Aline Valek: “A literatura é nossa também”

Escritora e ilustradora feminista, Aline Valek é a editora da coletânea Universo Desconstruído, além de ser responsável por diversos projetos independentes. Em entrevista à Fórum, ela fala de sua experiência como escritora e sobre como as mulheres devem reivindicar seu espaço na literatura

1511 0

Escritora e ilustradora feminista, Aline Valek é a editora da coletânea Universo Desconstruído, além de ser responsável por diversos projetos independentes. Em entrevista à Fórum, ela fala de sua experiência como escritora e sobre como as mulheres devem reivindicar seu espaço na literatura

Por Jarid Arraes

A escritora e ilustradora Aline Valek é uma feminista que escreve textos certeiros, desses que são compartilhados freneticamente pelas redes. Seja em seu FAQ Feminista ou em sua carta aberta ao mundo – onde declara que “é dessas”, que defende a legalização do aborto e que acredita na defesa dos Direitos Humanos -, ela consegue conversar de maneira íntima e acessível com quem a lê.  E não é difícil reconhecer seu impacto; sua newsletter semanal, intitulada “Bobagens Imperdíveis”, já ultrapassou a marca de dois mil assinantes.

Aline Valek (Imagem: Marcos Felipe / Reprodução - Twitter)
Aline Valek (Imagem: Marcos Felipe / Reprodução – Twitter)

Mas embora Valek seja referência e inspiração para muitas mulheres que escrevem e querem desenvolver projetos independentes, a verdade é que ser uma escritora como ela não é uma atividade fácil. A Flip que o diga; a edição deste ano será, mais uma vez, uma feira literária com apenas oito escritoras convidadas. A maioria ainda é composta por homens e as desculpas para essa grande desigualdade se tornam cada vez mais estapafúrdias. Sejam leitores, editores ou autores, ninguém quer admitir que tem muito machismo por trás do mercado literário.

Por isso escritoras como Aline Valek fazem tanta diferença. Além dos textos que escreve para seu blog, para o site da Carta Capital e para sua newsletter, ela é co-autora e editora da coletânea Universo Desconstruído, um selo de ficção científica feminista. Também colabora com diversos outros projetos, como a publicação traduzida do primeiro conto de ficção científica feminista, ainda de 1905, escrito pela indiana Roquia Sakhawat Hussain, traduzido pela escritora feminista Lady Sybylla e editado e ilustrado por Aline Valek. Além disso, tem eBooks publicados e disponíveis para download em seu site, onde é possível conhecer muito mais sobre seu trabalho.

Se isso ainda não é suficiente para despertar interesse pelo que Aline Valek vem produzindo, vale a pena ler a entrevista que ela concedeu à Fórum, onde fala de suas percepções sobre o mundo literário, sua experiência como escritora e o que gênero tem a ver com tudo isso. Confira:

Fórum – O que te motivou a escrever e ilustrar?

​Aline Valek – Acho que nunca contei dessa forma, mas nunca pensei “ah, vou ser escritora um dia”. Eu jurava que eu seria quadrinista. Desde criança até a adolescência, o que sabia fazer mesmo era desenhar, ficar criando personagens e desenhando minhas histórias em quadrinhos. Já contava histórias, mas não sabia disso. Eu escrevia, mas só porque precisava de diálogos e histórias para os meus desenhos. Então é engraçado, mas o que me motivou a escrever, na verdade, foi ilustrar.

Aline Valek escreveu e ilustrou o conto "Amada" para a Coletânea Amor: Pequenas Histórias (Imagem: Arquivo Pessoal)
Aline Valek escreveu e ilustrou o conto “Amada” para a Coletânea Amor: Pequenas Histórias (Imagem: Arquivo Pessoal)

Hoje, para mim, ilustrar é secundário. Talvez porque tenha descoberto que o que eu queria mesmo era contar histórias (ou talvez porque eu tenha descoberto que não desenho tão bem assim). Se perguntam o que eu faço, digo que sou escritora sem titubear, mas raramente vou dizer que ilustro – especialmente se for pra alguém que sei que desenha muito bem.

Então chega a ser irracional, para mim, o que me motivou a contar histórias. Pra quê ficar sofrendo pra contar história de gente que não existe? Eu, hein. Não faz sentido, mas cada vez mais percebo que é o que eu sei e o que eu preciso fazer.

