Reginaldo Nasser: “O Egito está à beira de uma guerra civil”

Para professor de Relações Internacionais da PUC-SP, "estão se manifestando todos os elementos para a instauração de uma nova ditadura"

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Para professor de Relações Internacionais da PUC-SP, “estão se manifestando todos os elementos para a instauração de uma nova ditadura”

Por Felipe Rousselet

Após o dia mais sangrento desde a derrubada de Hosni Mubarak do poder, há aproximadamente dois anos, o futuro do Egito continua incerto. Os últimos dados oficiais dizem que pelo menos 525 pessoas foram mortas ontem na repressão do governo para desfazer dois acampamentos de simpatizantes de Mohammed Morsi, presidente deposto do país.  No entanto, de acordo com  o grupo político de Morsi, a Irmandade Mulçumana, o número de mortos poderia passar de 2 mil.

De acordo com Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, para entender como a situação do Egito chegou a esse ponto, é preciso analisar alguns pontos como o papel que os militares têm desempenhado historicamente no país, como à época da queda de Morsi, por exemplo. “De um lado, os militares reafirmam o seu poder, e, de outro, implicitamente reconhecem o poder das mobilizações. Claro, usando para o lado deles”, explica. “Aproveitaram esse caráter ambíguo, tanto é que dividiram setores da esquerda, democráticos, alguns ficaram contra e outros a favor.”

Nasser acredita que o Egito, por conta da situação atual, possa estar caminhando para uma situação na qual o acirramento autoritário pode levar a uma guerra civil. Um dos exemplos desse ímpeto autoritário seria a declaração de estado de emergência feita pelo governo egípcio. “Essa ferramenta do estado de emergência é uma ferramenta que os Estados mais democráticos do mundo têm como retaguarda. No caso de regimes autoritários, costumam usar isso a seu bel prazer, que é o que está sendo configurado agora no Egito. Estão se manifestando todos os elementos para a instauração de uma nova ditadura.” Leia a entrevista com Nasser abaixo.

(Moe Adel/Flickr)

Fórum – Na sua análise, quais foram as motivações para a deposição do presidente Mohammed Morsi?

Reginaldo Nasser – Acho que a gente tem que começar pela chamada Revolução, ou Revolta Árabe, e, no caso do Egito, o 25 de janeiro de 2011. Embora tenham ocorrido vários eventos de lá para cá, a gente pode avaliar que se trata de um processo. Não podemos ver esse evento, desta quarta-feira, de forma isolada. Se a gente avaliar o processo, podemos indicar alguns elementos que estão presentes em mais essa crise hoje.

O primeiro destes elementos, obviamente, é a presença dos militares. Eles chegam ao poder no Egito, em 1952. Passaram por várias fases e, mais particularmente, na década de 1970, após o acordo de paz entre Egito e Israel, o Egito passou a ser bem visto pelos EUA e pelas potências ocidentais e recebeu uma ajuda média de 1,3 bilhão de dólares por ano. Sendo que 70%, mais ou menos, desta chamada “ajuda”, ia diretamente para os militares. Isso mostra o poder e importância que eles têm. Uma importância não só política, mas econômica. Ninguém sabe precisar ainda o que eles representam na economia do Egito, mas controlam a indústria do turismo e a distribuição da gás. Ou seja, são proprietários de meios de produção.

Isso se configurou já na queda do [Hosni] Mubarak. Houve a resistência no primeiro momento, mas, quando eles perceberam que não interessava manter o Mubarak à frente, consentiram em tirá-lo. Nesse aspecto, é a mesma coisa em relação ao Morsi. O Morsi entrou por eleições, mas porque foi aceito pelos militares. Houve uma negociação entre eles. E, da mesma forma como foi aceito, por problemas nessa aliança da Irmandade Muçulmana com os militares, eles também avaliaram que era o momento de tirá-lo.

Fórum – Os militares então não possuem um lado definido, agem apenas de acordo com seus interesses?

Nasser – Isso. Um aspecto da questão é esse. Um fator diferente na queda do Morsi é que o general Sissi, para derrubá-lo, apelou para a população. É uma questão ambígua. De um lado, os militares reafirmam o seu poder, e, de outro, implicitamente reconhecem o poder das mobilizações. Claro, usando para o lado deles. Mas, se a gente voltar lá atrás, era apenas um golpe de Estado. Foi um golpe de Estado, eu disse isso desde o primeiro momento, mas utilizando a mobilização popular. Aproveitaram esse caráter ambíguo, tanto é que dividiram setores da esquerda, democráticos, alguns ficaram contra e outros a favor.

