No Brasil, o aborto é crime com pena de morte

Por Jarid Arraes Na última semana, a grande mídia tem dado atenção especial ao caso de Jandira Magdalena dos Santos, 27 anos, que engravidou e buscou uma clínica clandestina para realizar um aborto. Jandira, que antes do procedimento pediu oração por meio de...

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Por Jarid Arraes

Na última semana, a grande mídia tem dado atenção especial ao caso de Jandira Magdalena dos Santos, 27 anos, que engravidou e buscou uma clínica clandestina para realizar um aborto. Jandira, que antes do procedimento pediu oração por meio de uma mensagem, foi mais uma mulher que não se encaixou no estereótipo esperado por quem criminaliza as mulheres que abortam. Mas, por causa da omissão do Estado e do punitivismo da sociedade brasileira, provavelmente acabou morta, carbonizada – e talvez a parte mais chocante do acontecido seja o fato de que muitas pessoas aplaudem esse fim.

Mensagem enviada por Jandira para ex-marido momentos antes do procedimento clandestino / Foto: Reprodução
Mensagem enviada por Jandira para ex-marido momentos antes do procedimento clandestino / Foto: Reprodução

Uma das aterrorizantes facetas desse caso é que Jandira fazia parte de uma parcela com condição financeira para pagar um procedimento abortivo, mesmo em um local perigoso e clandestino. No Brasil, muitas mulheres não possuem centenas de reais necessários para encerrar a gestação quando aperta o desespero. É por isso que tantas acabam recorrendo a métodos arriscados, como a utilização de objetos pontiagudos e cortantes, alvejantes e drogas falsificadas. A maioria, assim como Jandira, passa por dores inimagináveis e sangra até a morte. E assim são jogadas nas valas do descaso e da misoginia, que toma da mulher sua autonomia e impõe condutas morais sem opção de escolha.

O caso de Jandira é uma espécie de termômetro da sociedade brasileira e uma revelação voraz da incapacidade empática de muitos. Quem acha que Jandira mereceu morrer demonstra total ausência de compaixão, compreensão e solidariedade com o próximo. Além de tudo, essas pessoas ignoram o fato de que muitas mulheres realizam abortos clandestinos no Brasil, incluindo aquelas que são suas familiares, amigas ou conhecidas, com a diferença de que tiveram a sorte de sobreviver para esconder a história. Afinal, o silêncio impera e subjuga, tanto para impedir o pedido de socorro quanto para mortificar a necessidade de acolhimento.

O fato é que a criminalização do aborto não faz sentido para as milhares de mulheres que realizam o procedimento todos os anos. O aborto precisa ser legalizado e regulamentado, com período limite de até quando pode ser feito, e o governo precisa oferecer acompanhamento psicológico às mulheres que consideram encerrar a gestação – tudo isso com o devido suporte do SUS, pois o aborto deve ser gratuito e acessível a todas. Nos diversos países que já adotaram essas medidas, podem ser observados ótimos resultados, pois nenhuma mulher morre mais na clandestinidade – e até mesmo os números de aborto reduziram, já que a legalização vem acompanhada por um sistema de prevenção mais eficiente, além de maior respeito para deixar que cada mulher faça sua decisão. O Uruguai, vizinho latino-americano, é um ótimo exemplo do que a regulamentação do aborto pode fazer por todas as mulheres de um país.

No entanto, o Brasil ainda segue um regime genocida, que parece não se importar minimamente com o problema generalizado de sofrimento e mortalidade feminina. Mesmo nos casos já legalizados, ou seja, nas gestações causadas por estupro, quando o feto é anencéfalo ou quando há risco de morte para a gestante, as mulheres encontram dificuldades absurdas na hora de realizar o aborto. A situação é tão deplorável que o Ministério da Saúde se recusa a informar quais são os hospitais que realizam o procedimento – o que já é intrinsecamente errado, pois todos deveriam realizar. Tudo isso sem mencionar a importantíssima portaria 415/14, revogada seguindo preceitos religiosos que jamais deveriam ser envolvidos com a política.

