A memória viva de um massacre

Os eventos que os bolivianos chamam de “Outubro Negro” deixaram 67 mortos em 2003. E o país ainda aguarda a extradição do ex-presidente Goni, foragido nos EUA e tido como autor intelectual da carnificina

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Os eventos que os bolivianos chamam de “Outubro Negro” deixaram 67 mortos em 2003. E o país ainda aguarda a extradição do ex-presidente Goni, foragido nos EUA e tido como autor intelectual da carnificina

por Lídia Amorim, fotos do arquivo da Associação de familiares de vítimas e arquivos pessoais

Litsen Callante caminhava pelas ruas de El Alto. Nesse dia, 22 de março de 2012, a cidade estava bloqueada. Os vizinhos protestavam contra a alta do preço das passagens do transporte público. Foguetes arrebentavam a cada cinco minutos, vozes em uníssono gritavam contra os motoristas que tentavam passar pelo bloqueio. Mesmo sendo parte de movimentos sociais e políticos, Litsen sente um estremecimento interior quando está em marchas e protestos. É mistura de medo que paralisa e raiva que faz seguir adiante.

Herança que lhe foi deixada pelo chamado Outubro Negro.“Fomos até a ponte e tudo estava tranquilo até os homens começarem a gritar. Vieram quatro caminhões cheios de militares e eles dispararam. Nem avisaram. E foi quando minha irmãzinha foi atingida. Mas não estava ao meu lado. Ela tinha 11 anos, eu tinha 18. Ela escapou para correr até a minha casa, que estava a duas quadras. Eu jurava que ela estavaem casa. Um senhor mais velho nos avisou: ‘No chão, no chão, porque vão começar a disparar’. Deitei no chão. Um jovem de 22 anos disse que ia ver sua esposa, deu dez passos e veio o impacto da bala, que entrou por suas partes íntimas e saiu por suas costas. Eu o vi cair. Fui socorrer, como podia, tentando fazer alguma coisa. E, duas quadras além, lá estava caída minha irmãzinha, com um tiro na perna.”

Era 12 de outubro de 2003. Essa história, das irmãs Litsen e Cláudia Callante, contada com raiva e lágrimas, é apenas uma das inúmeras que marcam essa data. Apesar dos bloqueios que mobilizavam El Alto, ninguém esperava que, repentinamente, militares invadissem a cidade para desarticular as manifestações à bala. As pessoas reagiram, usando paus e pedras contra supermetralhadoras e granadas. O saldo foi terrível: 67 mortos e mais de 400 pessoas feridas, traumatizadas, muitas amputadas. Um capítulo sangrento da história do país, ainda pendente de justiça.

A tensão começou quando o governo do presidente Gonzalo Sanchez de Lozada, o Goni, assinou um pré-acordo com o Chile para exportar gás natural a esse país. Depois de privatizar as principais empresas bolivianas, essa foi a gota d’água. Considerava-se que, como sempre, o povo ia sofrer outro saque, já que o acordo beneficiava apenas empresas transnacionais. A Bolívia era dona de uma das reservas de gás mais importantes da América Latina, mas a extração, o refino e a comercialização dos hidrocarbonetos estavam nas mãos de companhias estrangeiras. O Estado boliviano só recebia 18% dos lucros. Esses antecedentes e a dívida histórica que se considera que o Chile tem com a Bolívia pela questão marítima fizeram com que parte da população se indignasse com o novo acordo presidencial e protestasse em defesa do gás. O que se pedia era a industrialização da matéria-prima, para que o gás fosse vendido com maior valor agregado.

Em setembro, grande parte das estradas bolivianas já estava bloqueada pela população. No dia 20 desse mesmo mês, o governo de Sanchez de Lozada ordenou uma intervenção militar, sob o comando do ministro de Defesa Carlos Sanchez Berzaín. Desde a cidade turística de Sorata, as forças militares caminharam até La Paz, desbloqueando todas as rodovias. Uma das primeiras comunidades invadidas foi Warisata, perto do Lago Titicaca. Entre 1 hora da tarde e 8 horas da noite, os militares entraram na comunidade com armamentos de guerra.

