O que as imagens de Abu Ghraib realmente nos dizem sobre a guerra

Soldados norte-americanos posando ao lado de prisioneiros encapuzados e de cadáveres em uma prisão iraquiana - há 10 anos - revelam a "banalidade do mal"

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Soldados norte-americanos posando ao lado de prisioneiros encapuzados e de cadáveres em uma prisão iraquiana – há 10 anos  – revelam a “banalidade do mal”

Por Sean Willcock, em New Internationalist | Tradução: Vinicius Gomes 

Em junho de 2003, enquanto o Iraque vivia um clima de violência brutal após a invasão anglo-americana do país um mês antes, a reservista do exército norte-americano Sabrina Harman estava tirando fotos. “Eu vi meu primeiro cadáver”, ela escreveu em uma empolgada carta ao seu pai, dizendo ainda: “Eu tirei fotos!”. Dentro de um ano, o entusiasmo de Harman com suas fotografias extremistas ficou conhecido por todo o mundo – seu sorriso radiante ao lado de prisioneiros iraquianos mortos, torturados e abusados, detidos na notória prisão de Bagdá: Abu Ghraib.

Eu vi meu primeiro cadáver”, Sabrina Harmann escreveu para o seu pai em uma carta
Eu vi meu primeiro cadáver”, Sabrina Harmann escreveu para o seu pai em uma carta (WikiCommons)

Já se passou uma década desde que as primeiras notícias da imprensa surgiram a respeito das incríveis fotos de Abu Ghraib. Tiradas por Harman e seus colegas carcerários durante um período em 2003 e vindo a público no final de abril de 2004, as fotografias ainda trazem um efeito chocante e perturbador. Elas mostram prisioneiros que tiveram suas roupas arrancadas, exceto seus sinistros capuzes usados para vendá-los; prisioneiros lambuzados no que aparenta ser sangue e fezes; prisioneiros acuados e encolhidos pelas dores e pressões de suas posições cansativas, cães rosnando, e uma miríade de humilhações pornográficas visualizadas pelos captores norte-americanos: masturbações públicas forçadas, posições de sexo simuladas, corpos desnudos pilhados em uma horrenda pirâmide humana. “Eu estou falando sobre pessoas se divertindo. Você já ouviu falar sobre alívio emocional”? foi o que falou Rush Limbaugh, conservador norte-americano e apresentador de um talk-show de uma rádio, que descreveu o comportamento visto nas imagens como “nada diferente do que acontece com os processos de iniciação de calouros em universidades”.

A noção de que Abu Ghraib foi apenas uma “boa e velha” piada também aparece em memes de internet como “Dando uma de Lynndie”, onde se via pessoas postando fotos com as mãos e fazendo sinal de positivo enquanto apontavam para as genitálias de seus prisioneiros nus e encapuzados. Lynndie England foi outra reservista do exército norte-americano que trabalhou como carcerária em Abu Ghraib. Os cenários aqui variam desde o estranho – crianças “dando uma de Lynndie” com seus cachorros – até ao sinistro, onde pessoas fazem o mesmo sinal para estranhos na rua.

Se o meme “Dando uma de Lynndie” é aceito tão facilmente, isso sugere algo importante sobre as imagens em Abu Ghraib, pois é precisamente a complacência pueril dos guardas sorridentes nessas fotografias que realmente atingem o estômago. Em um artigo publicado logo após a divulgação das imagens, a proeminente intelectual Susan Sontag capturou o impacto das imagens quando escreveu que o “o horror do que foi mostrado nas fotografias não podia ser desassociado do horror de que elas foram tiradas com os perpetradores posando e exultando sobre seus cativos impotentes”. Sontag apontou que as fotografias do início de século 20 de linchamentos nos EUA eram um precedente perturbador para as imagens de Abu Ghraib, mas, na realidade, a ligação da câmera com a crueldade e a agressividade triunfante data de outros tempos.

