Pussy Riot: Ninguém tira a liberdade de ninguém, nem na porrada

Leia entrevista com duas ativistas da banda que ficaram conhecidas por passar dois anos numa prisão russa após apresentação de música punk em uma igreja ortodoxa

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“Fomos forçadas a trabalhar mais de dez horas por dia, algumas vezes por 16 horas, e podíamos dormir três ou quatro. Tiraram parte da nossa dignidade, mas não da nossa liberdade, que sempre conservamos em nossos pensamentos e nas mínimas ações. Ninguém tira a liberdade de ninguém, nem na porrada.”

Rebeldes com causa*

Orgia em museu? Apresentação de música punk com letras sacrílegas em igreja ortodoxa russa? Dois anos na prisão por hooliganismo? Espancamento por policiais durante as Olimpíadas de inverno em Sóchi? Aparição no seriado americano House of Cards?

(Reprodução)
Nadezhda Tolokonnikova (Nadya): A situação é sufocante, muitos jovens perdem a vida como Eric Garner (Reprodução)

Este é o Pussy Riot, grupo que não perde a oportunidade de arrumar uma confusão. Formado em 2011 por jovens ativistas de Moscou, dentre elas Nadezhda Tolokonnikova (Nadya) e Maria Alyokhinae (Masha), o grupo ficou conhecido por suas performances espontâneas e provocadoras, por suas intervenções urbanas que chocam, questionam e muitas vezes diretamente desrespeitam valores e costumes aceitos como tradicionais na Rússia. Após sua intervenção na Catedral de Cristo Salvador (Moscou), em 2012, e a gravação do vídeo “Mother of god, Drive Putin away”, Nadya e Masha foram presas por dois anos por hooliganismo.

A partir da liberação das duas, o grupo saiu do anonimato para se tornar ícone da rebeldia e da arte politicamente engajada. O presidente russo, Vladmir Putin, teve que se manifestar logo antes do julgamento de ambas, já que estrelas internacionais saíram em defesa das moças. Madonna, Paul McCarteny e Hilary Clinton, dentre outros, celebraram a coragem e as provocações da banda. Boa parte dos russos, contudo, parece não concordar com suas táticas. Estudos recentes demonstram que apenas 6% da população tem simpatia pelo grupo.  Em contraste com a opinião pública russa, a recente aparição de Nadya e Masha no seriado House of Cards colaborou para elevar as russas ao status de celebridades nos Estados Unidos. Apesar da coragem política e intelectual, Nadya parece tímida, fala baixo, e Masha é mais brincalhona. Foi depois da apresentação do novo vídeo “I can’t breathe” e de um debate na Universidade da Pensilvânia, diante de uma multidão de jovens, que me encontrei com elas e com o marido de Nadya, Pyotr Verzilov, participante do grupo de performance e arte Voina do qual as integrantes do Pussy Riot faziam parte. Verzilov serviu como tradutor para a seguinte entrevista:

Vocês acabam de lançar o vídeo “I can’t breath”, que é metafórico, mais aberto a interpretações do que os seus trabalhos anteriores que eram diretos, agressivos, crus. O grupo ainda está interessado na estética punk?

Masha – Está. O Punk é o que a gente quer que ele seja. Estamos vivas ainda, é um pouco chato pensar que deveríamos parar em um estilo de música. Por isso vamos incorporar elementos de outros gêneros.

Nadya – Você não deveria esperar uma aula de nós. Através do Punk comunicamos uma situação que é quase de supressão… quando você fala da brutalidade da polícia, quando você fala sobre morte, quando você vivencia coisas assim, é fácil ser punk …

Qual a mensagem central do vídeo?

