Outrofobia, um livro de horror

Em nova obra, o escritor Alex Castro conta as histórias de opressão naturalizadas em nossa sociedade e convida o leitor a um exercício de empatia: "Podemos ser maiores que nossas caixinhas"

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Em nova obra, o escritor Alex Castro conta as histórias de opressão naturalizadas em nossa sociedade e convida o leitor a um exercício de empatia: “Podemos ser maiores que nossas caixinhas”

Por Anna Beatriz Anjos

(Divulgação)
(Divulgação)

“Outrofobia é um livro de horror”. É assim que o escritor Alex Castro descreve sua mais recente obra (para comprar, clique aqui), lançada no começo deste mês pela editora Publisher. Para ele, a arte engajada tem justamente a função de “tornar contagioso” esse horror. “Vivo em um mundo onde as cenas cotidianas que mais me enchem de horror são vistas com normalidade por quase todas as pessoas à minha volta. A exploração, a desigualdade, o racismo, a transfobia. Tudo aceitável e dentro dos padrões do bom funcionamento da sociedade”, explica.

É para isso que Alex quer chamar a atenção em Outrofobia: a naturalização das diversas formas de opressão – e as configurações diversas que formam entre si, quando incidentes – que permeiam as estruturas da sociedade brasileira. A compilação de textos – originalmente publicados em sites dos quais Castro foi colaborador ou em seu próprio blog – tenta provocar o leitor a sair do lugar-comum e sentir empatia pelos demais.

Alex Castro falou com a Fórum sobre seu novo livro e alguns temas por ele abordados. Confira:

Fórum – Os textos de Outrofobia são bastante diretos e construídos a partir de uma linguagem simples. Acha que essa é uma maneira de provocar reflexão nos leitores e ajudá-los a contestar sua lógica discriminatória?

Alex Castro – Trabalhei como professor por 18 anos. Quando ensinamos, temos que ser simples ou diretos, ou arriscamos uma multiplicação de mal-entendidos. A melhor coisa de escrever para internet é o feedback imediato das pessoas leitoras quando se escreve algo que dá abertura a mal-entendidos. Então, aos poucos, a gente vai afinando a escrita.

Fórum – Ao final do livro, há um recado a professoras e professores. Sua intenção é que a obra seja utilizada, de alguma forma, nas salas de aula?

Castro – Quase todos os textos desse livro, individualmente, já foram ou são utilizados em salas de aula por professores e professoras em todo Brasil. Minha intenção foi justamente juntar os meus textos políticos mais didáticos em um só volume, para facilitar o acesso e para também permitir uma maior polinização cruzada entre eles.

Fórum – As formas de opressão, além de contarem com mecanismos extremamente sofisticados, são naturalizadas em nossa sociedade. Acredita que todos nós, brasileiros, de certa forma somos, em algum sentido, outrofóbicos?

Castro – Sim. Já “sabemos” que ser homossexual é pecado, que pessoas negras têm “cabelo ruim”, que mulheres foram feitas para a maternidade, muito antes de sentirmos em nós mesmas os primeiros desejos homossexuais ou de termos qualquer noção de nossa identidade negra ou feminina.

Então, nada mais natural do que existirem pessoas negras “racistas”, homossexuais “homofóbicas”, mulheres “machistas”: elas não são bugs do sistema, mas sim features. Quando uma pessoa escuta por toda a sua vida que o seu “cabelo é ruim”, nada mais compreensível que ela acredite e nada mais árduo do que vencer essa programação.

Somos todas hospedeiras da cultura outrofóbica. Trazemos dentro de nós todos os xingamentos homofóbicos, todas as piadas racistas, todos os lugares-comuns machistas (Por isso também ninguém está livre, nem mesmo a mais politizada militante, de escorregar e deixar escapar uma atitude ou fala outrofóbica).

Mas, se não temos escolha de sermos hospedeiras da cultura outrofóbica, temos escolha, sim, de sermos vetores.

