Marighella e a história que não se apaga

Após nove anos de apuração, o jornalista Mário Magalhães traz, em livro que promete ser uma biografia definitiva, novos dados sobre o líder da Aliança Libertadora Nacional

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Após nove anos de apuração, o jornalista Mário Magalhães traz, em livro que promete ser uma biografia definitiva, novos dados sobre o líder da Aliança Libertadora Nacional

Por Pedro Venceslau

Depois de nove anos de investigação, sendo cinco deles em regime de dedicação exclusiva, o jornalista Mário Magalhães finalmente concluiu a mais completa e isenta biografia sobre Carlos Marighella, o mitológico líder da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Quando Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras) chegar às livrarias no final de outubro, o Brasil conhecerá a versão final e definitiva de uma história que, apesar de contada, filmada e cantada em prosa e verso, ainda está envolta em polêmicas.

“As diversas versões históricas tendem a sofrer a influência da trajetória que cada militante teve. A Ação Libertadora Nacional tem ex-militantes hoje no PT, PSB, PSDB, PV, PDT. Detectei que algumas versões se adaptavam à idiossincrasia do presente”, contou o autor nesta entrevista exclusiva à revista Fórum. Filho do operário Augusto Marighella, imigrante italiano, Carlos tornou-se militante do Partido Comunista, pelo qual foi eleito deputado federal em 1946. Dois anos depois, ele perderia o mandato. Em sua obra, Magalhães conta a trajetória de Marighella desde sua formação política até seu assassinato pelos orgãos de repressão. Nesta entrevista, ele antecipa algumas das dezenas de “furos” jornalísticos do livro.

Fórum – Por que dedicar tanto tempo para contar uma história que já foi contada tantas vezes?

Mário Magalhães – A história como eu conto nunca foi contada antes. Até hoje, se contou a partir de quando o pai dele, um operário italiano, chegou à Bahia. Quando ele chegou? Descobri isso em um livro de registros do porto de Salvador. Pode ser um detalhe, pode não ser. Para quem gosta de coincidências: o pai dele desembarcou em 4 de novembro de 1907 . O filho seria assassinado em um 4 de novembro. Até hoje se contou que o Carlos Marighella nasceu na Baixa do Sapateiro. Onde estava a certidão de nascimento? Eu descobri e mostrei para a última irmã viva, a Tereza – eles eram oito irmãos. Ele não nasceu na Baixa do Sapateiro. Nasceu na rua onde depois seria construído o Estádio da Fonte Nova, na Fonte das Pedras. Em 1945, quando foi candidato a deputado, um dos pontos da plataforma dele era a construção de um estádio na Fonte Nova. Até hoje existem muitas versões de que sua primeira prisão, em 22 de agosto de 1962, se deve a um poema que escreveu contra o interventor da Bahia, Juracy Magalhães. Encontrei o inquérito dessa prisão. É óbvio que não foi preso por causa do poema, até porque o poema conta como foi a prisão, e ele não tinha poderes adivinhatórios. Foi preso por outros motivos, que eu conto em detalhes.

Fórum – Como foi o acesso às informações com a família? A relação entre a viúva Clara Charf e o filho, Carlos Augusto Marighella, é tumultuada?

Magalhães – Eu lhe asseguro que não procede a informação de que a relação entre eles não é boa. Pelo contrário. O Carlos Augusto e a Clara Charf batalham juntos desde a época da ditadura pela redescoberta histórica do Marighella.

Fórum – Conte um pouco sobre a produção do livro. Quantas entrevistas foram feitas?

Magalhães – Comecei em 2003. Saí da Folha em junho daquele ano e voltei em meados de 2006, quando meu dinheiro acabou. Fiz esse livro basicamente com economias. Foi um projeto, um sonho. Foram 256 entrevistas, todas feitas por mim. Eu não seria capaz de contar e entender a história desse personagem se eu não olhasse nos olhos das pessoas falando dele. Tanto amigos quanto inimigos. Para as pesquisas de arquivo, contei com ajuda. É um embuste a ideia de que o repórter é um super-homem que não precisa da ajuda de ninguém. Tive ajuda de historiadores e jornalistas em Salvador, Campinas, São Paulo e Moscou.