Reprodução/WikedMike
Masha: Faz sentido falarmos de Eric Garner (Reprodução/WikedMike)

Masha  – Em primeiro lugar, foi a primeira vez que usamos uma câmera tão cara…  (risos) Gravávamos performances que não tinham necessariamente um script, eram mais improvisadas. Quando chegamos para gravar e falamos nossas ideias para o diretor, ele logo disse: “pegue seu dinheiro e vá embora”, porque ele não concordava com as ideias. Parecia um pouco exagerado para ele…    mas acabamos acertando, e foi uma experiência nova, essa coisa de se preocupar com os detalhes durante a gravação…  O vídeo novo é feito em um longo “take”, ao invés de dezenas deles, como em vídeos anteriores. É bastante interessante também porque comunica o nosso sofrimento físico, a nossa asfixia, como a de Eric Garner.

Pode explicar melhor como vocês entendem a relação entre a morte de Eric Garner (recentemente morto por asfixia em Nova Iorque em uma abordagem policial) e a situação atual na Rússia? Com o novo interesse por eventos fora da Rússia, os seus objetivos políticos mudaram?

Nadya – A performance na Igreja trata de questões universais, como os direitos da mulher, a liberdade de expressão, a aliança corrupta entre Igreja e Estado. O vídeo “I can’t breath” trata de temas mais específicos, junta preocupações com a brutalidade policial na Rússia com elementos dessa mesma brutalidade presentes nos Estados Unidos. O maço de cigarros logo no início do vídeo faz referência à Primavera Russa, o fenômeno ideológico e de propaganda criado pelo governo russo para tentar legitimar as atrocidades cometidas na Ucrânia. Além disso, o vídeo sugere também o conflito entre raças nos Estados Unidos, no encerramento com os dizeres de Eric Garner, “não posso respirar, não posso respirar”…      A dificuldade ou impossibilidade de se respirar é também uma metáfora para a atmosfera política na Rússia de hoje. A dissensão política se sente esmagada, asfixiada.

Masha – Para ser honesta, não sou muito boa para manter um foco só. Em Dezembro viemos para Nova Iorque para gravar músicas contra a guerra na Ucrânia, mas então quando a gente percebeu já estávamos envolvidas com os protestos contra a morte de Eric Garner. E aqueles eventos nos contagiaram, e o fato que decidimos abordar questões que não tem diretamente nada a ver com o nosso país foi influência daquelas participações. A brutalidade da polícia… saímos da prisão, quando se tenta entender como expressar uma situação como essa, fez sentido para nós falarmos de Eric Garner…

Vocês foram presas após a performance “Putin will teach you to love the Motherland”  na Catedral de Cristo Salvador. Como foi o tratamento que tiveram na prisão? Alguma lição tirada deste período?

Masha – Fomos forçadas a trabalhar mais de dez horas por dia, algumas vezes por dezesseis horas, e podíamos dormir 3 ou 4. Tiraram parte da nossa dignidade, mas não da nossa liberdade, que sempre conservamos em nossos pensamentos e nas mínimas ações. Ninguém tira a liberdade de ninguém, nem na porrada.

Qual o estado do ativismo político na Rússia?

Nadya – Estamos preocupadas com a crescente profissionalização da política na Europa e nos Estados Unidos. Não queremos que a política seja apenas problema daqueles que elegemos. Deveríamos nos preocupar com eventos diários que impactam nossas vidas…

Masha- …sem dúvida, quando fazemos isso coisas incríveis se tornam realidade. Por que nos sentimos conectados com aquilo que nos rodeia e envolvidos na transformação da nossa realidade. Exatamente por isso que decidimos tratar de eventos que se passaram nos Estados Unidos, por que nos envolvemos com eles. Queremos contagiar outros jovens na Rússia a se engajarem mais politicamente. Usamos uma estética mais pop para alcançarmos um público ainda maior, para que a gente possa tocar mais gente. Será triste se nossa época não oferecer mensagens novas e mudanças como as dos anos 60, 70…

Como vocês acham que os russos vão receber o vídeo novo?