A escolha de passar adiante esses horrores do passado é só nossa.

A homofobia é um conceito abstrato. Ela não tem existência concreta. O que existe são pessoas que contam piadas homofóbicas.

E eu posso escolher não ser uma delas.

Fórum – Um dos seus textos discute a relação entre os homens e o feminismo. Você é um homem que trata desse assunto. Na sua avaliação, qual o papel masculino – e seus limites – em relação ao movimento?

Castro – Penso, converso e escuto muito sobre o papel do homem dentro do feminismo. Sobre como podemos nos engajar. Sobre como participar do movimento sem tentar dominá-lo ou colonizá-lo. Sobre saber ouvir as queixas e críticas das mulheres sem cairmos em uma posição defensiva. Sobre como ser parceiro sem ser paternalista ou protagonista.

O feminismo é uma luta de homens e mulheres, por direitos humanos para homens e mulheres que, por razões políticas, deve ser liderada pelas mulheres.

Os homens, que já foram líderes de quase tudo na história humana, precisam agora aprender a dar um passinho atrás.

As mulheres são seres humanos 100% capazes e qualquer homem que se diga pró-feminista já deveria saber disso: elas conseguem liderar essa luta sozinhas.

Nosso papel, como homens pró-feministas, é estar lá, ao lado delas, mas nunca à frente. Sem protagonismos.

Em minha ação como homem pró-feminista, eu busco falar de feminismo para homens (não cabe a um homem “ensinar” feminismo às mulheres), trazer o feminismo para espaços masculinos (como o site PapodeHomem, onde publiquei a maioria dos meus textos feministas) e, acho que é o mais importante, me posicionar no mundo como um homem pró-feminista, dando assim o exemplo aos outros homens.

Fórum – No texto “O assunto não é você”, você se admite outrofóbico. Acha que esse é um primeiro passo para iniciar a desconstrução de nossos preconceitos e aumentar nosso grau de empatia em relação a quem nos cerca? 

Castro – Sim. Somos todas hospedeiras da Outrofobia, mas não precisamos ser vetores.

Nós, as pessoas privilegiadas, devemos reconhecer nossa outrofobia e nosso privilégio, que são duas faces da mesma moeda, não para nos envergonhar de um ou se gabar de outro, mas porque só assim podem assumir sua responsabilidade de ajudar as não-privilegiadas. Só assim podem começar a compensar a sociedade por tudo o que receberam em excesso. Só assim podem começar a abrir mão de alguns privilégios em prol de quem tem menos.

Nós, as pessoas privilegiadas, não somos (necessariamente) as vilãs, as inimigas, as culpadas pelos crimes da nossa sociedade outrofóbica, machista, racista, elitista, homofóbica, transfóbica, intolerante.

Mas significa que, como beneficiárias desses crimes, temos a responsibilidade de ajudar. De me tornar parte da solução e não do problema.

Podemos ser maiores que nossas caixinhas.

Fórum – Para você, qual é o conceito de literatura engajada? Com seus textos, o que busca, exatamente?

Castro – Em larga medida, ser conservador é viver em um mundo que funciona como deveria, mais ou menos alguns ajustes aqui e ali.

Já ser de esquerda é um pouco como viver em um filme de terror. Pior, quanto mais militamos, quanto mais nos conscientizamos, quanto mais enxergamos, mais horripilante se torna o filme.

Vivo em um mundo onde as cenas cotidianas que mais me enchem de horror são vistas com normalidade por quase todas as pessoas à minha volta. A exploração, a desigualdade, o racismo, a transfobia. Tudo aceitável e dentro dos padrões do bom funcionamento da sociedade.

Então, sinto que estou sempre escrevendo textos de horror.

Talvez essa seja a melhor definição de arte engajada: tornar contagioso o horror.

Outrofobia é um livro de horror.

(Foto de capa: Claudia Regina)


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