Fórum – Você esteve em Moscou?

Magalhães – Não. Quando comecei o livro, o Putin tinha fechado o acesso aos arquivos que me interessavam. Ele tem aversão à transparência. Há algum tempo isso foi aberto, e uma pessoa, a meu pedido, conseguiu esses documentos. A história tem mais ou menos 540 páginas. São 48 páginas de fotografias em três cadernos, foram 600 livros na bibliografia e 2.580 notas sobre fontes. É um direito do leitor saber de onde eu tirei a informação de que o sangue que escorreu da boca do Marighella em 9 maio de 1964 tinha o gosto adocicado. É evidente que tinha uma fonte. Foi um romance escrupulosamente baseado em fatos reais.

Fórum – Nesse período de nove anos você conseguiu ler outra coisa além do livro?

Magalhães – Raramente… Foi um mergulho que me exigiu isso. São quatro décadas de histórias do Brasil e do mundo tão conturbadas quanto apaixonantes.

Fórum – As versões sobre o processo que culminou com a morte do Marighella contadas até hoje causaram controvérsias na esquerda…

Magalhães – É evidente que a memória é seletiva e traiçoeira. Eu levo ao limite a possibilidade de checagem das versões com os fatos. Vou dar um exemplo. Uma militante muito próxima ao Marighella me descreve em detalhes como foi a sua intervenção em janeiro de 1948, na sessão da Câmara que cassou o mandato dos deputados comunistas. Um jornalista avesso a ele contou em uma revista como foi o desempenho do Marighella nessa mesma sessão. O fato é que ele não estava lá. Eles estavam enganados. Outro exemplo: um guerrilheiro destacado da ALN, que é um sujeito honesto e íntegro, durante anos fez palestras contando que fez uma ação armada no dia em que o Neil Armstrong pisou na lua. Na verdade, havia semanas separando as duas coisas. Ele não estava mentindo. Foi apenas uma confusão. É óbvio que as diversas versões históricas tendem a sofrer a influência da trajetória que cada militante teve. A Ação Libertadora Nacional tem ex-militantes hoje no PT, PSB, PSDB, PV, PDT. Detectei que algumas versões históricas se adaptavam à idiossincrasia do presente. Minha obrigação é identificar as versões que foram influenciadas pela história. As condições em que mataram o Marighella são muito mais covardes e dramáticas do que sabemos hoje.

Fórum – Como foi a morte dele?

Magalhães – Depois de nove anos de apuração, se eu não tivesse apurado nenhuma novidade sobre a morte dele era melhor arrumar outra profissão para viver. Quem matou o Marighella foi a ditadura militar e ponto. Para chegar a ele, a tortura foi fundamental. Desde 1968, o convento dos dominicanos, na Rua Caiubi, já estava encampanado à espera do Marighella, por meio de um infiltrado do Dops de São Paulo na ALN de Marília.

Fórum – Como foi essa história do “quedograma” criado pela ALN para descobrir quem entregou o Marighella?

Magalhães – O quedograma foi útil para entender uma série de episódios, mas foi um infiltrado. Em 1962, o Dops infiltrou um cidadão na esquerda. Depois de 1964, ele mudou-se para Marília, foi infiltrado no PCB e orientado a entrar na “ala Marighella”. Era um professor que, para fazer carreira na ALN, recrutou alunos para fazer aulas de tiro e explosivos. Esse informante alertou o Dops de que, no fim de 1968, haveria uma reunião da cúpula com a presença do Marighella no convento dos dominicanos na Rua Caiubi. Em maio de 1969, o Exército já sabia que o convento era um local de reuniões da organização. A polícia política já sabia da conexão dos dominicanos. Os policiais que participaram da morte do Marighella me disseram que estavam no Brasil mercenários americanos para matá-lo em troca de recompensas financeiras. Havia uma corrida para matar o Marighella.

Fórum – Houve alguma outra infiltração?

