Prostituta até que se prove o contrário

Por Jarid Arraes, (Foto: Mídia Ninja) No último dia 20, foi exibida no programa Encontro com Fátima Bernardes uma matéria sobre uma mulher que gosta de sair sozinha. Sem...

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Por Jarid Arraes,

(Foto: Mídia Ninja)

No último dia 20, foi exibida no programa Encontro com Fátima Bernardes uma matéria sobre uma mulher que gosta de sair sozinha. Sem amigos, sem namorado ou familiares, a moça acompanhada pela equipe do programa afirmava com muita segurança que sair sozinha era um hábito confortável e que havia aprendido a ser feliz consigo. Após a exibição da gravação, os convidados do dia passaram a conversar e opinar sobre o assunto.

O problema é que entre eles estava o médico psicanalista Francisco Daudt, presença fixa no programa, que disse: “se você vai para um bar, está vestida para matar e senta, toma um choppinho e passa um radar em torno, as pessoas vão fazer a leitura correta, social, de que você está disponível”.  Segundo suas próprias palavras, Daudt afirma que “a mulher que está sozinha, por exemplo, é frequentemente uma garota de programa que está a caça de companhia. (…) Então você está mandando um determinado sinal, ou seja, a moça é garota de programa – estará passando essa mensagem – se estiver vestida para matar, num bar chique e passando o radar em torno. (…) Você pode ir pra onde você quiser, desde que você pague o preço, desde que você saiba onde você está se metendo”.

A atriz Sophie Charlotte discordou e em vários momentos sustentou uma feição incrédula e crítica. O discurso defendido pela atriz é muito parecido com os argumentos feministas que motivaram a Marcha das Vadias. Já a colocação do médico psicanalista é um exemplo da repetição de paradigmas que olham com maus olhos a autonomia feminina e atribuem às roupas níveis maiores ou menores de respeito. Daudt ainda reproduziu um conhecido clichê de culpabilização da vítima, o de que as mulheres que “provocam” deveriam saber que estavam provocando quando agiam ou se vestiam de determinada maneira; supostamente, a violência sofrida é consequência e, por isso, a mulher deve pagar o preço.

Apesar dessas questões serem discutidas exaustivamente nos fóruns e análises de gênero, Francisco Daudt é um profissional da psicanálise. Embora não tenha citado a fonte de sua alegada estatística, muitas pessoas desavisadas podem pensar que seu posicionamento representa a Psicanálise em si. No entanto, há outros posicionamentos na Psicanálise, como pode ser visto na seguinte entrevista com o psicólogo e psicanalista Rafael Lobato Pinheiro*, que opinou sobre as afirmações de Daudt:

Qual a postura da Psicanálise diante de valores culturais como o machismo? A psicanálise é somente descritiva ou tem a intenção de problematizar a cultura e gerar transformações sociais?
A psicanálise problematiza a cultura desde seus primórdios. Freud tinha um interesse muito particular pela força da psicanálise para interpretar e explicar as origens da cultura. Um texto importante que ele escreveu em 1908 chama-se “Moral Sexual Civilizada e o Nervosismo Moderno”. Nele, Freud faz sua primeira incursão no campo da cultura, demonstrando o quanto toda psicologia individual é também ao mesmo tempo psicologia social. O sofrimento do sujeito encontra também seus determinantes na cultura na qual ele está inserido. O termo “nervosismo moderno” denota que há uma especificidade no mal-estar vivido sob a égide de cada época e que implica o sujeito num sofrimento para o qual a psicanálise pode ser uma resposta. Lacan, por sua vez, é enfático ao afirmar que é imperativo ao psicanalista dar conta da dialética que compromete seu ofício com a subjetividade de seu tempo. O legado de Freud para o psicanalista é convoca-lo a ser um crítico da cultura da qual é testemunha.

Na luta contra o machismo, eu diria que a psicanálise ocupa uma posição de vanguarda. Podemos dizer que um dos grandes méritos de Freud foi denunciar a falência da imago paterna. Nietzsche decretou a morte de Deus-Pai e Freud examinou seu cadáver revelando que ele não passava de uma miragem a qual nos agarrávamos. Gosto de pensar que a psicanálise é responsável, em grande parte, pela sociedade mais horizontalizada na qual vivemos. Estamos longe do ideal, mas é inegável que a legitimidade de uma sociedade pautada por uma autoridade vertical não se sustenta mais. O machismo é fruto da crença de que o homem tem um lugar garantido naturalmente na cultura humana; umas das coisas que a psicanálise nos ensina é que não há lugares garantidos. Masculino e feminino são posições que não equivalem necessariamente ao que conhecemos como “homem” e “mulher”.