É uma ilusão aquela ideologia, que os EUA e vários outros gostam de difundir, de que fazer eleição e elaborar uma Constituição vá “domesticar” os militares. Até porque, em termos formais, existe o Conselho de Defesa Nacional, formado pelo presidente do Egito e alguns ministros, mas de maioria de militares, que acabam agindo fora da Constituição. Uma das funções do Conselho é discutir a segurança do país e as melhores formas de lidar com as crises. Então, mesmo formalmente, a Constituição não entrou nisso, nas formas de “domesticar” os militares. Eles, como sempre tiveram, continuam com esse poder.

Agora, vamos para o que é novo: as mobilizações populares. Discordo daqueles que dizem “olha, veja no que deu a Primavera Árabe”. Se por um lado não é o abre-te-sésamo, já que um punhado de gente na rua não vai mudar uma estrutura dessas, por outro, é positivo no sentido de que nunca se conheceu um tal nível de mobilização quase que permanente. Acredito que essa mobilização permanente é o grande desafio da perspectiva de quem vai assumir qualquer governo no Egito.

Outro elemento é a Irmandade Mulçumana. Se formos lembrar da queda de Mubarak, eles não tiveram participação nenhuma. Na época, se comentava que estavam assistindo. Não deram início e nem, no âmbito do processo, conseguiram algum tipo de ação. Por outro lado, já se previa que é um grupo extremamente organizado. Os militares chegaram ao poder em 1952 e a Irmandade Muçulmana nasceu em 1930, passou por vários governos que a perseguiam. Não é qualquer um que iria derrotar a Irmandade Muçulmana. Como eles eram um grupo bem organizado, conseguiram se articular nessa transição pós Mubarak e fazer o presidente.

Agora, a Irmandade Muçulmana não conseguiu formar um governo e estabeleceu aliança com os militares e com os empresários. Isso é outra coisa que a mídia ocidental não trabalha. Parece que no Oriente Médio só tem religioso e militar. Ou o problema é religioso ou secular. É um falso dilema que toda hora a mídia coloca. Não é essa a questão.

Nesse processo dos militares, não existe só a questão do autoritarismo, há um modelo econômico vigente que já vinha do Mubarak, um modelo econômico neoliberal com relações com o FMI. O Egito, que era um grande celeiro agrícola, chega a importar atualmente 75% dos alimentos. Esses empresários, nessa transição, ligados ao antigo regime, se articularam no novo. E a Irmandade Muçulmana está no meio disso, não é oposição. Só que nesse processo de articular a hegemonia, houve um dissenso da parte dos militares. Morsi se apoiou numa facção deles querendo eliminar outra, buscando ditar os rumos do processo político. Ai os militares pensaram “espera aí, você é aliado, não é você que conduz”.

Fórum – Foi então esse modelo neoliberal, aliado ao poderio dos empresários, o motivo da insatisfação dos movimentos populares com o governo de Morsi?

Nasser – Claro. Esse foi um grande elemento. Grande parte dos manifestantes dos protestos contra Morsi são jovens e desempregados. Existe uma população jovem e desempregada muito grande que aspira a uma melhor condição. Isso foi uma tônica na Tunísia, do Egito, da Líbia. É este movimento que está aí, que é importante, mas que não é organizado.

Fórum – Então, existiu um golpe militar no Egito com a derrubada de Morsi, mas com a novidade de contar com o auxílio de movimentos populares?

Nasser – Esse tipo de questão não é nova. O texto clássico do Marx, do 18 de Brumário, que é o golpe do Luís Bonaparte, foi isso, um golpe plebiscitário. Você, gostando ou não do Morsi, interrompe um processo que está em andamento. Um processo eleitoral, de representação, com todos os seus defeitos, mas que está em andamento. Inclusive, com a elaboração da Constituição. E, de repente, por um problema fora, se julgou que deveria retirar o Morsi. Não existia nenhum fato concreto para retirá-lo. Se fosse diferente, você poderia dizer que existiu um golpe, e a retirada dele foi um contragolpe. Mas não existiu nenhum fato nesse sentido. Digo isso mesmo com todas as críticas que eu tenho ao Morsi.