Masha – O vídeo é menos direto do que os outros…  talvez melhor, não sei…

Nadya – A situação é sufocante, muitos jovens perdem suas vidas, assim como Eric Garner perdeu a sua. É dificílimo de comunicar a sensação terrível de se abrir o jornal e perceber que outro líder político de oposição foi assassinado, e que seu corpo está jogado em uma ponte logo ao lado de onde você mora. Claro que vão haver flores, palavras de revolta e indignação, mas ainda assim nenhuma mudança real, nenhuma revolução. E a única coisa que podemos fazer é gritar mais alto sobre coisas que não deveriam acontecer. A vida humana não tem preço.

As ações do Pussy Riot em 2012 foram todas feitas com balaclavas, e portanto anonimamente. Vocês se tornaram celebridades e decidiram não usar mais as máscaras. Desta forma a identidade de vocês e o estrelato fazem parte da equação. Vocês se preocupam com a perda de controle da imagem que projetam? Como é lidar com o estrelato?

Masha – O Pussy Riot tocou grandes massas ao redor do mundo. Somos artistas e queremos que nosso trabalho se espalhe em todas as direções, mesmo naquelas que não necessariamente queremos ou gostamos. Houve uma onda de propaganda do Estado Russo em 2012 para comunicar que o Pussy Riot era contra as liberdades civis dos russos. Uma piada…

Nadya – As balaclavas começaram por razões meio estúpidas, éramos parte do grupo de performance e arte Voina, e queríamos fazer algo diferente, sem que as pessoas nos associassem ao antigo grupo, então foi muito ruim quando nos pegaram e retiraram nossas máscaras e disseram: “Ah, são vocês novamente!” (risos)

Por que o desejo de visitar instituições de elite, como a Universidade da Pennsylvania nos Estados Unidos, e de comunicar suas mensagens através de instituições tradicionais, e não mais de forma independente? É possível que essa nova postura diminua a força subversiva de suas mensagens?

Nadya – Queremos espalhar nossas ideias e motivar outras pessoas, instigar e provocar novos grupos para que possa agir politicamente. Por que não nas universidades?

O Pussy Riot usa música e performances para tratar de temas políticos. Qual a plataforma política de vocês?

Masha – No momento, forte oposição ao conservadorismo de Putin. Voz para aqueles que não a tem, para todos que não participam ou compactuam com o conservadorismo dele…

E depois de Putin, se é que já pensam nisso?

Masha – O povo russo está parcialmente com Putin, mas não acredito nos números que falam em aprovação de 80%. Isso é propaganda. Já tive oportunidade de falar com muitas pessoas, pessoas ditas conservadoras, e elas não estão felizes. Muitas pessoas não tem informação suficiente para julgar de forma mais objetiva o que Putin tem feito. Por isso criamos uma ONG para informar, para defender os direitos de ativistas presos, e também para evitar abusos nas prisões russas. Depois de Putin? Oposição a qualquer forma de poder ilegítima, sempre. O poder deve sempre se justificar e demonstrar que é necessário.

O que o Pussy Riot teria a dizer para ativistas e para aqueles que estão indignados em outras partes do mundo?

Masha – Se organizem e protestem. Gritem alto até que sejam ouvidos.

Nadya – Sem dúvida.

O que as interessa artística e intelectualmente hoje?

Masha – Spike Jones, feministas americanas, boa música e arte de todas as partes. Prestamos bastante atenção no que é produzido nos Estados Unidos.

O que guiará o trabalho de vocês de agora em diante? Quais serão as novas preocupações políticas e estéticas?

Nadya – A sinceridade. Temos que continuar acreditando e agindo sinceramente. Se você sente que há uma situação quando você deve reagir, se opor, então deve fazer isso, não importando as consequências…

Masha – (Silêncio)

Não há nehuma contradição ou conflito entre a sinceridade do ativista e a inventividade e a performance do artista, normalmente associada com “fingimento”?

Nadya – Não, nenhuma. É preciso ser sincero.

*Entrevista previamente publicada no jornal Folha de São Paulo.

Foto capa: Divulgação House Of Cards/Netflix



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