
Há alguns anos, a Fundação Gates também vem enfrentando críticas de movimentos sociais ligados ao combate à Aids. Testes de drogas experimentais na África e na Ásia financiados pela entidade não estariam oferecendo orientação correta à população. Crentes de que a vacina em teste teria o efeito desejado, os pacientes estariam se expondo mais a riscos e deixando de usar preservativos. Muitos acreditariam que a Aids é uma doença para a qual já existe vacina.
Mais críticas foram adicionadas recentemente pelo jornal norte-americano Los Angeles Times. Segundo a publicação, a Fundação Bill & Melinda Gates teria um papel ambíguo: ao mesmo tempo em que financia iniciativas bilionárias de combate à fome e a doenças tropicais, teria grande parte de seu dinheiro investido nas empresas que agravam os problemas do continente africano.
Para que a Fundação mantenha seu estatuto de filantrópica, ela precisa investir, anualmente, no mínimo 5% de seu patrimônio. Essa quantia, hoje próxima de US$ 1,5 bilhão, deve chegar a US$ 3 bilhões com o aporte feito por Warren Buffett. Os outros 95% do dinheiro vão para investimentos diversos, o que inclui as ações de várias companhias. O que o Los Angeles Times sustenta é que, entre essas empresas, estão petrolíferas como a italiana Eni, a Royal Dutch Shell, a Exxon Mobil Corp., a Chevron Corp. e outras. Elas têm plantas de produção e causam desastres ambientais bem ao lado de projetos filantrópicos da Fundação Gates.
O fundo de investimentos da instituição faz aplicações também em empresas farmacêuticas, que se negam a vender aos países africanos a preços acessíveis drogas que diminuiriam o sofrimento dos portadores do vírus HIV. Merck, Schering Plough e Abbott Laboratories estão entre essas companhias com US$ 100 milhões a US$ 1 bilhão em ações nas mãos da Fundação. As empresas, ao obterem mais lucros e terem sucesso no mercado de medicamentos, fazem com que o patrimônio da Fundação cresça proporcionalmente. Assim, se uma delas obtiver sucesso no desenvolvimento de uma vacina em teste, por exemplo, parte dos lucros também vão para a Fundação.
Críticos como Daniel Berman, da organização Médicos Sem Fronteiras, apontam ainda que o que a Fundação Gates deveria fazer com relação à Aids, ou seja, garantir que as drogas cheguem ao lugar onde mais são necessárias, é algo conflituoso com o negócio de onde vem boa parte do dinheiro da filantropia, a Microsoft. Esta, cujo poder advém do domínio que possui sobre o mercado de softwares para computadores, lucra com as mesmas leis de propriedade intelectual que favorecem as empresas farmacêuticas. F



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