A operação militar teve três vítimas, entre elas Marlene Nancy Rojas, de 8 anos. “Minha filhinha estava dentro de casa com a mãe. E os militares a mataram. As pessoas fugiam desesperadas e eles seguiam disparando, sem se importarem se eram velhos, mulheres, crianças”, conta Eloy Rojas, pai de Marlene.

No dia seguinte, 21 de setembro, o governo reafirmou publicamente sua intenção de evitar qualquer bloqueio ou protesto. Mas o tiro saiu pela culatra. Goni não conseguiu frear as mobilizações e a situação se tornou cada vez mais tensa. Entre a última semana de setembro e a primeira de outubro, as mobilizações se intensificaram e se multiplicaram pelo país. Na cidade de El Alto, decidiu-se fechar todos os caminhos de entrada para La Paz.

Enquanto em El Alto os movimentos sociais se organizavam e bloqueavam caminhos, em 9 de outubro forças militares e policiais detiveram com violência um protesto pacífico na cidade mineira de Huanuni. Os mineiros foram agredidos e duas pessoas morreram. A repressão se fazia mais forte e, ao mesmo tempo, a indignação popular crescia.

Numa tentativa desesperada, Goni firmou o Decreto 27.209, que declarava emergência nacional em todo o país, com o objetivo de normalizar a distribuição de combustíveis. Tendo o decreto como respaldo, às seis da tarde do dia 11, o ministro de Defesa Sanchez Berzaín organizou uma caravana de caminhões de combustíveis em direção a La Paz, protegidos por escolta militar. Os altenhos, indignados, atacaram a caravana com paus e pedras. Nesse dia, morreram três pessoas, inclusive uma criança de 5 anos.

Mas o pior viria no dia seguinte. “Era 12 de outubro, no Bairro Senkata, mais ou menos duas e meia da tarde. Saiu da planta de gás um trator amarelo e os militares disparando. Eu estava fugindo, me assustei muito. Foi quando senti o impacto no pé”, conta Luis Castaño que, nesse dia, perdeu a perna esquerda. Um pouco mais tarde, os militares atacaram outras zonas de bloqueio. Uma delas, a Avenida Bolívia, perto da casa de Litsen. “Já havia duas semanas de bloqueio, estávamos chegando à terceira, quando teve uma greve geral, aqui na Avenida Bolívia e aí eles vieram”, conta Litsen. Também feriram Guillermo Calle, que ia visitar sua mãe. Ele teve o rosto destroçado, além de ser agredido com chutes e golpes de armas. “Com o impacto, eu caí no chão. Eles vieram e me bateram, me machucaram. Eu pensava nos meus filhos, na minha família”, descreve Guillermo.

Em outro ponto da cidade, no setor de Villa Ingenio, 29 pessoas foram assassinadas. “Eu vi quando morreu um pai de família, pelo impacto de uma bomba de gás lacrimogêneo na cabeça, disparada de perto. Estava ao lado de uma criança de 6 anos. Fui atrás deles na ambulância, mas no caminho ele morreu. Foi lamentável. E a impotência…”, conta o jornalista Victor Hugo Huanca, que na época trabalhava na Rádio Pachamama. “Não havia ambulância, carregávamos as pessoas em carrinhos de mão, em bicicletas, o desespero nos fazia arrastar os feridos, foi horrível”, relembra Litsen. “Estão massacrando as pessoas. Já tem uma pessoa agonizando aqui”, contava ao vivo, entre lágrimas e gritos, um dos repórteres da Rádio Pachamama.