A mais antiga fotografia de um cadáver em tempos de guerra foi tirada mostrando corpos amarrados e encapuzados de supostos insurgentes, pendurados de uma forca aos redores de Lucknow, durante o motim indiano de 1857-58.

De acordo com o tenente Arthur Moffat Lang, um britânico colonial presente no enforcamento, o autor da medonha imagem, Felice Beato, correu até os corpos balançantes dos indianos e “amarrou” os pés deles, quando suas vidas já haviam sido extintas, para serem fotografadas de maneira bonita. Um deliciado Lang em sua sanha por vingança contra os rebeldes indianos escreveu em seu diário que acreditava que “fotografar [o enforcamento] deve ter aumentando o horror da cena” para a multidão de indianos que assistiam a tudo.

Após a divulgação das fotos, Charles Graner foi sentenciado a 10 anos (cumpriu 6) (WikiCommons)
Após a divulgação das fotos, Charles Graner foi sentenciado a 10 anos (cumpriu 6) (WikiCommons)

Sendo assim, a fotografia tem há tempos sido utilizada para ampliar os efeitos psicológicos da violência; para o tenente Lang, em 1858, a câmera não era uma ferramenta documentária neutra, mas algo que participava dos horrores da guerra, um fato que os prisioneiros em Abu Gharib certamente concordariam. Nota-se também, que a excitação de Lang com a intervenção mórbida do fotógrafo na cena seria, 145 anos depois, reproduzida na carta de Sabrina Harman para o seu pai.

Em outras palavras, as fotos de Abu Ghraib não eram – como alguns críticos disseram na época – o produto de um torpor moral de jovens norte-americanos corrompidos pela cultura pop da violência e pornografia de Hollywood. Elas emanam, primeiramente, de uma antiga linha de pensamento que os coloniais britânicos do século 19 eram também adeptos: uma que coloca os “civilizados” (ocidentais) contra os “selvagens” (orientais). Ao primeiro grupo é oferecido o status de “pessoas”, enquanto ao segundo, oferece-se o status de “coisas”. Apenas objetos.

O mundialmente famoso "homem encapuzado" é um professor islâmico chamado Ali Shalal. Ele foi preso enquanto se dirigia a uma mesquita para fazer suas preces
O mundialmente famoso “homem encapuzado” é um professor islâmico chamado Ali Shalal. Ele foi preso enquanto se dirigia a uma mesquita para fazer suas preces (WikiCommons)

Observa-se, por exemplo, que a montanha de iraquianos nus com Sabrina Harman sorrindo ao lado de seu colega, Charles Graner (considerado o líder do grupo de abusadores e o que recebeu a maior sentença: 10 anos de prisão, a qual ele serviu apenas seis), foi meticulosamente montada. É visível que sua composição foi encenada diversas vezes pelos captores. Sendo assim, é compreensível que foi precisamente o poder estético (apesar de a frase soar estranha) que fixou essas imagens na consciência pública de forma irrevogável.

Afinal, quem é que não viu a foto do homem encapuzado em Abu Ghraib em uma pose como Cristo – agora um permanente ícone antiguerra? Dez anos depois, as imagens de Abu Ghraib continuam a assombrar o discurso sobre a Guerra no Iraque. Os sorrisos de Sabrina Harman e de seus colegas, enquanto eles presidem um inferno na terra, trouxe à tona um dos termos mais famosos ditos por Hannah Arendt: “a banalidade do mal”, mostrando que a imagem de torturador que nos vêm à mente não é uma figura sinistra e malévola e sim um jovem  imaturo de sorriso desdenhoso e totalmente “humano”.

Essas fotografias nos ensinaram que a trilha sonora para a agonia insuportável poderia ser o rotineiro clique de uma câmera e a risada juvenil de pessoas “se divertindo”.



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6 comments

  1. Elias Responder

    Perto dos paredões de Cuba essas fotos são bem inocentes.

    1. Yuri Ribeiro Responder

      Cara, procure um psiquiatra. É sério. Seu problema deve ser clínico e talvez você ainda consiga se curar.

    2. luiz Responder

      Idiota!