Em ano de eleição, são poucos os candidatos com coragem para defender a vida das mulheres. Os principais candidatos e candidatas se recusam a olhar para o assunto sob uma ótica política e humanista, pois preferem se vender aos setores conservadores. Ao fazerem isso, compactuam com as milhares de mortes terríveis de mulheres que, como Jandira, se encontram completamente desamparadas pelo Estado. O sangue dessas mulheres também está nas mãos dos presidenciáveis, assim como nas mãos de todos que comemoram a brutalidade do aborto clandestino.

Foto de capa: Reprodução



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4 comments

  1. Filhadovento Responder

    O tema é ABORTO ou JULGAMENTO? Pessoal, pelas postagens que li até agora, são todas elas feitas por pessoa instruídas, informadas, inteligentes, mas com uma única preocupação: Julgar certo ou errado a atitude da Jandira. Parem e pensem: vai adiantar discutir a atitude dessa moça? Ela fez a escolha dela e vai prestar contas daquilo que decidiu fazer, ELA e não vocês.
    A discussão é sadia? Sim, quanto ao ponto em que nos serve de elucidações e certas informações, mas não cabe aqui ofensas, puxões de orelha tão somente porque não comungamos das mesmas opiniões, pq pensamos de maneira diferente, pq temos religiões diferentes.
    O aborto e sua legalização é questão muito delicada, são algumas pessoas que precisam deliberar sobre a vontade de milhões de pessoas. É muito complicado e bem difícil que alguém, algum político, principalmente em época de eleições, vá “dar a cara a tapa”, vá se posicionar, e isso todos sabemos.
    Brigamos tanto por LIBERDADE, deixemos que cada um faça e pense do seu jeito. Se essa moça, a Jandira, que mesmo tendo informação, dinheiro, resolveu se arriscar, foi ela que escolheu, ela deveria ter consciência dos riscos que estava correndo, mas o que ninguém pode saber ao certo é quais as razões que a levaram a isso? quais os sofrimentos da alma dessa moça a levaram a tomar essa decisão, então basta.
    Se quisermos dar a nossa opinião, se quisermos mostrar nosso ponto de vista quanto ao assunto ABORTO, façamos, é sadio, interessante e informativo, mas na minha opinião, julgamentos não cabem aqui e muito menos ofensas e opressões.

  2. Eduardo Responder

    Não existe aborto seguro… em 100% dos casos, o bebê acaba morto (e eventualmente a mãe pode morrer junto)