Luto

Na segunda-feira, 13, El Alto amanheceu de luto. “Aqui, quando morre alguém e estamos velando, colocamos uma música com volume bem alto, uma marcha fúnebre. Nesse dia, a música vinha de todos os lados. Aqui, nesta praça onde estamos, esse alto-falante anunciava estado de emergência”, descreve Litsen. O jovem ferido que ela ajudou morreu no pequeno posto de saúde de Villa Adela, deixando dois órfãos. Sua irmã, Cláudia, sobreviveu. As fotos e vídeos mostram imagens chocantes: sangue nas ruas, filas de ataúdes, viúvas desesperadas.

As pessoas levavam seus mortos para as igrejas e os pátios de suas casas. E os velavam. Contavam entre si as atrocidades do exército e a resistência com mãos desnudas. Muitos não acreditavam no que estava se passando. Alguns se recuperavam em hospitais, com rostos marcados pela luta, com membros perdidos. Mostravam aos jornalistas os cartuchos de armas vazios que recolheram pela cidade. E conversavam em voz baixa e se aconselhavam durante toda a noite.

Na terça-feira 14, em gigantescos cortejos pelas ruas, familiares e vizinhos levavam seus mortos pela cidade destroçada. E decidiram que agora, sim, marchariam até La Paz e dessa vez tirariam o presidente assassino. Mesmo que custasse 500 mortos mais.

A queda

Em 17 de outubro de 2003, aimaras, campesinos, trabalhadores formais e informais, vendedores dos mercados e das ruas, estudantes, mineiros, migrantes de diferentes lugares do país, indígenas, carregando o ódio por seus mortos, tomaram La Paz com a intenção de derrubar Gonzalo Sanchéz de Lozada.

La Paz é uma cidade construída em uma gigantesca cratera, 400 metrosmais baixa que El Alto. Nas ladeiras, as duas cidades se misturam, desafiando a gravidade. Nesse dia, milhares de pessoas desceram, caminhando rumo ao centro deLa Paz. Pelo caminho, os vizinhos lhes ofereciam refrescos, água, comida e se somavam à manifestação. Do outro lado, vindo da zona sul, outro gigantesco grupo também caminhava em direção à Praça Murillo, onde está o Palácio de Governo. De acordo com os informes, nessa mesma noite, os militares comunicaram a Sanchez de Lozada que voltariam aos quartéis. O presidente ficou sozinho, apoiado apenas pela embaixada dos Estados Unidos.

No dia seguinte, chegaram, com suas dinamites e coragem, 60 caminhões de mineiros de Huanuni. Também já haviam chegado milhares de campesinos aimaras de outros rumos do Altiplano, o que inclui os da capital rebelde, a comunidade de Achacachi, onde nasceu o líder indígena Tupaj Katari, o aimara que, em 1781, cercou a cidade de La Paze esteve perto de tomá-la, antes de ser capturado e esquartejado pelos espanhóis e criollos.

E uma vez mais, em outubro de 2003,La Pazesteve sob o cerco indígena e popular. Não deixavam entrar alimentos nem mercadorias, nem gasolina. Exigiam a renúncia de Goni, que não se vendesse o gás ao Chile, defendiam a não erradicação da folha de coca em cultivos tradicionais e levavam outras 80 demandas que se iam somando cada vez que se unia um novo setor aos protestos.

Às 13 horas, Goni escreveu sua carta de renúncia, mas não esteve presente em sua leitura. Com medo da ira popular, escapou de sua residência em um helicóptero. Nessa noite, ele e seus aliados voaram a Miami partindo de Santa Cruz deLa Sierra. Acarta de renúncia só foi lida na Câmara de Deputados quando o avião decolou. Em sua despedida, o presidente acusou as organizações sociais de autoritarismo corporativista, violência fratricida, associação com cartéis colombianos e narcotráfico.

Subiu ao poder o vice-presidente Carlos Mesa, que ainda que tenha se desligado do presidente em 13 de outubro, “por não poder concordar com políticas que provoquem a morte de compatriotas”, não era o que se queria. Devido a pressões populares, também renunciou. Assumiu o presidente da Câmara de Deputados, que depois de alguns meses também renunciou. Foi quando chegou ao poder o deputado e líder cocaleiro Evo Morales, como uma alternativa pacificadora. Os campesinos voltaram a suas comunidades. Os mineiros, ao se despedirem, disseram aos dirigentes de El Alto: “Quando for necessário derrubar outro presidente, nos avisem e voltamos”.