O médico psicanalista Francisco Daudt disse que, segundo estatísticas (não citou fontes), mulheres que saem sozinhas e muito arrumadas são, na maioria das vezes, prostitutas. E por isso devem saber que receberão tratamento preconceituoso. Qual a sua posição como psicólogo/psicanalista a respeito disso?
Ainda que uma mulher seja prostituta, isso não dá direito a nenhum homem de tratá-la com preconceito ou usar de violência. Muitas mulheres se vestem como virgens pudicas e por dentro estão ardendo em desejo; outras são exuberantes e sensuais e nem por isso estão dispostas a fazer sexo a todo o momento. Vivemos num tempo em que homens se vestem como mulheres e mulheres se vestem como homens. Como eu disse, não há lugares garantidos. Apesar da confusão geral sobre nossa sexualidade na atualidade, eu tendo a ver isso com bons olhos. No século XIX ser mulher era limitado a um padrão unívoco de conduta. Hoje, apesar de tudo, essa mulher não existe mais. Talvez por isso os homens andem tão assustados. Declarações como essa revelam mais sobre o desejo de quem as profere do que sobre as mulheres propriamente ditas.  As mulheres hoje não se permitem definir, elas descobriram que podem encontrar uma definição singular para si mesmas. Isso tudo sem a ajuda dos homens. Imagino que isso assuste profundamente este senhor.

É ético que um psicanalista diga que as mulheres devem se conformar com o tratamento social machista imposto?
A ética da psicanálise, segundo Lacan, resume-se a uma máxima: “não ceder de seu desejo”. O desejo humano é aquilo que nos singulariza, que nos torna diferentes e de alguma forma únicos. A invenção freudiana começou justamente oferecendo uma escuta ao desejo feminino. No século XIX alguns médicos acreditavam que as mulheres sofriam de histeria porque viviam uma intensa repressão sexual; Freud foi além disso e interpretou os sintomas histéricos como uma constante afirmação do desejo feminino. A famosa insatisfação feminina tornou-se assim, o paradigma do desejo humano. Somos insatisfeitos e essa é e beleza e a tragédia de nossa espécie. Freud apontou que o Pai não era suficiente para interpretar o desejo de uma mulher, ou seja, o homem não sabe o que falta a uma mulher. Isso só ela pode saber. Como então acreditar que os homens detém algum saber sobre a sexualidade feminina?

Para a Psicanálise, é possível que mulheres enviem “sinais” que levem as pessoas a considerarem uma prostituta?
Bem, nós enviamos sinais o tempo todo na tentativa de comunicar o que desejamos. A tragédia é que o que governa nossas relações é o mal-entendido. O que se diz quase nunca é o que o outro entende. Cada um interpreta a realidade com a mancha do seu desejo. Nem sempre temos controle sobre que sinais estamos transmitindo, entretanto, o que chega ao outro não é exclusivamente nossa responsabilidade. O outro também é responsável. Portanto, se um homem percebe uma mulher como uma prostituta, possivelmente é isso que ele quer ver. Veja como o desejo é um laço que responsabiliza no mínimo dois sujeitos… Quase nunca estamos sozinhos quando desejamos. Honestamente, se eu olhar uma mulher como uma prostituta, isso é meu ou dela? No fundo o que está por trás de falas como essa é a crença de que para uma mulher ser objeto de desejo de um homem ela precisa reduzí-la à condição de objeto. A fantasia da prostituta parece servir a este propósito. Mas, devo dizer que isso é uma fantasia presente em muitos homens e também em incontáveis mulheres. Contudo, isso não justifica o machismo como um triste artifício para homens que não sabem seduzir mulheres.

