“Praia do Futuro” e os homens além dos estereótipos fáceis

Novo filme de Karim Aïnous traz história densa sobre o amor entre homens que rompe com as classificações existentes das relações entre iguais

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Novo filme de Karim Aïnous traz história densa sobre o amor entre homens que rompe com as classificações existentes das relações entre iguais

Por Marcelo Hailer, na Edição 143 da Revista Fórum Semanal

Foto: Divulgação

Na última quarta-feira (16), foi exibido pela primeira vez em território nacional o filme Praia do Futuro, dirigido por Karim Aïnous, que tem no elenco os brasileiros Wagner Moura (Tropa de Elite 1 e 2), Jesuíta Barbosa (Tatuagem) e o ator alemão Clemens Schick.

Para quem acompanha a filmografia de Aïnous, a comparação entre Praia do Futuro e O Céu de Suely, uma de suas principais obras, será inevitável, porém, se em O céu… temos a retratação do universo feminino, em Praia do Futuro é o mundo masculino que dá o tom. Trata-se de uma história sobre relações afetivo-sexuais, de amizade e cumplicidade entre homens.

O ator Wagner Moura e o diretor Karim Aïnous (Foto: Divulgação)
O ator Wagner Moura e o diretor Karim Aïnous (Fotos: Divulgação)

O Abraço do afogado

Praia do Futuro é dividido em três partes e tem o seu ponto de partida em Fortaleza, na praia que lhe dá nome, onde o personagem Donato (Wagner Moura) trabalha como salva-vidas. A primeira sequência do longa se dá justamente com um afogamento, por meio do qual Donato conhece Konrad (Clemens Shicks) ao salvá-lo da morte. O amigo de Konrad não tem a mesma sorte e morre afogado.

Donato fica perturbado por ter perdido um salvamento no mar – é a primeira vez que isso ocorre com ele. Por conta disso, faz questão de levar a notícia a Konrad, que está no hospital. Desinibido, o alemão se troca na frente do salva-vidas e chama sua atenção do mesmo, que oferece uma carona. A partir daí os dois desenvolvem uma relação de profunda cumplicidade e amor.

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À medida em que a data de partida do visitante alemão se aproxima, Donato tenta convencê-lo a ficar no Ceará. O salva-vidas, no entanto, acaba indo ao encontro de Konrad em Berlim e por lá fica, deixando para trás o seu irmão menor Ayrton (Jesuíta Barbosa), que o tinha como figura inspiradora. Inconformado pelo desaparecimento do irmão, Ayrton parte anos depois, já crescido, para cidade alemã com o objetivo de reencontrar Donato e ter um acerto de contas.

Konrad (Clemens Schick), Donato (Wagner Moura) e Ayrton (Jesuíta Barbosa)
Konrad (Clemens Schick), Donato (Wagner Moura) e Ayrton (Jesuíta Barbosa)

Os corpos e a linguagem

Além de ser um filme sobre masculinidades, é notório o cuidado do diretor com o enquadramento dos corpos e o cruzamento entre eles. Temos aí dois momentos. O primeiro na praia, com os músculos expostos e exercitados e, posteriormente, o clima muda: já não há mais sol, apenas o céu cinza, corpos escondidos e concreto. E não apenas o cenário se transforma, mas a estética do filme, que tem uma fotografia exuberante de Ali Olcay Gözkaya, também acompanha essa mudança de cores e temperatura.

Outra questão de profunda importância a ser observada são os diálogos, pois, por mais que os personagens centrais se amem densamente, as conversas quase não existem e, quando acontecem, são entrecortadas e interditas. Para além da fala com palavras, o silêncio e a contemplação são as grandes ferramentas comunicacionais entre os personagens e do filme como um todo.

Praia do Futuro tem uma estética moderna e o tempo do filme também não fica atrás. A sensação que temos em variadas sequências é semelhante ao que sentimos em uma montanha-russa: da calmaria para o caos em questão de segundos. Não há linearidade na obra, seja em termos de cronologia ou de sequência. Em boa parte podemos dizer que são momentos fotográficos que se juntam e constroem a história. Sendo assim, Praia… com certeza vai dividir opiniões entre amor e ódio. Não é um filme fácil, mas vale cada segundo de sua poesia imagética.