O que me motiva a escrever é tentar entender o mundo, organizar meus pensamentos, processar o que acontece à minha volta e cuspir de volta em forma de ficção. Percebi que precisava da escrita para conseguir atravessar o mundo sem me afogar, para descobrir o meu lugar dentro dele.​

Fórum – Ser uma mulher escritora é de alguma forma diferente – ou mais difícil – do que ser um homem escritor?

Valek – Escrever é difícil, ponto. Se ser mulher escritora é mais difícil, é porque ser mulher na sociedade atual, não importa a circunstância, é mais difícil do que ser homem. Mas não acho que seja diferente. A matéria-prima da literatura está aí, acessível para todos – que é a vida. Acho até que a nossa vida, pelas dificuldades e angústias que a gente enfrenta, acaba sendo um combustível rico e diferente para a nossa escrita. É algo que acaba mais motivando e servindo a nosso favor do que impedindo completamente que sejamos escritoras.

Por mais que o mercado ainda não dê o mesmo tratamento e espaço às autoras, há público para todos os tipos de autores e todos os tipos de histórias. Acredito que a teimosia, não importa se para homens ou mulheres, seja o principal ingrediente para a pessoa que se dispõe a desbravar essa carreira.

Fórum – Você já passou por experiências ou situações, relacionados a escrita, em que se sentiu prejudicada por ser mulher?

​Valek – Talvez não tenha tido experiências o suficiente como escritora para poder dizer que me senti prejudicada pelo meu gênero.​ E certamente porque tenho vários privilégios.

Capa de "O Sonho de Sultana", ilustrada por Aline Valek (Imagem: Reprodução)
Capa de “O Sonho de Sultana”, ilustrada por Aline Valek (Imagem: Reprodução)

Nessa vida de escrever para a internet, é claro que já passei por várias situações em que recebi de leitores comentários condescendentes, como se eu não entendesse do assunto sobre o qual escrevi, ou como se eu não devesse estar escrevendo sobre aquele assunto – especialmente porque passei bastante tempo escrevendo sobre quadrinhos, uma área que os homens ainda consideram de domínio deles. Mas isso acontecia com tanta frequência que nem me irrita ou me chateia mais.​ Então talvez por isso eu não enxergue se, no campo da literatura, eu sofro o mesmo preconceito.

O fato de já ter um público formado, ter uma base de leitores que me acompanha e gosta dos meus textos e histórias, faz com que eu tenha outra percepção da minha atuação como escritora. Porque é atrair essas pessoas que me interessa, então acabo focando nos leitores que de fato querem me ler, trabalhando para mais pessoas chegarem ao meu trabalho porque de fato se identificam, em vez de tentar validar minha experiência como escritora mulher através das dificuldades, do preconceito e do ódio que o meu trabalho possa gerar.

Fórum – Existe a chamada “síndrome de impostor”, quando a pessoa se sente uma fraude naquilo que faz e tem a sensação de que a qualquer momento será descoberta e exposta como alguém que, na verdade, não sabe nada daquilo que desenvolve. No caso das escritoras mulheres, você acha que isso é algo que também tem a ver com machismo?

Valek – Acho que tem muito a ver com o fato de desde cedo termos nossa autoestima minada em todos os aspectos da vida. Quando a gente recebe de todos os lados a mensagem de que não somos boas o suficiente, não importa o que a gente faça, essa sensação vai acabar surgindo em relação também a nossa escrita.

As mulheres, ao longo da história, sempre foram reprimidas em todas as suas formas de expressão. Durante a nossa vida como mulheres, também vivenciamos esse sufocamento das nossas vozes. Quantas vezes já não ouvimos que “falamos demais”? Se para a sociedade machista o ideal é a mulher calada, qualquer coisa que a gente fale vai parecer que é “demais”.

E escrita é expressão. Escrever se trata de encontrar nossa voz. Esse sentimento de que somos uma fraude, que vivencio muito no meu dia a dia também, vem da angústia de estar descobrindo minha própria voz e tendo que aprender a lidar com ela, enquanto o mundo só me ensinou a estrangulá-la. Mas a sensação de não saber o que estou fazendo é uma coisa boa, pensando bem. É o indicativo de que estou explorando um caminho novo, que ninguém me ensinou a seguir. Eu saberia o que estou fazendo se estivesse seguindo a cartilha que me deram; uma cartilha cheia de regrinhas que se resumem basicamente a impedir que eu me expresse, que eu conte minhas histórias.

