As mães criam filhos machistas?

Por Jarid Arraes, (Imagem: FdE) Na maioria das relações familiares, por uma questão cultural, são as mães as maiores responsáveis e aquelas que estão mais presentes na convivência com os...

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Por Jarid Arraes,

(Imagem: FdE)

Na maioria das relações familiares, por uma questão cultural, são as mães as maiores responsáveis e aquelas que estão mais presentes na convivência com os filhos. Isso leva muitas pessoas a acreditarem que, sempre que uma criança se torna um adulto problemático, a culpa é das mães, aquelas que supostamente não o educaram direito. E é assim que continua se argumentando que as verdadeiras culpadas pelo machismo na sociedade são as mulheres, que não ensinam seus filhos homens a não serem machistas. Mas querer culpabilizar as mães demonstra uma grande ignorância.

A figura materna está presente em vários aspectos da nossa cultura. Os papéis de gênero delimitados são constantemente reproduzidos ainda nos dias atuais, mesmo que as formas de se educar filhos e as estruturas familiares se modifiquem com o tempo. Assim, a maneira como os pais interagem e ensinam seus filhos se transforma com o passar dos anos, dividindo espaço com outros agentes da educação, como a escola, a religião, a televisão ou mesmo os ciclos de amizades.

A Psicologia Sócio-Histórica destaca perspectivas que nos revelam essa soma de fatores. Para Vygotsky – cientista e pensador russo amplamente estudado em diversas áreas do conhecimento -, as pessoas se desenvolvem da compreensão, ressignificação e percepção do mundo, dos seus contextos históricos e culturais, linguagem e da interação entre todos esses pontos. Ou seja, os indivíduos não são educados somente por seus familiares, eles se constroem a partir de todo o mundo externo e seus valores, assim como de suas próprias capacidades e características individuais.

O processo de construção da identidade, comportamentos e opiniões é complexo, plural e subjetivo.  Nenhuma área ou pessoa da vida de um sujeito é inteiramente e definitivamente responsável por seu caráter e personalidade. Mesmo que um pessoa receba certas orientações por parte dos pais, dificilmente seu ciclo social estará limitado à interação familiar, especialmente em um mundo com tecnologia e possibilidades diversas de entretenimento, lazer e informação.

Os valores transmitidos pelos pais ou responsáveis são, de fato, muito importantes, mas não definitivos e nem exclusivos. A verdade é que os valores absorvidos por cada pessoa desde a infância sofrem adaptações ao meio e aos novos contextos e aprendizados a sua volta. Ou seja, é possível dar uma nova roupagem, excluir ou incluir aspectos e até mesmo encontrar novas maneiras de encarar um mesmo fenômeno. A única certeza é a de que nada permanecerá igual ao que fora uma vez aprendido.

É muito fácil ser machista; afinal, o machismo é vastamente reproduzido na mídia e na cultura e posturas que inferiorizam as mulheres estão por toda a parte: nas propagandas dos mais diversos produtos, nos roteiros dos filmes e programas mais assistidos, nas letras das músicas e até mesmo na embalagem dos alimentos e produtos de higiene que consumimos. Há todo um sistema especializado em separar o mundo entre homens e mulheres e atribuir valores melhores ou piores a ambos. Não se trata de uma força isolada, mas de um grande e complexo sistema que subjuga o feminino.

É importante entender que qualquer indivíduo humano não é uma mera marionete dos seus pais, da escola ou da televisão. Ao contrário, basta pensar um pouco para lembrar que muitas das nossas próprias opiniões e preferências individuais são totalmente distintas daquelas de nossos pais, ou mesmo daquilo que aprendemos na escola. Somos formados por coisas que adquirimos de amigos, de livros, do ambiente profissional e de nossas experiências subjetivas, daquilo que somente nós vivemos e sentimos – e, portanto, somente nós significamos. Apontar um único canal ou estímulo é reducionista e pouco acurado, pois identificar as vivências mais relevantes para um sujeito é algo que apenas uma boa psicoterapia é capaz de revelar.

Além disso, culpar as mães pelos homens que agridem mulheres é uma forma de retornar a culpa à vítima, uma vez que as mães também são mulheres e também sofrem as consequências de uma cultura machista. Não são poucas as mães agredidas pelos próprios filhos, especialmente quando a velhice se aproxima. Dizer que as mães ensinam seus filhos homens a serem misóginos é corroborar com a retirada de responsabilidade dos agressores.

É preciso ter o senso crítico ativo para compreender que cada indivíduo é um ser único, que faz escolhas e opta de acordo com suas perspectivas. Transferir a responsabilidade para focos isolados limita a visão da realidade, impedindo de enxergar que o problema é muito maior e sustentado por todas as pessoas de nossa sociedade. Buscar meios de atuar em todas as esferas é garantir um compromisso de desconstrução do machismo.









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Comentários

3 comments

  1. angélica patricia Responder

    sabe por que ñ existe comentários? por que ninguém se importa com isso, as pessoas estão acostumadas a aceitar o que já está imposto e direcionado, se houver mudanças fica impedido pela a maioria que estão no poder de politicagem como os homens

    1. Rosa Responder

      Porque ninguém quer questionar ou incomodar os homens, esses sim os grandes proagadores do machismo. São os homens que, pelo exemplo e atitudes, ensinam aos meninos e meninas o sexismo; pelo modo como trata a própria mulher, as filhas e os filhos. Lembro da minha infancia e adolescencia, meu pai e tios, ensinando o machismo aos meus primos e irmãos. Eram eles que apontavam as mulheres peitudas ou bundudas na rua pros garotos e depois faziam piadinhas misóginas; eram eles q tratavam as proprias esposas como meras empregadas do lar e as desrespeitavam na frente dos filhos.

  2. Slash Responder

    “Eu não vim da sua costela. Você que veio do meu Útero” Esse cartaz ficou muito foda. Sou homem mas queria ter tirado uma foto ao lado desse cartaz, que é uma verdade verdadeira a esta bobagem que nos foi imposta pela religiosidade judaico cristã.

    Quem cria machistas normalmente são religiosos sectários ou fundamentalistas. Pessoas mais esclarecidas não fazem isso.