Ayrton vai à Berlim em busca de seu irmão (Foto: Divulgação)
Ayrton vai à Berlim em busca de seu irmão

Cinema gay?

Praia do Futuro teve a sua estreia no último Festival de Berlim, que aconteceu no mês passado. Durante uma das entrevistas, o ator Wagner Moura declarou que não gostaria que o longa fosse reduzido a um “filme gay”. E ele está coberto de razão. Sim, a história central da obra é entre dois homens, porém, mais do que debater essa relação, trata-se de uma história entre duas pessoas que se encontram e se apaixonam. São dois corpos que se ligam.

E o mais interessante é que Praia do Futuro, com as devidas proporções, dialoga, no sentido da questão de atração entre dois corpos iguais, diretamente com Hoje eu quero voltar sozinho, também exibido no Festival de Berlim e premiado com o Teddy, destinado ao cinema queer. Em entrevista à Fórum, o diretor do filme, Daniel Ribeiro, seguiu a mesma linha e declarou que sua produção é mais do que um filme gay: primeiro, trata-se de um amor não ancorado na estética corporal, visto que o personagem central é cego. Em segundo lugar, é sobre dois garotos descobrindo um sentimento mútuo, que vai muito além das letrinhas que visam reduzir as experiências dos corpos.

Ainda que ambos os longas abordem a relação afetivo-sexual entre iguais fora do estereótipo comum, não podemos deixar de notar o momento do cinema brasileiro, pois Praia do Futuro e Hoje eu quero voltar sozinho são dois filmes que podem dialogar com o mainstream e também com o underground. Os dois já ganharam a crítica especializada – Hoje eu quero… estreou no mesmo final de semana de Noé e está fazendo público. Praia… também vai entrar no circuito nacional e terá como chamariz o ator Wagner Moura que, goste-se ou não, vive no imaginário popular como o capitão Nascimento de Tropa de Elite.

Outro fato interessante é que, mesmo com cenas de sexo entre os personagens Donato e Konrad, “Praia…” ganhou classificação indicativa de 14 anos. Sinal dos tempos?

Por fim, Praia do Futuro, mais do que um filme poético, é também uma obra política. Em uma de suas cenas mais emocionantes, quando os irmãos trocam cartas, Donato escreve: “fugi por que lá eu só me sentia livre dentro mar, aqui (Berlim) me sinto livre todo o tempo”. Pode não parecer, mas isso diz muita coisa e está bem próximo do nosso cotidiano, em que diariamente sujeitos têm de esconder sua vida.


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Comentários

6 comments

  1. Thiago Responder

    Não se trata de um filme gay. E sim de um filme g0y!

  2. giovanna gomes Responder

    Acho que o suposto critico deveria assistir mais filmes. esse filme é um filme enrustido sobre ser enrustido. péssimas atuações, o típico filme que quer se enquadrar num tipo de estética contemporânea para agradar um certo típico de público. sem alma, sem nada. EN-RUS-TI-DO. uma pena.

    1. WILL Responder

      Giovanna. Vc é que deve ser uma pessoa sem alma, sem nada. Reveja seus conceitos. Vc é uma pessoa totalemnte desinfirmada, sem cultura. Volte para a década dos Dinossauros….RIDICULA!

  3. kelvin Responder

    Gostei do filme, cheio de referências, abrangente, e um tanto exótico,acredito que a sexualidade é uma coisa pessoal e padronizar isso usando rótulos e/ou expressões não tem nada a ver. as pessoas são livres e tem direito de expressar como querem viver, precisamos combater esses preconceitos mesmo.

  4. Cintia Mari Responder

    O conservadorismo vem sempre revestido de sarcasmo e retórica tosca. Enrustido, bicha, etc…termos rasteiros. Até quando conviveremos com tão baixa compreensão sobre a VIDA.

  5. Ernesto Responder

    Entendo “péssimas atuações” , mas isso não o torna um filme ruim. Contudo não sai com aquele sensacao de quem saí de um restaurante quando come comida boa! A minha propaganda de boca é: NAO É UM FILMÃO, MAS VALE O INVESTIMENTO