A Primavera Árabe, ao norte, e o desenvolvimento da África do Sul no outro extremo são os arautos desse novo tempo. Mas os mesmos ventos sopram em todo o Continente

Na África se formou o “homo”no processo divino da evolução; lá desenvolveu-se a maior civilização do planeta há mais de cinco mil anos; lá constitui-se o maior centro cultural e científico, com a maior biblioteca do mundo, há pouco mais de dois mil anos; de lá vieram os contingentes de vigorosos trabalhadores para a grande lavoura que foi a riqueza do Brasil, do Caribe e do sul dos Estados Unidos nos séculos dezessete a dezenove. Desde então, a África ficou como um continente esquecido da História, conhecido apenas dos predadores europeus que caçavam seus animais e seus minérios.

Após a segunda guerra, o Capital, ameaçado pela maré montante do socialismo soviético e Chinês que penetrava a África, prometeu aos africanos a independência, a descolonização, e efetivamente desestruturou os impérios britânico e francês, não só ali como na Ásia. Iniciou-se, então, a etapa do grande business associado a governos fantoches e corruptos de estados artificialmente constituídos. Essa realidade artificial, que não tinha correspondência na territorialidade original dos povos autóctones, e que estimulava a corrupção dos grupos politicamente dominantes, transformou o Continente numa praça de bandalheira e guerra selvagem, cruenta e arrasadora da vida econômica e cultural de toda aquela imensa extensão do globo. Guerra alimentada pelos interesses e pelas armas fornecidas pelas potências maiores da guerra fria. Realmente, um horror.
Cessada a guerra fria e o fornecimento de armas às respectivas facções, levantou-se uma aurora de conscientização política no Continente, abraçada pela ajuda humanitária e pacificadora da ONU e de alguns países europeus e sulamericanos (como o Brasil); e, ademais, fatigadas, esgotadas mesmo as populações africanas pela maciça destruição daquelas guerras de muito horror e nenhum sentido, eis que se vão abrindo novas e promissoras perspectivas para essa parte desconsiderada do mundo. Viu-se o fim do que parecia interminável: a violência bruta em Angola, em Moçambique, na Etiópia, no Chade, o arrefecimento no Sudão e em outras áreas. Uma nova era parece estar sendo inaugurada.
A Primavera Árabe, ao norte, e o desenvolvimento da África do Sul no outro extremo são os arautos desse novo tempo. Mas os mesmos ventos sopram em todo o Continente, especialmente nas duas ricas nações lusófonas que se livraram do longo tempo de guerra interna. A consolidação da prática democrática se expande por todo o continente, assim como a substancial elevação do grau de escolarização das populações.Uma nova cultura emerge e se reflete numa literatura criativa que vai ganhando a admiração do mundo.
Não é difícil prever uma presença importante da África na segunda metade do século que corre. Antecipando essa importância, e seguindo a política de diversificação e alargamento das relações políticas e comerciais no mundo, o Brasil de 2002 apostou certo na colocação da África em uma prioridade bem mais elevada do que a de tempos anteriores. Errados estavam os críticos dessa nova política, os representantes daqueles outros tempos, muito fortes na mídia tradicional. Lembro-me bem das objeções “racionalmente” levantadas em relação ao que seria um dispendioso excesso de novas embaixadas brasileiras abertas na África.
A par dessas razões materiais corretamente consideradas pelo Novo Brasil, nós, brasileiros, temos uma relação cultural e genética de grande proximidade com os africanos, e uma dívida humanística que jamais poderá ser quitada. Tudo isso é muito importante e deve ser levado em conta em nossas relações, que têm que ter outras dimensões morais e humanísticas, bem além do materialismo puramente comercial, tão do agrado dos velhos diplomatas ultrapassados, preferidos pela mídia.
É a vez da África que vai chegando; e é muito bom que o Brasil esteja junto nesse movimento de ascensão e reflorescimento. O BNDES criou uma diretoria específica para a América Latina e a África; fiquei orgulhoso dessa sábia decisão; o Banco ainda é a minha casa.
Saturnino Braga é ex-prefeito do Rio de Janeiro e ex-senador da República. É autor de O Curso da Ideias, da Publisher Brasil.

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