Opinião: Viada e subversiva, Michel Foucault ainda incomoda muita gente

De acordo com a Fundação São Paulo, os estudos do filósofo “não coadunam com os valores da igreja”, o que justificaria a não criação da Cátedra com seu nome na PUC-SP

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De acordo com a Fundação São Paulo, os estudos do filósofo “não coadunam com os valores da igreja”, o que justificaria a não criação da Cátedra com seu nome na PUC-SP

Por Marcelo Hailer*

Foi com alegria quando, em 2011, recebemos a notícia da parceria entre o Collège de France e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde a instituição brasileira seria a primeira do mundo a receber cópias dos áudios dos 13 cursos que o filósofo Michel Foucault ministrou na instituição francesa. Como contrapartida, uma Cátedra Michel Foucault seria criada. Fato importantíssimo, visto que a PUC-SP seria a primeira instituição do mundo a disponibilizar para pesquisa os cursos do filósofo.

Porém, foi com espanto que recebemos a notícia de que o Conselho Superior da Fundação São Paulo, mantenedora da PUC, recusou a criação da Cátedra Michel Foucault no início deste ano. O fato se tornou público na última reunião do Conselho Universitário (Consun). A censura e intervenção contra a criação da Cátedra foi deliberada pelo Conselho Superior, órgão máximo constituído pela reitora Ana Cintra, bispos da Arquidiocese de São Paulo e o cardeal dom Odilo Scherer.

De acordo com relatos, a censura se deu por que os pensamentos do filósofo “não coadunam com os valores da igreja”. O que espanta é que o Conselho Superior tenha levado mais de 40 anos pra descobrir isso, visto que a PUC-SP é internacionalmente conhecida pelos vários estudos e grupos de pesquisa ligados à sua obra. Portanto, a censura do Conselho se dá por dois motivos: 1) Moral: Michel Foucault era homossexual, crítico da igreja e foi uma das primeiras pessoas públicas a morrer de aids na França; 2) Político: apesar da PUC ser uma referência em estudos foucaultianos, a universidade não tinha um ligamento oficial com o filósofo, a partir do momento em que a Cátedra fosse criada, a instituição passaria a ser visitada por pesquisadores do Brasil e da América Latina por conta dos áudios de seus cursos.

Também não é possível ignorar o momento político em que o Brasil está mergulhado. Desde que os grupos de direita resolveram ir pra rua foi estabelecida uma agenda (que não é nova) de estigmatização não apenas de grupos políticos, mas também de epistemologias historicamente ligadas ao pensamento de esquerda. Ora, e Michel Foucault foi um militante da esquerda francesa, obras como Vigiar e Punir, Anormais e os três volumes da História da Sexualidade são análises críticas aos dispositivos de controle e vigilância das instituições conservadoras e claro, entre elas (principalmente), a Igreja Católica e o seu papel na disseminação de conceitos patologizantes contra os sujeitos “demoníacos” e “perigosos”, entenda-se comunistas, bichas, aborteiras, feministas… O seu pensamento ainda é uma arma política que incomoda, assim como os estudos de Karl Marx são, também, motivo de perseguição das instituições conservadoras.

É dentro deste contexto que devemos compreender a censura à Cátedra Michel Foucault, pois apenas o fator ideológico é que explica uma sandice desta envergadura contra a universidade, que já sofre com evasão de alunos e que vai contra toda a história da PUC-SP, berço de movimentos, pensadores e ativistas políticos do campo progressista do Brasil.

Escândalo internacional

Trata-se de um escândalo e vergonha internacional. Segundo o professor Márcio Alves da Fonseca, em declaração ao jornal O Estado de São Paulo, os áudios, que foram doados em 2011 pelo Collège de France e teve intermediação do Consulado-Geral da França, à época foi pedido que a universidade criasse uma Cátedra Michel Foucault como forma de contrapartida, com a censura do Conselho Superior, existe o risco de que estes áudios tenham que voltar a Paris, o que seria uma perda acadêmica inestimável.

Esta atitude não deixa de ser irônica. É impressionante o poder político e o incômodo que os estudos de Foucault exercem aos setores religiosos e conservadores. E é aí que reside a ironia deste triste fato: que hoje ele, mesmo depois de morto, seja vítima daquilo que mais denunciou a sua vida inteira: os dispositivos disciplinares perpetrados por instituições, tais como as escolas e igrejas, que não tem outra meta senão formatar sujeitos e rasurar o pensamento crítico.

Pode ser que, ao ter em suas mãos o poder de censurar Michel Foucault, o Conselho Superior tenha resolvido se “vingar” do filósofo e ,assim, além de eliminar a Cátedra, acabaram também com a autonomia acadêmica da PUC-SP e a transformaram em símbolo de vitória para aqueles que hoje pedem o retorno de 1964 e a eliminação dos “vermelhos”. Este fato só nos reforça a certeza da importância e atualidade dos estudos de Michel Foucault.

PS: ao término deste texto somos brindados com a informação de que o deputado estadual, Coronel Telhada (PSDB-SP), assumiu a Comissão de Direitos Humanos da ALESP. Tá bom pra você?

*Marcelo Hailer é doutorando em Ciência Sociais (PUC-SP) e membro do Núcleo Inanna de Pesquisa Interdisciplinar de Sexualidades, Gênero e Diferenças (NIP-PUC-SP)

Foto: Thierry Ehrmann/Flickr



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