    3. Renan Responder

      Sim, Cuba vive invadindo países.

  2. Elias Responder

    O justiçamento era a prática da tortura seguida de morte aos opositores dos guerrilheiros durante a época do regime militar de 1964. Ocorria, também, em diversos tribunais revolucionários espalhados pelo mundo, oriundos, em geral, de uma situação política excepcional que se instalava após o sucesso de um movimento revolucionário.

    Os que aplicavam os justiçamentos não julgavam legalmente os condenados que eram sumarimente eliminados, muitos sem direito à defesa. O justiçamento, na prática, é um linchamento que ocorre as margens do sistema legal vigente onde o réu não tem condições de se defenderJá que trata0-se de ações realizadas em regimes de exceção.

    Muitas vezes esta forma de linchamento era aplicada naqueles considerados pelo próprio grupo como traidores da causa. Geralmente se iniciava com uma denúncia dos próprios companheiros contra o que seria justiçado. Seguia-se um processo revolucionário, com o fornecimento de provas de defesa e acusação, semelhante aos tribunais revolucionários que na época do surgimento da URSS, executavam prisioneiros e traidores pertencentes ao grupo que estava no poder. Caso considerado culpado pelo grupo, o acusado era executado. No Brasil ocorreram casos de justiçamento onde o acusado não sabia que estava sendo “julgado”: tal prática acarretou, por exemplo, a morte do marinheiro inglês de 19 anos David A. Cuthberg no Rio de Janeiro em 1972. Ele foi morto por guerrilheiros membros ALN.

    Um exemplo de justiçamento é dado a seguir e foi praticado por Luís Carlos Prestes e seu grupo revolucionário esquerdista, no Brasil, em 1936:

    Suspeita de ser informante da polícia, Elvira Cupello, de 16 anos, foi estrangulada com uma corda de varal e enterrada no quintal de uma casa de subúrbio do Rio de Janeiro. O enredo poderia ter lugar hoje, e os criminosos seriam traficantes. Mas o “justiçamento” de Elvira – mais conhecida nos meios clandestinos pelo codinome Elza Fernandes, ou simplesmente como “a garota” – ocorreu em 1936, quando ainda não existiam as facções do tráfico. Quem perpetrou o ato foi outro: o Partido Comunista Brasileiro. O episódio abala a mitologia de Prestes, que Jorge Amado chamava de “cavaleiro da esperança”. Partiu de Prestes a ordem definitiva para a execução de Elza, embora não existissem provas cabais de que ela fosse uma delatora. A história foi recuperada em detalhes pelo jornalista e escritor mineiro Sérgio Rodrigues, no romance Elza, a Garota.

    Justiçamento era uma prática tanto dos membros dos movimentos guerrilheiros das décadas de 1960 e 1970, que lutavam no Brasil pela instauração de um regime socialista/comunista quanto dos torturadores que agiam a serviço da ditadura militar. Dava-se quando um membro de um grupo era enquadrado por traição ou por desejo de abandono de causa, o que era considerado pena capital para os esquerdistas. Eram, muitas vezes, execuções sumárias sem direito de defesa ao sentenciado. Porém, há notícias de justiçamento já antes do período ditatorial de 1964 a 1985, quando Luiz Carlos Prestes ordenou a execução de uma jovem que ele acreditava ter fornecido informações às autoridades, fato que teria contribuído para o insucesso do levante por ele planejado, conhecido como Intentona Comunista.

    1. Anne Responder

      Que bonito, cara. Isso mostra todo seu conhecimento em história e até mesmo política, mas conhecimento emocional é zero.
      Não se compara violência porque ela é ÚNICA. Um soco na cara é violência, um assassinato é violência, um xingamento é violência. Querer dizer que em Cuba o povo sofreu mais é querer menosprezar a dor dos iraquianos. NENHUM tipo de violência deve ser menosprezada ou ignorada porque isso seria a banalização do mal. Pensa nisso antes de dizer que A ou B sofreu mais ou menos ou que essas fotos podem ser “inocentes”.