Fórum – Você é uma das editoras do projeto Universo Desconstruído, que reúne contos de ficção científica feminista. Na sua perspectiva, por que ainda há poucas mulheres escrevendo ficção científica? E por que criar um projeto especificamente feminista?

Coletânea Universo Desconstruído, com capa de Tais Fantoni (Imagem: Reprodução)
Coletânea Universo Desconstruído, com capa de Tais Fantoni (Imagem: Reprodução)

Valek – Talvez as mulheres que escrevam ficção científica não sejam poucas, apenas não tenham visibilidade.​ A ficção científica, dentro da literatura, já é um gênero marginalizado, tratado como algo menor, menos sério, algo muito de nicho. Dentro de uma livraria, se você for procurar a estante da ficção científica, não vai encontrá-la em destaque, ou com uma seção toda para ela. Numa livraria gigantesca em São Paulo, já encontrei os livros de ficção científica em no máximo duas prateleiras, dentro da seção de literatura infantojuvenil. Por darem pouco espaço para a FC, apenas os clássicos acabam cabendo e, entre os clássicos, dão a prioridade para os autores homens consagrados. Porque sim, temos Asimov e Bradbury, mas também temos Octavia Butler e Ursula Le Guin! Mas as autoras acabam tendo menos alcance do que os autores, mesmo quando são autoras consagradíssimas. Mulheres escrevendo ficção científica é o que não falta; o que falta talvez seja espaço.

Com o Universo Desconstruído, quisemos mostrar não só que mulheres escrevem FC, mas que a ficção científica serve como ferramenta para questionar a sociedade atual, mesmo imaginando futuros distantes e fantásticos. O projeto ter nascido feminista veio da necessidade de usar a ficção científica para levantar questões de gênero, raça e sexualidade, de mostrar que um outro mundo é possível e de apontar para os absurdos do machismo usando a lente de aumento da literatura e da imaginação.

Fórum – Na sua opinião, o mercado literário brasileiro é machista?

​Valek – Em um mundo tão profundamente machista, qual mercado, área ou meio não vai ser machista? O mercado literário acaba refletindo o cenário de preconceito e exclusão da mulher, que pode ser visto cotidianamente fora dele.

Apesar de todas as barreiras que também estão presentes no mercado literário, como a questão de dar menos espaço para autoras mulheres, acho que ainda há uma vantagem desse trabalho em relação a outros mercados: por ser um trabalho mais solitário, acabo sendo poupada de muitas situações de opressão e preconceito que vivenciaria em um ambiente de trabalho tradicional, com outros colegas.

Fórum – O que você gostaria que outras mulheres escritoras soubessem?

Seu eBook "Hipersonia Crônica", capa de Marcos Felipe (Imagem: Arquivo Pessoal)
Seu eBook “Hipersonia Crônica”, capa de Marcos Felipe (Imagem: Arquivo Pessoal)

Valek – Quando se fala das dificuldades de ser escritora, temo que isso possa desencorajar outras mulheres a escreverem, contarem suas histórias, se assumirem escritoras. É importante que as pessoas saibam que não é fácil, que temos muitas barreiras a enfrentar, não só a do machismo, como a do racismo, da homofobia, da transfobia. Que só por sermos quem somos já temos que batalhar para pelo menos sobrevivermos em um mundo que não foi feito para nós.

Mas quero acreditar que essas barreiras não são intransponíveis. E que a literatura pode ser um meio para afirmarmos nossa existência, nossa voz e ainda uma ferramenta para que possamos no futuro construir um outro mundo fundado na igualdade.​

Acho importante que as mulheres possam se inspirar umas nas outras e tenham coragem para contar suas histórias, sejam elas reais ou inventadas, feministas ou não. Nunca nos deram nada de mão beijada; se a gente não tem espaço, a gente não espera o convite: a gente o invade. A literatura não é um meio inacessível e sagrado, ou um muro cercado com avisos de “mulher não entra”. A literatura é nossa também. Cabe a nós reivindicá-la e saber que não estamos sozinhas nesse trabalho.

Foto de capa: Arquivo Pessoal









Golpe 16 - O livro da blogosfera em defesa da democracia

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.





No artigo

Comentários