Magalhães – Sim, do Serviço Secreto Americano. O Marighella viajou País adentro para as áreas onde seria feita a guerrilha rural com um informante infiltrado pelos americanos. Esse cidadão fazia relatórios detalhados sobre o Marighella e o Joaquim Câmara Ferreira, de quem foi motorista. Esse americano trouxe o Câmara Ferreira para o Rio de Janeiro. A CIA teve o Marighella na não durante muito tempo. Em 7 de maio de 1969, o entregaram para o Dops paulista. Naquele dia, no fim da tarde, haveria um ponto entre o infiltrado, o Rolando Frat e o Joaquim Câmara. A tocaia foi preparada com 13 policiais do Dops. Mas o Câmara e o Marighella tiveram uma sorte enorme e não puderam ir ao ponto. O infiltrado foi preso como militante da ALN junto com o Frat. Mas quando descobriram de quem se tratava, o soltaram rápido demais e deixaram o Rolando Frat preso. Aí o Câmara desconfiou e ficou alerta. Para você ter uma ideia: o infiltrado tinha um Fusca que tinha suas prestações pagas pela embaixada americana. O Marighella viajou em um Fusca pago pela CIA.

Fórum – Quais as novidades sobre o sequestro do embaixador norte-americano, Charles Elbrick?

Magalhães – É sabido que o Câmara Ferreira deixou cortada em pedacinhos, embaixo de um tapete da casa (que serviu de cativeiro), uma mensagem para o Paulo de Tarso Venceslau, assinada “G”. A repressão achou isso e remontou o bilhete. Eu o achei e descobri outro que estava endereçado a um dos três jornalistas que estavam na ação e começava com o próprio nome… Esse segundo bilhete foi deixado dentro da casa.

Fórum – Quem era esse jornalista?

Magalhães – Havia três jornalistas na ação: o Gabeira, o Franklin Martins e o Joaquim Câmara Ferreira. No livro, eu revelo quem é. O livro confirma que o Marighella não sabia do sequestro e não concordou com ele. Ele escreveu um bilhete que saiu no jornal Gramma [de Cuba]. Ele divergiu internamente do sequestro.

Fórum – Como foi a entrevista com o Harry Shibata, o legista da ditadura? Ele fez alguma autocrítica?

Magalhães – Não fez autocrítica nenhuma. Ele conta em detalhes como batizou o cadáver do Marighella. É algo dramático. O irônico é que o Marighella foi batizado e crismado. Eu tinha curiosidade de entender as motivações dele. O Shibata teve uma formação muito conservadora, dada por padres católicos em uma escola carmelita. No colégio dos padres, ele tinha um professor que falava muito contra o comunismo. Falava que se a pessoa não quer ser batizada, pode ser batizada sem saber. Mesmo sem ser sacerdote, Shibata batizava os cadáveres.

Fórum – Quais foram os erros que levaram ao fim da ALN?

Magalhães – Eu não me disponho no livro a fazer o papel de juiz, advogado ou promotor do Marighella ou das organizações que ele integrou. O livro acaba com a morte dele. Só fiz uma concessão no epílogo, quando conto com detalhes a morte do Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo. Entrevistei a única militante da ALN que o viu morrendo – Maria de Lourdes Rego Melo. Ela era uma espécie de braço direito do Câmara. Os três grandes golpes que atingiram a ALN foram a queda do GTA [Grupo Tático Armado], a morte do Marighella e do Câmara. A ALN se tornou a maior organização armada de combate à ditadura porque tinha uma agenda que permitia incorporar militantes nacionalistas e comunistas sem exigir atestado ideológico. Bastava estar de acordo no primado da ação contra a ditadura. Sem o Joaquim Câmara, a ALN não teria sido a maior organização do Brasil.

Fórum – A história do Carlos Marighella não faz parte dos livros escolares…

Magalhães – Mais do que transformá-lo em vilão, certa historiografia oficial tentou apagá-lo da história e da memória. Quem teve um livro escolar que falasse de Carlos Marighella? Ele continua sendo um maldito nos manuais escolares. A ditadura militar o eliminou da história. Agora ele está ressurgindo. F

 









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