Palestina e Rio Centro: Limpeza étnica e terrorismo de Estado

É preciso investigar a fundo essa história que poderia lançar novas luzes no entendimento de um tipo de ação que, infelizmente, não ficou no passado. É frequente referir a certas ações ilegais que ocorrem paralelamente ao Estado, mas o que esse caso revela é...

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Por Reginaldo Nasser

(Foto: Divulgação)

Depoimento prestado pela viúva do agente do Destacamento de Operações de Informações (DOI), órgão de inteligência e repressão da ditadura militar, Guilherme do Rosário, ao MPF (RJ) fornece mais pistas sobre o caso Rio Centro. Suely José do Rosário declarou ter recebido várias ameaças dentro de sua própria casa por militares logo após morte de seu marido. Foram à sua casa e colocaram fogo em documentos que estavam guardados. Declarou ainda que, pouco tempo antes de morrer, seu marido tinha passado 15 dias em Brasília.

Os procuradores acreditam que uma das pessoas que pressionavam Suely seja o coronel reformado do Exército Otelo José da Costa Ortiga, que alegou problemas de saúde para não depor no MPF. É preciso investigar a fundo essa história que poderia lançar novas luzes no entendimento de um tipo de ação que, infelizmente, não ficou no passado. É frequente referir a certas ações ilegais que ocorrem paralelamente ao Estado, mas o que esse caso revela é que ação ocorreu sob o manto protetor do Estado.  Não se trata do caso que comentei, semana passada, de Terrorismo de Estado, mas de terrorismo praticado por agentes do Estado, contando, inclusive com seu aparato.

Palestina. Limpeza étnica e colonialismo 

Não se deu a devida repercussão ao relatório de 22 paginas apresentado, na semana passada, pelo relator especial da ONU, Richard Falk, sobre a situação dos Direitos Humanos nos territórios palestinos. O relatório que deverá ser apreciado pelo Conselho de Direitos Humanos contém informações detalhadas sobre a situação dos palestinos, além de graves acusações ao Estado de Israel por crimes internacionais de “apartheid” e “limpeza étnica”.

De acordo com Falk, o “padrão contínuo de expansão de assentamentos, em Jerusalém Oriental, combinado com o despejo forçado de palestinos de suas residencias estão criando uma situação intolerável” e “só pode ser descrito em seu impacto cumulativo como uma forma de limpeza étnica”. Falk adverte, inclusive, que é mais apropriado descrever essas ações, do Estado israelense, como anexação e ambições coloniais e não simplesmente ocupações. Pois é, quando se faz qualquer referencia a colonialismo, somos tentados a pensar apenas no colonialismo europeu com um fato histórico de um passado longiquo. Ora, é preciso ver o colonialismo como uma tecnologia de poder que se aperfeiçoa continuamente para lidar com as resistencias que vão surgindo e que adquire tonalidades diferentes dependendo do contexto em que se insere.

Coincidentemente, esteve aqui no Brasil, na semana passada, um dos mais destacados historiadores da questão palestina, Benny Morris, para o lançamento da tradução de seu livro “Um Estado, Dois Estados” (Sefer). De formação erudita, com uma rara perspicácia para a pesquisa documental, Morris, também é conhecido por suas posições controvertidas de gerar criticas à direita e à esquerda. Mas creio que, além disso, tem assumido uma posição que poderíamos definir, no mínimo, como perigosa em termos de julgamentos morais.

Em entrevista á Folha de São PauloMorris diz que “A moralidade da política mudou. Não é mais moralmente aceito ocupar outro povo, e temos ocupado outro povo desde 1967”. Ora, precisaríamos saber quando foi “moralmente aceito”? Na sequencia de sua resposta compara com os europeus dizendo que eles “oprimiram muito mais do que Israel, no passado”. De acordo, mas se há houve algo pior, devemos escolher esse? Mas não para por ai. Também reconhece que houve “limpeza étnica”, mas “parcial”. Poderíamos dizer que essas respostas foram apenas um “escorregão” do historiador, mas tudo indica que não.

Em uma longa entrevista concedida, em 2004, uma das mais chocantes, Morris recorre mais uma vez às analogias para justificar suas escolhas. No caso em questão trata-se da criação do Estado de Israel e a “limpeza étnica parcial”. Morris, um Maquiavel dos novos tempos,  afirma que: “Mesmo a grande democracia americana não poderia ter sido criada sem o aniquilamento dos índios. Há casos em que o objetivo final justifica atos cruéis que são cometidos no curso da história”. Ou seja, a aniquilação da população indígena do continente era uma condição necessária para a constituição da democracia americana? Morris chega a firmar que “… este lugar (Palestina) seria mais tranqüilo com menos sofrimento, se o problema tivesse sido resolvido de uma vez por todas… Se Ben-Gurion tivesse realizado uma grande expulsão e limpado toda a Terra de Israel, até o rio Jordão” Enfim se ele “tivesse realizado uma expulsão completa – ao invés de parcial – ele teria estabilizado o Estado de Israel por gerações”. Como já disse um dos críticos mais contundentes de Morris, o professor de sociologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, Baruch Kimmerling, apesar de todas as suas “descobertas” sobre erros morais perpetrados pelos israelenses, no final, ele sempre tende a justificar esses erros comparando sempre com algum outro que seja bem maior.



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