Justiça

Entre agosto de 2002 e outubro de 2003, foram registradas mais de cem mortes, número que só se compara com a sangrenta gestão do general Hugo Banzer Suarez, em 1974, e o massacre de todos os Santos, também executado durante uma ditadura militar, em 1979. O governo Goni abriu precedente como o primeiro governo eleito democraticamente na Bolívia que organizou uma repressão militar.

Claudia Callante, irmã de Litsen, depois de oito anos trancada dentro de casa pelo trauma provocado em 12 de outubro de 2003, em 2012 finalmente conseguiu superar o medo das ruas e decidiu seguir com seus estudos. Guillermo Calles perdeu, em 2003, o trabalho e tudo que tinha pagando as sucessivas cirurgias que necessitava para se recuperar. E, assim, cada vítima tenta seguir, sem jamais esquecer aquele mês de outubro, clamando por justiça.

Depois de tudo que aconteceu em 2003, em março deste ano o senador Eugenio Rojas propôs um referendo sobre a exportação de gás ao Chile. As vítimas não puderam acreditar. “Para nós, é uma verdadeira humilhação, porque, em primeiro lugar, não estão dando crédito aos nossos mortos e feridos, que continuam sofrendo. El Alto jamais vai permitir isso, que se preparem aqueles que venham com essa sugestão”, avisa Litsen. A Associação de familiares e vítimas de outubro, no momento em que essa matéria era elaborada, esperava uma desculpa pública por parte do senador.

Em setembro do ano passado, saiu a sentença do juízo de responsabilidades contra o ex-presidente Gonzalo Sanchéz de Lozada e seus colaboradores. A Corte boliviana condenou à prisão cinco militares e dois ex-ministros, sob a acusação de genocídio: os generais Roberto Claros Flores e Juan Veliz foram condenados a 15 anos e 6 meses; o general José Oswaldo Quiroga e o almirante Luís Alberto Aranda, a 11 anos; o general Gonzalo Alberto Rocabado, a 10 anos; e os ex-ministros Erick Reyes Villa e Adalberto Kuajara, a três anos cada. Neste momento, os ex-ministros estão em liberdade.

Os autores intelectuais do massacre, o ex-presidente Gonzalo Sanchéz de Lozada e o ex-ministro de Defesa Sanchéz Berzaín, também foram condenados na sentença, mas estão nos Estados Unidos e se autodenominam refugiados políticos. “É necessário que se faça justiça, que os culpados paguem por essas mortes, para que em nenhum outro lugar do mundo um governante volte a se atrever a fazer algo assim”, defende Freddy Ávalos, advogado da Associação de Feridos e Afetados de Outubro pela Defesa do Gás e dos Recursos Naturais. “Alguma coisa tem que fazer, não vamos deixar que [Goni] continue desfrutando feliz nos Estados Unidos”, afirma Jesus Solíz, advogado do Comitê Impulsor do Juízo de Responsabilidades a Gonzalo Sanchez de Lozada e seus colaboradores (CIJG).

Desde 2008, a Bolívia tenta negociar a extradição dos dois ex-dirigentes. Mas a tensão que marca a relação entre o país andino e os Estados Unidos faz com que o país do Norte não tenha nenhuma vontade de colaborar. Nesse março, pela primeira vez em muito tempo, a Bolívia decidiu dialogar para restabelecer relações, e um dos pontos de negociação é exatamente o retorno de Goni. “Encontramos boa vontade por parte do Departamento de Justiça dos Estados Unidos em dar uma resposta rápida”, relatou publicamente o vice-ministro de Relações Exteriores, Juan Carlos Alurralde. Os bolivianos seguem esperando. F









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