  3. Lilian Responder

    Quando as pessoas vão entender que no início o que existe é um zigoto/embrião/feto em formação, não um “bebê ou criança formada e consciente”, é um projeto, uma possibilidade de vida apenas, não é vida completa e já estabelecida, por aí já demonstram ignorância no assunto. Lamento pela morte dessa mulher e de tantas outras que por omissão,negligência e descaso do estado que se diz laico mas não é, pois quem parece comandar esse país são bancadas religiosas, que ditam as regras de uma ditadura religiosa, conservadora e medieval para as mulheres e há seus direitos de reprodução, mulheres tem morrido aos montes, e ninguém faz nada para evitar ou diminuir isso, políticos omissos(que não querem perder votos se calam diante do óbvio) e religiosos (que pensam que mandam em úteros alheios,sqn, pois o aborto continua clandestino e tirando vidas) que são contra a legalização do aborto, são culpados por essas mortes, não é dando as costas ao problema e sendo negligentes que ele deixará de existir, pelo contrário, continuará acontecendo desde sempre, como sempre existiu no mundo, é negar o óbvio, a diferença, é que amanhã, poderá ser sua filha, sua irmã, sua mulher ou sua mãe a estar passando por isso, é bom refletir sobre isso. O país é retrógrado, com pessoas mesquinhas e sádicas, que adoram ver o sofrimento alheio, e gravidez indesejada como punição para mulher que julgam como sendo depravadas e devassas, muitas são casadas e pobres, as ricas abortam com segurança e ficam numa boa, já as pobres…e tem gente que ainda diz que elas são fábricas de marginais, por ter filhos sem as mínimas condições, quando muitas delas querem evitar ou não querem tê-los. A lei é contraditória como muitos que são contra, pois se permitem aborto nos casos já previstos em lei, pq que é que um embrião concebido de uma falha em método não pode ser abortado se a mulher não o deseja, ele é especial e diferente dos demais? Não! Mas isso é só para servir de castigo e punição para essa mulher e servir de exemplo para outras manter as pernas fechadas, já que ela consentiu um ato, mas teve o azar do método falhar, ou por um descuido engravidar, aí depois se perguntam pq tantos bebês, são jogados nos lixos, rios, calçadas, matas e caçambas. Se a mulher não quer ou tem condições emocionais e financeiras, não mudará de ideia, ou vai abortar ou terá e irá abandonar na primeira oportunidade, portanto não se iludam os que são contra a legalização achando que darão para adoção para elas serem julgadas, ou forçadas a desistirem da ideia, enfrentando olhares atravessados e condenáveis de reprovação dos hipócritas. Encarem os fatos, adotem todas as crianças abandonadas nas ruas e abrigos, levem para suas casas, ou ajudem os pais que mesmo sem condições ficaram com elas, ajudem financeiramente com seis,sete salários mínimos a criá-las com dignidade, até saírem da universidade, pq o resto é hipocrisia, falácias e conversas para boi dormir, de gente boa e bem intecionada o inferno está cheio. É triste ver como a mulher nesse país é tratada como coisa, objeto, mercadoria, cidadã de segunda classe, sem poder ter autonomia, já que o estado o faz por ela e a pune, pq entende que é ela é fraca e incapaz de tomar suas próprias decisões, acertadas, sobre o rumo e o destino que quer ou pode dar na vida em uma situação dessas. É triste e lamentável ver pessoas julgarem, e querendo ensinar como é que outros devem viver suas vidas, mas o difícil para eles é viver suas próprias vidas vazias e deixarem os outros viverem as suas da maneira que acharem melhor, cada um deveria cuidar de sua própria vida e lembrar que o livre arbítrio foi dado a todos, sem escolha de sexo, cor, credo ou religião.

