Em carta, Marilena Chaui defende Cátedra Michel Foucault na PUC-SP

"Como interpretar a proibição da instalação da Cátedra Michel Foucault senão como um gesto de censura e intolerância? E isto com relação a um pensador que lutou contra elas com todas as suas forças?", escreveu a filósofa

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“Como interpretar a proibição da instalação da Cátedra Michel Foucault senão como um gesto de censura e intolerância? E isto com relação a um pensador que lutou contra elas com todas as suas forças?”, escreveu a filósofa

Por Redação

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A filósofa Marilena Chaui, professora da Universidade de São Paulo, escreveu carta aberta ao cardeal Dom Odilo Scherer, grão-chanceler da PUC-SP, em defesa da Cátedra Michel Foucault, recusada no início do ano pelo Conselho Superior da Fundação São Paulo, mantenedora da instituição (leia mais aqui).

A PUC-SP é a primeira universidade do mundo fora da França a receber coletânea de áudios do filósofo francês, que pode ser devolvida caso a decisão do Conselho não seja revertida. A cátedra é uma instância acadêmica cujo objetivo é incentivar a discussão sobre determinado pensador ou teórico e, assim, preservar e atualizar sua obra. A resistência em torno do nome de Foucault pode estar relacionada a suas críticas à Igreja Católica, ou ao fato de ter sido homossexual e morrido por complicações causadas pelo vírus HIV.

Confira, abaixo, a íntegra da carta de Chaui:

São Paulo, 16 de junho de 2015.

Carta Aberta de Marilena Chaui ao Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer

Nos anos recentes da história brasileira, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo tornou-se um dos grandes exemplos do verdadeiro sentido da instituição universitária: recebeu em seu corpo docente professores das universidades públicas que haviam sido cassados por governos da ditadura civil-militar por suas idéias filosóficas, científicas, políticas e pedagógicas; afrontou o Estado abrigando a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), proibida por esses mesmos governos; abriu suas portas para grupos de pesquisa nas mais variadas áreas do saber, sem jamais questionar os princípios teóricos e práticos que os orientavam; defendeu seus estudantes quando, em luta pela democracia, foram violentamente agredidos pelas forças policiais; recebeu movimentos sociais e populares de lutas por direitos, integrando a universidade às aspirações sociais e políticas dos excluídos e espoliados; ampliou suas publicações sem nunca exigir dos autores credenciais confessionais, mas exclusivamente a qualidade acadêmica de seus trabalhos, no mesmo espírito com que instituiu intercâmbios nacionais e internacionais com universidades públicas e centros de pesquisa. Em suma, a PUC de São Paulo, fundada na tolerância intelectual, social e política, assegurou para o Brasil o espírito da universidade como instituição social livre e autônoma, ou seja, como uma ação fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, centrada num princípio de diferenciação que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela, isto é, pela idéia do conhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão, portanto, inseparável das idéias de formação, reflexão, criação e crítica.

Se recordo as posições academicamente impecáveis, socialmente comprometidas com a justiça e politicamente corajosas que definiram a PUC de São Paulo é porque, entre perplexa e espantada, tive a notícia de uma posição tomada pela direção da universidade que nega sua história, aqui brevemente relatada. De fato, como interpretar a proibição da instalação da Cátedra Michel Foucault senão como um gesto de censura e intolerância? E isto com relação a um pensador que lutou contra elas com todas as suas forças? Não deu ele provas disso não apenas em sua obra, mas também em suas viagens ao Brasil durante a ditadura para apoiar todos os movimentos, universitários ou não, de resistência ao terror de Estado?

Alegou-se divergência de pensamento. Ora, desde quando filosofia e ciência se definem pela unanimidade e pelo consenso? Entre os grandes pensadores do Século XX, Michel Foucault pautou-se, em sua vida e em seu pensamento, pela ousadia de conceber o novo, polemizando contra a inércia e a auto-satisfação das idéias recebidas e repetidas, divergindo dos saberes instituídos e combatendo normas, regras e valores por eles sustentadas. Universidades e centros de pesquisa do mundo inteiro proibiram sua atividade como professor, seus trabalhos de pesquisa e suas publicações por que divergentes, polêmicas, inovadoras? Foi ele submetido ao vigiar e punir? Pelo contrário, foi e é reconhecido em toda parte como um dos maiores pensadores do Século XX, cuja herança percorrerá a filosofia, as ciências humanas, a ética e a política durante o Século XXI porque sua obra, como toda obra que é grande, ao pensar, dá a pensar, ao dizer, dá a dizer, fazendo-nos pensar e dizer o quem sem ela não poderíamos pensar nem dizer. Divergir de Foucault? Ninguém mais do que ele aplaudiria a divergência e a consideraria bem vinda, momento em que um pensamento e uma ação novos, no contato recíproco e benfazejo com seus opostos, podem colher os frutos de um combate generoso e criador.

E visto que falo em divergência e generosidade, não é descabido que eu lembre a Vossa Reverendíssima o dito daquele que a Igreja reconhece como um divergente maior, Voltaire: “discordo de tudo quanto dizeis, mas defenderei até à morte vosso direito de dize-lo”.
Eppur si muove…

Atenciosamente,

Marilena Chaui
Professora do Departamento de Filosofia Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo

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