A radiografia sociopolítica do paulistano

Mais progressista em relação às liberdades individuais e direitos civis, mais conservador no que diz respeito aos aspectos coletivos: esse é o perfil do cidadão que habita a maior metrópole do país, segundo pesquisa desenvolvida pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São...

666 0

Mais progressista em relação às liberdades individuais e direitos civis, mais conservador no que diz respeito aos aspectos coletivos: esse é o perfil do cidadão que habita a maior metrópole do país, segundo pesquisa desenvolvida pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

Por Anna Beatriz Anjos

Esta é uma matéria da Fórum Semanal. Confira o conteúdo especial da edição 206 clicando aqui

A imagem do paulistano conservador, contrário a qualquer mudança, por mínima que seja, no status quo da cidade, defensor dos valores da família heteronormativa e admirador de máximas como “bandido bom é bandido morto” ganhou o imaginário coletivo. Isso ficou mais evidente durante os últimos anos, quando o prefeito Fernando Haddad (PT) tentou empreender algumas transformações na dinâmica da capital – com a implementação dos corredores exclusivos para ônibus e ciclovias, por exemplo – e encontrou enorme resistência de alguns setores da população que, respaldados por manchetes dos veículos de comunicação tradicionais, engrossaram o coro contra o mandatário.

Mas pode-se dizer, de fato, que o reacionarismo é um traço preponderante da sociedade paulistana? Foi essa pergunta que motivou a pesquisa “Conservadorismo e Progressismo na Cidade de São Paulo”, desenvolvida pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e que será lançada em agosto. Realizado em todas as regiões da cidade durante oito dias na segunda quinzena de junho, o estudo, que levou em conta os depoimentos de 1.288 entrevistados, tem 95% de confiança e margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos.

“O que motivou [a realização da pesquisa] foi a constatação de que, desde junho de 2013, por conta das manifestações, passando pelo processo eleitoral, sobretudo no segundo turno, e culminando nos protestos de 2015, temos um clima de polarização política muito intensa no país e um reflexo disso muito forte na cidade [de São Paulo], que acabou aparecendo como uma espécie de epicentro dessa polarização”, explica o economista William Nozaki, coordenador do levantamento, para quem o objetivo da iniciativa era tirar uma radiografia sociopolítica do paulistano. “A pergunta inicial que fizemos foi: será que vivemos um momento de surgimento de um novo conservadorismo ou será que é um período de explicitação de um velho conservadorismo já entranhado na sociedade brasileira e em São Paulo?”.

O questionário apresentado às pessoas ouvidas continha mais de 60 perguntas, elaboradas conforme quatro grandes eixos: visão de mundo e estilo de vida, relação com as diferenças e com o outro, construção de direitos e privilégios e avaliação de políticas públicas. Segundo Nozaki, a formulação das questões considerou principalmente assuntos polêmicos ou fortemente influenciados pelo senso comum.

(Mídia NINJA)
O levantamento da FESPSP foi desenvolvido a partir da constatação que, desde junho de 2013, uma intensa polarização política vem se instalando no Brasil – e São Paulo parece ser o epicentro desse processo (Mídia NINJA)

Uma das respostas que a equipe responsável pela pesquisa já chegou, embora algumas informações obtidas ainda estejam sendo interpretadas, é que não se pode afirmar que o cidadão que habita a maior metrópole do Brasil é conservador em relação a todos os temas – ou então que a totalidade deles o é. “Para algumas questões, o paulistano é menos conservador do que achamos que ele é”, pontua o economista. “Há um conjunto de opiniões mais progressistas no que diz respeito às liberdades individuais e aos direitos civis e um grau de conservadorismo muito extremo quando partimos para a análise das políticas que tratam de igualdade de oportunidades sociais.”

Números ilustram a situação descrita pelo pesquisador. Em tópicos relacionados às liberdades do indivíduo, o paulistano se mostra mais propenso à aceitação de ideias liberais. Exemplos: 70% dos entrevistados concordam com o casamento entre pessoas do mesmo sexo; 54% assimilam outras configurações de família que não a chamada “tradicional”; 80% sinalizam respeito às diferentes expressões religiosas, 92% acham que os salários pagos a homens e mulheres devem ser equivalentes e 52% são favoráveis à legalização da maconha – uma pequena maioria, mas que não deixa de ser expressiva. Em contrapartida, 62,3% apoiam a redução da maioridade penal, 61,4% são a favor do uso do exército no combate à criminalidade e 42% afirmam que os Direitos Humanos têm como objetivo a defesa de bandidos.

Na análise do sociólogo Rodrigo Estramanho de Almeida, também pesquisador e professor da FESPSP, a individualidade detectada pelo estudo é, de certa forma, normal às grandes metrópoles. “Não é difícil pensar que em uma cidade onde convivem tantas diferenças e desigualdades a opinião em algum momento aclive para questões mais individuais. Aliás, a questão do individualismo em grandes cidades não é exclusiva a São Paulo; individualismo e grandes cidades são termos que se combinam”, considera. “Sem contar que a dinâmica das atitudes e dos comportamentos das grandes cidades está em constante mudança, então provavelmente um estudo como esse realizado daqui a um ano pode revelar um aspecto diferente desse que aí está. É uma foto do momento.”