A Psicanálise pode ser considerada uma área feminista?
Eu não colocaria nestes termos. Prefiro dizer que o feminino concerne profundamente à psicanálise. Freud morreu sem saber o que uma mulher desejava, esse enigma parece tê-lo perturbado bastante. Onde Freud não avançou muito, Lacan nos deixou importantes pistas: a mulher deseja desejar. O que mais se pode querer? O desejo feminino é uma das marcas registradas de nossa vã humanidade. Queremos sempre o que está mais além e isso move nossas vidas. As feministas criticam muito os textos iniciais de Freud, pois de uma forma ou de outra o desejo da mulher era sempre interpretado como desejo de ter o que um homem tem. Bem, hoje sabemos que isso que o homem supostamente possui ninguém tem. O desejo não é masculino nem feminino. O desejo é o que de mais antinatural existe para nós, é por isso que homens podem ser belamente femininos e mulheres podem ser poderosamente masculinas. O que posso afirmar sem medo é que as mulheres estiveram muito presentes em toda a história do movimento psicanalítico. Se não fosse por uma mulher, talvez Freud tivesse morrido numa câmara de gás e o mundo teria perdido alguns de seus melhores trabalhos. Freud talvez não sabia mesmo o que as mulheres queriam, mas elas lhe deram provas de que não só sabiam o que queriam como estavam dispostas a pagar o preço pelo seu desejo.

Na sua opinião, há carência de politização feminista por parte de psicanalistas e profissionais da área da saúde mental?
Eu disse que uma mulher salvou Freud e sua família da invasão nazista em Viena. Essa mulher foi a princesa Marie Bonaparte. Ela foi a primeira psicanalista francesa e uma das únicas analisadas pelo próprio Freud. Ela trabalhou toda sua vida pela causa psicanalítica e escreveu uma obra muito interessante sobre a misteriosa sexualidade feminina. Sua presença foi marcante e constante na cena analítica de sua época e a primeira tradução francesa da obra de Freud se deve a ela. Além disso, ela também participou ativamente da vida política de seu tempo.  Portanto, eu não diria que há carência de feministas dentre os psicanalistas. Talvez os psicanalistas sejam um pouco refratários ao ativismo, mas isso não significa dizer que muitos não sejam politizados e preocupados com as questões urgentes de nossa sociedade. Um exemplo disso é a forte presença de psicanalistas na saúde mental no Brasil. A psicanálise teve um forte papel na luta antimanicomial e continua defendendo um modelo de saúde mental humano e não segregacionista. Temos também o prazer de ter uma psicanalista na famosa Comissão da Verdade, a Maria Rita Kehl. Lacan certa vez afirmou que aquele que não conseguisse alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época que renunciasse ao ofício de psicanalista. Pois bem, isso é uma convocação política!

É fato que a opinião é direito de todas as pessoas, assim como a réplica. Questionar aquilo que ouvimos e vemos é um hábito saudável e é sempre importante buscar outras fontes e outras perspectivas. No final das contas, fica a certeza de que a liberação feminina ainda não é tão efetiva como muita gente acredita.

*Rafael Lobato Pinheiro é psicólogo, psicanalista, mestre em Psicologia e professor da Faculdade Leão Sampaio em Juazeiro do Norte/CE. É também membro da “Invenção Freudiana – transmissão da psicanálise” e membro do grupo gestor da sub-sede Cariri do CRP- 11.









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Comentários

3 comments

  1. rosane Responder

    Pelo que me parece, este tal Francisco Daudt não conseguiu, ainda, alcançar a subjetividade da nossa época.
    Ele deveria ler o livro ” O Comprovante da Falta ” , acho vai ajudá-lo a não cometer tantos equívocos como este. Lamentável!! Sic

  2. Cris Campos Responder

    Esse cara é um horror!. Além de machista é um reaça de carteirinha. Se eu soubesse que ele frequenta o programa da Fátima jamais teria jogado dinheiro fora com seu livro sobre a natureza humana, onde ele destila seu ódio ignorante contra comunistas e petista. Dá vontade de vomitar!

  3. Henrique Responder

    O corpo deseja o que só poderia desejar, mas a alma, enquanto instância deliberativa, em meio ao inconsciente psíquico, decide, muitas vezes, para a tristeza daquele outro, contrariamente. Eis a dimensão humana: a liberdade, em todos os seus lados. A questão é que, como ensinava Freud, viver em sociedade humana significa, também, renunciar e recalcar, muitas vezes, goste-se ou não.