  4. Lilian Responder

    Quando as pessoas vão entender que no início da gestação o que existe é um zigoto/embrião/feto em formação, não um “bebê ou criança formada e consciente”, é um projeto, uma possibilidade de vida apenas, não é vida completa e já estabelecida, por aí já demonstram ignorância no assunto. Lamento pela morte dessa mulher e de tantas outras que por omissão,negligência e descaso do estado que se diz laico mas não é, pois quem parece comandar esse país são bancadas religiosas, que ditam as regras de uma ditadura religiosa, conservadora e medieval para as mulheres e há seus direitos de reprodução, mulheres tem morrido aos montes, e ninguém faz nada para evitar ou diminuir isso, políticos omissos(que não querem perder votos se calam diante do óbvio) e religiosos (que pensam que mandam em úteros alheios,sqn, pois o aborto continua clandestino e tirando vidas) que são contra a legalização do aborto, são culpados por essas mortes, não é dando as costas ao problema e sendo negligentes que ele deixará de existir, pelo contrário, continuará acontecendo desde sempre, como sempre existiu no mundo, é negar o óbvio, a diferença, é que amanhã, poderá ser sua filha, sua irmã, sua mulher ou sua mãe a estar passando por isso, é bom refletir sobre isso. O país é retrógrado, com pessoas mesquinhas e sádicas, que adoram ver o sofrimento alheio, e gravidez indesejada como punição para mulher que julgam como sendo depravadas e devassas, muitas são casadas e pobres, as ricas abortam com segurança e ficam numa boa, já as pobres…e tem gente que ainda diz que elas são fábricas de marginais, por terem muitos filhos sem as mínimas condições, quando muitas delas querem evitar ou não querem tê-los. A lei é contraditória como muitos que são contra, pois se permitem aborto nos casos já previstos em lei, pq que é que um embrião concebido de uma falha em método não pode ser abortado se a mulher não o deseja, ele é especial e diferente dos demais? Não! Mas isso é só para servir de castigo e punição para essa mulher e servir de exemplo para outras manter as pernas fechadas, já que ela consentiu um ato, mas teve o azar do método falhar, ou por um descuido engravidar, aí depois se perguntam pq tantos bebês, são jogados nos lixos, rios, calçadas, matas e caçambas. Se a mulher não quer ou tem condições emocionais e financeiras, não mudará de ideia, ou vai abortar (pq se sente hospedeira de um parasita que está se desenvolvendo dentro dela contra sua vontade, sugando seus nutrientes para se desenvolver, portanto ainda não se sente mãe, não tem instinto maternal) ou levará até o final, já que não tem alternativas, terá e irá abandonar(se livrar) na primeira oportunidade, portanto não se iludam os que são contra a legalização achando que elas darão para adoção como manda o figurino, pois elas temem serem julgadas, e serão mesmo com a boa ação, ou forçadas a desistirem da ideia, quando já estão céticas da decisão, e ainda enfrentarão olhares atravessados e condenáveis de reprovação dos hipócritas,pois é assim desde sempre, sempre sobra para mulher, e sempre o pior jogam nas costas delas enquanto os pais ficam ausentes ou se quer são lembrados e condenados nesses casos. Encarem os fatos, adotem todas as crianças abandonadas nas ruas e abrigos, levem para suas casas, ou ajudem os pais que mesmo sem condições ficaram com elas, ajudem financeiramente com seis ou sete salários mínimos a criá-las com dignidade, até saírem formadas da universidade, pq o resto é hipocrisia, falácias e conversas para boi dormir, de gente boa e bem intencionada o inferno está cheio. É triste ver como a mulher nesse país é tratada como coisa, objeto, mercadoria, cidadã de segunda classe, sem poder ter autonomia, já que o estado o faz por ela e a pune, pq entende que é ela é fraca e incapaz de tomar suas próprias decisões, acertadas, sobre o rumo e o destino que quer ou pode dar na vida em uma situação dessas. Resquícios do machismo patriarcal e medieval, que não cabe mais nos dias atuais, outra coisa retrógrada é o estatuto do nascituro, aquele projeto é uma armadilha para mulheres leigas e ignorantes, além de violação dos direitos femininos conquistados até hoje, não pode vingar e é um grande retrocesso para a vida das mulheres.Enfim, é triste e lamentável ver pessoas julgarem, e querendo ensinar como é que outros devem viver suas vidas, mas o difícil para eles é viver suas próprias vidas vazias e deixarem os outros viverem as suas da maneira que acharem melhor, cada um deveria cuidar de sua própria vida e lembrar que o livre arbítrio foi dado a todos, sem escolha de sexo, cor, credo ou religião e cada um deve fazer uso do seu, da maneira que achar correto, sem interferir, ditar ou querer controlar a vida de terceiros. Afinal isso é uma democracia ou uma ditadura, onde alguns impõe suas vontades sobre as dos outros como verdade absoluta e regras a serem seguidas as cegas, sem questionamentos ou sem decisão própria, como marionetes, que tipo de sociedade é essa que não respeita o direito de liberdade de escolha dos outros, sobretudo da mulher, quando decisões tomadas pelas mesmas, não afetarão em nada em suas vidas? Temos muito que refletir e evoluir ainda, liberdade de escolha é um direito que todas as mulheres brasileiras deveriam ter, muitas pensam que tem, que são independentes, que tem autonomia sobre suas vidas, que são livres, mas não é bem assim, e é nessas horas, e nessas questões que muitas veem que não tem. Meu corpo minhas regras, e fim de papo.