De acordo com Nozaki, os dados mostram, ainda, que nas periferias o progressismo em relação a direitos civis é maior na comparação às regiões centrais. “Há uma aceitação das liberdades individuais maior do que a gente imagina nas camadas de menor renda da população. Isso provavelmente tem a ver com o fato de que a população da periferia tem que lidar com diversas estratégias de sobrevivência e articulação com a comunidade e vizinhança, com o Estado e com a igreja para poder organizar sua trajetória de vida. Não há uma narrativa progressista ou conservadora sólida, coerente e engessada”, argumenta.

O cenário descrito indica um caldo complexo de opiniões e ideias que nem sempre permite estabelecer relação simples e direta entre maneiras de pensar e posicionamento no espectro político. “A gente não consegue fazer uma associação direta entre ser conservador e ser de direita e ser progressista e ser de esquerda. Há um conservadorismo popular, assim como há um progressismo em parcela da elite. A nossa pesquisa foi sobre cultura política, não sobre comportamento ideológico propriamente, mas mostra que essas coisas não podem ser tratadas como sinônimos sem maiores qualificações. É um cenário mais complexo, que precisa ser olhado com mais minúcia”, esclarece o pesquisador.

Meritocracia e ascensão social

O levantamento realizado pela FESPSP revela também que há, difundido na sociedade paulistana, independente de renda, um desejo de ascensão social por meio de mérito. Mais uma vez, é possível comprovar com dados o apontamento: mais da metade das pessoas ouvidas, 52%, disseram que a política de cotas raciais nas universidades reforça a discriminação. Quando o assunto são programas de ajuda do Estado, o cenário é igual: 53% entendem que o Bolsa Família estimula que pessoas de baixa renda tenham mais filhos, e 60,5% acreditam que ele deixa os beneficiados mais preguiçosos.

Segundo a pesquisa, a crença de que o esforço individual é suficiente para se alcançar sucesso profissional e financeiro se acentua à medida em que cresce a renda. “Nas camadas médias, o nível de conservadorismo vai ficando maior. O discurso fica mais racionalizado, mais coerente, de defesa do indivíduo e do mercado e de crítica ao Estado e às relações comunitárias”, expõe William Nozaki. Os resultados que abrangem os recortes de classe estão sendo consolidados pela equipe da FESPSP.

A pesquisa aponta que dos entrevistados são a favor da legalização da maconha (Foto: Mídia NINJA)
A pesquisa aponta que 52% dos entrevistados são a favor da legalização da maconha (Foto: Mídia NINJA)

O economista sublinha que, nas parcelas menos favorecidas economicamente da população paulistana, ainda está presente a ideia de que o Estado é necessário na garantia de alguns direitos. “Há uma espécie de liberalismo ‘à paulista’: o desejo de ascensão social pelo mérito, por meio dos mecanismos formais de educação e trabalho, que anda acompanhado, sobretudo entre as camadas populares, de uma demanda pela presença do Estado”, afirma. “Isso reflete um pouco da nossa trajetória histórica. Assim como no século XIX a gente teve um liberalismo que andava de mãos dadas com a escravidão, no século XXI temos uma meritocracia que anda junto com uma demanda por serviços estatais.”

O estudo chegou a outra informação que deve ser destacada, relacionada à percepção dos paulistanos sobre o regime político vigente no Brasil: 30% dos entrevistados declararam que, dependendo da conjuntura, a ditadura é preferível à democracia. “Não é maioria, mas é um número expressivo: um terço praticamente da população. Isso mostra que, ainda que a democracia esteja consolidada do ponto de vista institucional, do ponto de vista da cultura política ela não é um valor enraizado em toda a população”, observa Nozaki.

A ideia dos pesquisadores é que, depois de lançado, o levantamento não se difunda apenas no meio acadêmico, mas seja examinado inclusive por autoridades. “Ele pode servir, de fato, para o gestor público pensar maneiras de agir, caminhos, e de alguma maneira tentar compreender como pensa o paulistano. Não se pode tomar decisões somente a partir desses dados, mas eles podem ajudar a pensar modos de agir. Há um caldo importante de informações [na pesquisa]”, coloca Rodrigo Estramanho de Almeida.


Você ganha descontos em livros e produtos do programa Sócio Fórum.




Você ganha descontos em livros e produtos do programa Sócio Fórum e recebe a cada 3 meses um livro das Edições Fórum na sua casa.




Você ganha descontos em livros e produtos do programa Sócio Fórum, recebe a cada 3 meses um livro das Edições Fórum na sua casa e ganha 1 caneca personalizada da Fórum após 6 meses.




Você ganha descontos em livros e produtos do programa Sócio Fórum, recebe a cada 3 meses um livro das Edições Fórum na sua casa, ganha 1 caneca personalizada da Fórum após 6 meses e 1 camiseta personalizada após 1 ano.





Golpe 16 - O livro da blogosfera em defesa da democracia

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.





No artigo

Comentários