A luta das mulheres não acontece só no sudeste

Por Jarid Arraes Apesar de haver muitas correntes e vertentes ideológicas feministas, há um consenso a respeito da necessidade de união para alcançar certos objetivos políticos. Algumas feministas falam em sororidade enquanto outras pensam em estratégias, mas quase todas concordam que é preciso...

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Por Jarid Arraes

Apesar de haver muitas correntes e vertentes ideológicas feministas, há um consenso a respeito da necessidade de união para alcançar certos objetivos políticos. Algumas feministas falam em sororidade enquanto outras pensam em estratégias, mas quase todas concordam que é preciso somar forças com outros movimentos sociais para contemplar a maior diversidade possível de nuances culturais. Assim, a ideia de que o feminismo se entrelaça com o movimento negro ou com o movimento LGBT, por exemplo, é bastante recorrente. No entanto, há obstáculos no caminho dessa idealização: embora se lute pelos direitos de todas as mulheres, alguns grupos recebem mais importância dos movimentos sociais do que outros. É o que acontece, por exemplo, com relação às lutas e pautas dos coletivos do norte e nordeste do país.

Para quem nasceu e cresceu em algum centro metropolitano como o Rio de Janeiro ou São Paulo, pode ser difícil compreender que há vida humana em outras regiões. Quase todas as notícias de escala nacional exibidas na tv ou nos jornais, afinal, se passam no sul ou sudeste. É assim que fica para trás o exercício de um sentimento indispensável para os movimentos sociais: a empatia.

É preciso lembrar que quem sofre misoginia, racismo, homofobia e transfobia não está somente no sudeste do Brasil, mas vive também em cidades do agreste e da caatinga, longe das gigantescas cidades que “nunca dormem”. Não é somente em São Paulo que se mata mendigo, nem apenas no Rio de Janeiro que há exploração sexual de menores. Isso é alarmante porque as vítimas desses crimes e suas lutas também são dignas do choque e da revolta da população. Mas quando os grupos ativistas de outros estados saem às ruas para protestar, levantam petições ou campanhas online, ou simplesmente pedem mobilização de militantes para espalhar a notícia, ficam a ver navios.

As mulheres nordestinas, sobretudo as que vivem em pequenas cidades do interior, são preteridas, esquecidas e excluídas dos locais de debate, quase nunca lembradas em mesas de discussão e deixadas de lado quando seus direitos são violados. Não é por acaso que regiões interioranas do Ceará possuem índices tão altos de feminicídio, pois as engrenagens não se movem em defesa dessas mulheres, que já não contam com aparatos do Estado e meios acessíveis na batalha por seus direitos.

A discussão sobre a necessidade de intersecionalidade no Feminismo tem se tornado cada vez mais recorrente, embora conte ainda com alguma resistência. Mas nem mesmo os grupos ativistas, constituídos de pessoas conscientes das diversas faces da exclusão, conseguem sair de suas bolhas sudestinas. É muito mais comum que se lembre de feministas estaduinidenses do que de feministas nordestinas; a ignorância a respeito das histórias das mulheres negras, do norte e do nordeste, é gigantesca. Por isso o discurso pró-intersecionalidade soa tantas vezes hipócrita e demagogo, uma vez que falha miseravelmente em ser verdadeiramente plural e dificilmente se volta para vivências distintas.

É extremamente necessário expor e remexer essa ferida. A invisibilidade das pessoas de outras regiões perante as lutas por justiça social serve, ironicamente, a um sistema preconceituoso e hostil, cujos holofotes iluminam somente as capitais do país. Essa mentalidade perpetua paradigmas equivocados a respeito dos nordestinos, assumindo muitas vezes que são pessoas menos inteligentes, sem educação e sem importância, que só servem para fornecer mão de obra e recursos para o sudeste, uma ótica notavelmente escravista. E é por causa dela que há tanto desdém por baianos, paraibanos e cearenses, tidos por muitos como pessoas de uma região atrasada, que “impede o avanço do país”.

É ainda pertinente compreender que esses estados não são preteridos por algo imaterial e impossível de nomear. Essa opressão acontece porque algumas regiões possuem mais poder, mais dinheiro e mais recursos do que outras, algo originário da história do país. A opressão continua estabelecida porque as pessoas que vivem em locais privilegiados não abrem mão de seus privilégios, ainda que muitos de seus caprichos só possam ser atendidos devido ao trabalho interminável dos nordestinos, que ganham menos para trabalhar mais e movimentam as indústrias, o comércio e a agricultura do Brasil. E essa postura senhoril não se limita às camadas menos politizadas e menos envolvidas com Direitos Humanos, ela está viva e atuante nos movimentos sociais, no Feminismo, no movimento negro e no ativismo LGBT.

Independente do apoio e solidariedade que as militantes do sudeste ofereçam às feministas nordestinas, o trabalho de mulheres do Ceará, Pernambuco, Paraíba e outros estados continuará. Apesar de árdua, a luta é por sobrevivência e não depende de “tapinhas nas costas” dados por terceiros para que continue firme. A alfinetada, não obstante, precisa acontecer: até onde vai a hipocrisia?

Foto de capa: Camila Garcia/Tambores de Safo









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Comentários

1 comment

  1. Lindacy Assis Responder

    Boa tarde Jarid, concordo plenamente com você, ficamos na invisibilidade travando nossas lutas, que pouco são divulgadas, precisamos ter nossa autonomia na construção das pautas. Acredito que estamos avançando um pouco, mais precisamos de muito mais adesão das mulheres, digo sempre a unificação das luta´fará um grande diferencial principalmente para as mulheres nordestinas.
    Lindacy Assis- Presidente do Coletivo de Mulheres negras de Pernambuco- Estudante do Curso de Pós-Graduação em Gênero e Desenvolvimento de Politicas Públicas da UFPE.