Malucos de Estrada: quem são esses “hippies” brasileiros?

Documentário filmado em 19 estados do Brasil mostra a cultura da “malucada”, onde o que importa é ser livre

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Documentário filmado em 19 estados do Brasil mostra a cultura da “malucada”, onde o que importa é ser livre

Por Adriana Delorenzo | Fotos: Divulgação

Malucos de estrada

Um pano, artesanato, a pé, de bike, de carona, não importa como. Quando chegam a uma cidade é para a “pedra de maluco” que eles vão. Assim é chamado o local onde os “hippies” expõem seus trabalhos feitos com arame, cerâmica, sementes, cascas, penas, madeira, entre outros materiais.

Embora conhecidos como hippies, não é assim que eles se reconhecem. “Desfolclorizar” esse “hippie” brasileiro é o que faz o documentário “Malucos de Estrada”. “O maluco é um canibal cultural, um antropófago. Seu caminhar, sua rota o define. As culturas com as quais têm contato, as diferentes pessoas que atravessam seu caminho, as geografias que ele percorre, tudo isso cria um ser único, paradoxal e multifacetado”, explica o diretor do filme Rafael Lage, do coletivo Beleza da Margem.

Os depoimentos do documentário revelam quem são e o que é a “cultura da malucada”. Há relatos de quem tinha casa, família, estudo, e saiu para o mundo, com a cara e a coragem. “Ser maluco é traçar uma rota e ir.” “Quando você fica livre, você vê como é oprimido”. “A gente vive num mundo onde tudo é podado, não somos livres.” Estas são algumas frases que indicam o que querem ao levar uma vida nômade, sem casa e trabalho tradicional.

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“Importante dizer, o maluco é um ser, mas é também um estar. Você pode ter vivências na maluquês, sem necessariamente ter isso como uma identidade definidora. Já alguns se definem dessa forma. Mas não é a pessoa que vai dizer ‘eu sou maluco’, quem diz isso são as suas atitudes no dia a dia, elas falam por você. E aí surge essa expressão tão comum no universo da malucada, que é a ‘atitude de maluco’”, completa Lage.

Para filmar o documentário, foram percorridos 19 estados em cinco anos e feitas aproximadamente 300 entrevistas. O projeto foi possível graças a uma campanha de financiamento colaborativo, que arrecadou cerca de 65 mil reais de 2.072 pessoas, de 26 estados do país. “O documentário nunca teve roteiro, foi um processo de pesquisa e auto-antropologia sobre o movimento. A pé, de bicicleta, carro, barco e avião, câmera na mão, um bom microfone e um desejo profundo de trazer à tona algo que nunca havia sido percebido pela massa da sociedade. É uma bomba semiótica”, diz Lage.

Repressão em BH: onde tudo começou
As filmagens começaram mais como uma arma do que com a expectativa de se tornar um documentário. Segundo Lage, de 2009 a 2012, o foco era o midiativismo. O objetivo era denunciar a atuação dos fiscais da prefeitura de Belo Horizonte e da Polícia Militar do estado de Minas Gerais. “Nesta época, era comum que as operações da prefeitura acabassem com a apreensão de bens pessoais (como mochilas, barracas de camping, roupas e material de higiene), além dos artesanatos e ferramentas dos artesãos. Quando o artesão acusava o furto institucionalizado, era preso por desacato. Perante o juiz, era a palavra de um artesão contra a de policiais e fiscais, que quase sempre combinavam suas versões inverídicas sobre os fatos”, relata Lage.

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Após acompanhar 18 operações da prefeitura, ele fez um documentário, onde reúne “flagrantes cenas de ilegalidade dos agentes públicos”.  O vídeo foi entregue ao Ministério Público. “Foram realizadas três audiências públicas sobre o tema e o MP abriu um inquérito e em parceria com a Defensoria Pública de Minas Gerais, processamos a prefeitura de Belo Horizonte com uma ação civil pública. Em 2012, a justiça de Minas Gerais, proferiu uma liminar que garantiu o direito de livre expressão nas ruas da cidade e ordenou a devolução de todos os artesanatos apreendidos.”

Além de mostrar a cultura, o filme dialoga com os problemas enfrentados por quem busca essa forma de vida, como a repressão que os artesãos da Praça Sete, em BH, sofreram. “Com o tempo, percebemos que não bastava denunciar a violência do Estado, pois ela, em sua raiz, era fruto do preconceito e do enorme desconhecimento da sociedade sobre quem são estas pessoas.  Então tínhamos também de mostrar a cultura, trazer à tona a realidade desse universo cultural e foi assim que surgiu a trilogia Malucos de Estrada”, conclui Lage.

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