Só que entendo que os militares tiveram a percepção do novo momento. Não poderia aparecer apenas um golpe, no sentido de existir um ajuste entre as elites. Para dar uma aparência democrática, eles usaram os movimentos que já existiam e que estavam contra o desemprego e o autoritarismo de que Morsi compartilhava. Foi uma estratégia dos militares que usaram a manifestação, mesmo que não fosse a intenção das pessoas que estavam se mobilizando. As palavras do general foram essas: “Gostaria que o povo nos desse um mandato para resolver esse problema”.

Isso é um novo momento. Apesar de os militares saberem que têm poder, reconhecem que precisam, pelo menos na aparência, de uma autorização popular.

Fórum – O governo interino, apoiado e composto também por militares, está se utilizando de uma violenta repressão às manifestações de apoiadores da Irmandade Muçulmana e lançando mão do chamado “estado de emergência”. Práticas estas que eram amplamente utilizadas por Mubarak. Está se configurando um novo regime ditatorial no Egito?

Nasser – Essa ferramenta do estado de emergência é uma ferramenta que os Estados mais democráticos do mundo têm como retaguarda. No caso de regimes autoritários, costumam usar isso a seu bel prazer, que é o que está sendo configurado agora no Egito. Estão se manifestando todos os elementos para a instauração de uma nova ditadura.

Agora, falo isso tranquilamente porque quando houve o golpe do Morsi, fiz essa avaliação. É interessante que há um mês muita gente, quase meio a meio, dizia que não, que aquilo era a revolução, a democracia etc… Isso porque as pessoas ficavam muito presas na questão de que o golpe era para combater a Irmandade Muçulmana. Agora você vê. O El Baradei saiu do governo interino e ele era o perfil liberal do governo, era o cara das relações internacionais que tinha a missão de satisfazer os EUA, Inglaterra e França. Renunciou ontem (14). Isso é um elemento que também pode rachar esse governo interino. Estou me colocando na posição de jovens que estavam nas manifestações, mas que agora estão se vendo usados. Como ficam os movimentos populares que apoiaram a derrubada do presidente Morsi, como o Tamarod, que ao mesmo tempo são contra o uso de violência nas repressão às manifestações? Como ficam estes movimentos diante deste dilema?

Acho que isso é um aprendizado. Eles se equivocaram e vão aprender com isso. Ali, eles se colocaram contra medidas autoritárias do governo do Morsi, que eram fato e, portanto, deveriam se manifestar de forma contrária. Agora, uma outra coisa é você permitir que aqueles que já são perigosos, que possuem o monopólio da força, o Exército, que eles entrem na política e digam quando devem tirar [o Morsi], e que instrumentalizem as suas ações. Isso já é perigoso. Aí você precisa discutir quem está usando quem. Acho que foi uma falsa avaliação, uma ingenuidade, acreditar que eles que estavam conduzindo o movimento.

Agora, é mais que a hora de todas essas forças voltarem a se articularem com a Irmandade Muçulmana. Se amanhã a Irmandade Muçulmana quiser dar um golpe, que se voltem contra ela, mas não podem ficar ao sabor de circunstâncias que são convenientes ao adversário político. Precisam ficar firmes em torno do processo. Ou seja, o processo de derrubada de Morsi foi um golpe, autoritário, algo que não se pode permitir no Egito.

Lembro das primeiras entrevistas que dei e falava que poderia acontecer uma guerra civil e muita gente dizia que era exagero e pessimismo. Mas eu não estava chutando. O meu cálculo era de que a Irmandade Muçulmana não estava parecendo forte suficiente para formar um governo, mas não fraca a ponto de aceitar esse resultado de derrubada de um presidente. Por isso que falava, e agora continuo falando, que o Egito está à beira de uma guerra civil.

A Irmandade Muçulmana nunca fez isso que estou colocando. Mas, diante das circunstâncias, pode acontecer. Podem surgir grupos armados dentro da Irmandade Muçulmana. Não é impossível.

Fórum – Surgiram notícias de que igrejas de cristãos cooptas sofreram ataques. Em meio a este cenário de incerteza política, criou-se um ambiente propício para ações de intolerância religiosa no Egito?

