O espírito da Primavera Árabe

Mesmo que a maioria dos egípcios não esteja disposta a ouvi-los, ainda há grupos que se opõem publicamente à velha ordem e insistem em proclamar: “Tahrir, vale a pena lutar”...

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Mesmo que a maioria dos egípcios não esteja disposta a ouvi-los, ainda há grupos que se opõem publicamente à velha ordem e insistem em proclamar: “Tahrir, vale a pena lutar”

Por Reginaldo Nasser*

No terceiro ano do início dos levantes árabes o saldo é desanimador para aqueles que lutam pela democracia. Centenas de pessoas foram mortas no Egito, Síria e Líbia apenas no último final de semana. A isso se somam milhares de presos, feridos e milhões de refugiados. O epicentro da mobilização das massas no Mundo Árabe, a Praça Tahrir, no Cairo, foi transformado num espaço controlado pelas forças de segurança. Os meios de comunicação, em quase todos os Estados árabes, são deliberadamente pró-regimes vigentes, enquanto os dissidentes são qualificados como terroristas. Recentemente, o ministro do Interior do Egito, em uma coletiva de imprensa, deixou claro qual é a nova tática da repressão: “No início, estávamos habituados a esperar a manifestação violenta para agirmos, mas agora os enfrentamos uma vez que eles se reúnem”.

Entretanto, as medidas autoritárias policialescas pouco fizeram para trazer a tão alardeada estabilidade, pelo contrário, ataques e tiroteios atingindo as forças de segurança no Egito já fazem parte da rotina (mais de 250 policiais mortos nos últimos meses). Em outras palavras, o Egito está à beira de uma guerra civil. Situação em que se encontra Síria e, de certa forma, a Líbia, há mais de dois anos.

Diante de tal quadro, é perfeitamente compreensível concordar com grande parte da mídia, que conclui, com tintas tenebrosas, que a “Primavera Árabe” é um verdadeiro fracasso. Esta, que de forma tão zelosa saudava o encontro dos árabes com a democracia, agora volta a recorrer aos velhos estereótipos para explicar o “caótico Mundo Árabe”. A percepção que se difunde é de que houve muito barulho para nada.

Creio que devemos ponderar com cautela os processos revolucionários. Como já explicou Hannah Arendt ( Sobre a Revolução, várias edições), originalmente um termo astronômico, a palavra “revolução” designava um movimento periódico, cíclico, uma força irresistível que estava além da influência do homem. Quando aplicado no campo da política, o termo significava um eterno retorno às poucas formas conhecidas de governo com a mesma força irresistível que faz com que as estrelas sigam seus caminhos.

Nada poderia ser mais distante do significado moderno da palavra “revolução”, que nos remete à imagem de atores revolucionários como agentes de um processo que significa o fim definitivo da velha ordem e o nascimento de um novo estado de coisas.

Os conservadores permaneceram fieis à primeira concepção. Observavam, sarcasticamente, que, na verdade, o objetivo das revoluções não era a queda do antigo regime, mas sim sua restauração.

Não estamos apenas diante de duas concepções de revolução. É preciso compreender que estamos referindo a ordens de coisas distintas. Ou seja, podemos ter um quadro que indica restauração do antigo regime, no caso do Egito com os militares retornando ao poder, mas também não podemos perder de vista que surgiu um “novo espírito” que nos motiva a começar algo novo. Muito embora até o momento não tenha sido forte o suficiente para construir instituições apropriadas. Mesmo que a maioria dos egípcios não esteja disposta a ouvi-los, ainda há grupos que se opõem publicamente à velha ordem e insistem em proclamar: “Tahrir, vale a pena lutar”.

Um bom exemplo disso é o Bob Dylan egípcio, Ramy Essam. Torturado em 2011, constantemente perseguido pelas forças policiais, continua a usar sua música para desafiar a opressão no país, seja no governo da Irmandade Muçulmana ou dos militares. Às vésperas da comemoração do 3º ano da revolta contra Mubarak (24 de janeiro) foi postado nas redes um novo videoclip de Ramy Essam denominado Mahnash Min Dol (“Não pertencemos a eles”) Trata-se de um pungente manifesto de rebeldia. Vejam e opinem. Não é contagiante?

Foto de capa: Mona/Wikimedia Commons

* Na próxima quinta-feira (13), Reginaldo Nasser estreará o seu blogue “As Palavras e as Coisas”, no portal de Fórum.


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