Nasser – É uma questão falsa. Quando houve incêndio das igrejas dos cooptas, houve investigação e começaram a mostra que aquilo havia sido plantado e não um ato de membros da Irmandade Muçulmana. Como acredito que agora, nesta situação em que está o Egito, isso seja a tática de jogar um contra o outro. Polícia e membros de grupos paramilitares vão fazer isso.

Isso não tem a ver com a história do Egito. Posso dizer que boa parte dos cooptas são classe média alta. No nosso olhar ocidental, sempre colocamos as questões de classe em primeiro lugar, e a religião em segundo. Acredito que lá também. Isso é uma inversão. Inclusive vi um texto escrito pelo editor internacional da Folha de S.Paulo, o Fábio Zannini, e nunca vi coisa mais idiota na vida. Ele escreveu assim quando a Irmandade Muçulmana caiu: “Mobilizações populares dizem que os islâmicos não podem estar no poder”. Isso é muito idiota porque 90% da população do Egito é islâmica. Então, os islâmicos estão pedindo que os islâmicos não cheguem ao poder. Ou seja, não é essa a variável, não é a religião. Pode ser a forma com que lidam com a religião e a forma como grupos religiosos se articulam com outros grupos.

Os militares também são islâmicos. Entre ser islâmico e militar, vão optar pelo poder e pelos benefícios que têm. Ou seja, isso é uma tentativa que sempre acontece de desvirtuar os fatos e dizer que está uma bagunça, uns contra os outros, e nós, os militares, somos o poder moderador.

Fórum – Por fim, o senhor acredita que o governo interino vai convocar novas eleições?

Nasser – É interesse dos militares que tenha eleição. O tipo de poder, de ditadura que ele engendram no Egito, guardadas as devidas proporções, é mais semelhante ao Brasil. Sempre existe a ideia de existir algum tipo de eleição. Eles não gostam de estar à frente, agem como uma corporação. Não é o estilo dos militares ficarem na linha de frente.

Segundo, uma outra variável importante são os EUA. Sei que é tudo aparência, mentira, mas eles precisam lidar com estas aparências diante da opinião pública. As fotos que estão nos jornais hoje não possibilitam que se negue a barbárie que aconteceu. Então, o eleitor americano não quer aparecer relacionado a esse fato. A elite no Egito sabe disso. Ou seja, a solução eleição é importante e acredito que ninguém no Egito, em termos de líderes, não queira eleições.

Mas a variável é mais complexa. Teve eleição, teve Constituição e o risco do poder do militar sempre está colocado. Não é a eleição sozinha, não é a Constituição, que vai mudar isso. É falso perceber que a situação vai mudar com novas eleições. Nós podemos cair no mesmo erro anterior.

Entendo que as mobilizações populares têm de ter um caráter mais organizativo. Com o aprendizado de não cair nesses erros e avançar para tipos de representação que comecem a discutir o modelo econômico, que está intacto.

É sim interesse da Irmandade Muçulmana que tenha eleições. Mas, como em qualquer lugar do mundo, no IRA, no ETA, eles começaram como grupos sociais e políticos e depois começaram a se formar grupos armados dentro desses movimentos e houve racha. Diria que, hoje, após esse massacre, existe um terreno fértil para começar a existir rachas dentro da Irmandade Muçulmana e grupos podem entender que a melhor maneira para lidar com a situação é a luta armada. A Irmandade Muçulmana sempre recusou isso, mas um dos seus dirigentes, por exemplo, teve sua filha de 17 anos morta. É difícil o cara sentar em uma mesa de negociação e ficar pensando em parlamento. É uma coisa que afeta. Acho que a eleição vai acontecer, mas não é essa a questão. Houve eleição e estamos com a situação de hoje.

Por fim, a polícia é o lado mais odioso do Egito. Alguém deu carta branca para eles e quem deu foram os militares. Veja que o massacre de ontem não foi feito pelos militares. Eles são muito espertos e mais uma vez ficaram por trás do fato. Podem aparecer como “bonzinhos”, o que não me espantaria, e afastarem alguém da polícia e dizerem que vão apurar. Acredito que agora, assim como um mês atrás, eles mostrem esse lado “bonzinho”, dizendo que estão ao lado do povo, e nada impede que convoquem novas eleições e uma nova Constituição.









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Comentários

1 comment

  1. josecarloslima Responder

    Até que ponto o Brasil está caminhando na mesma direção

    http://spintiranooudeus.blogspot.com.br/