Coreia do Norte: a bravata como instrumento de ação política

Um confronto real não parece ser o objetivo do regime, muito embora as incertezas sobre o comando do país possam levar o atual processo a um desfecho imprevisível. Porém, o governo de Pyongyang parece estar decidido a seguir utilizando a bravata como instrumento de...

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Um confronto real não parece ser o objetivo do regime, muito embora as incertezas sobre o comando do país possam levar o atual processo a um desfecho imprevisível. Porém, o governo de Pyongyang parece estar decidido a seguir utilizando a bravata como instrumento de ação política, ainda que essa prática coloque em risco a vida de seu próprio povo

Por Vinicius Wu

Tratado com grande alarde pela mídia internacional, o suposto teste com bomba de hidrogênio realizado pela Coreia do Norte repete o roteiro já empregado pelo regime de Pyongyang em outras ocasiões. Do ponto de vista político, portanto, não há nenhuma grande novidade no movimento realizado na última terça-feira. Há anos o governo norte-coreano utiliza seu programa nuclear como instrumento de legitimação interna e de pressão por auxílio internacional.

A tensão na península coreana tem servido como uma espécie de combustível para o regime liderado por Kim Jong Un. Seus movimentos são sempre marcados pela verborragia inicial de seus líderes, sucedida por reiterados recuos sempre que alcançam acordos favoráveis à manutenção do status quo na região.

Episódio semelhante ao que assistimos agora havia ocorrido em 2013. Na ocasião, o líder norte-coreano prometeu rasgar o armistício de 1953 entre as duas Coreias e iniciar uma “guerra nuclear preventiva” (sic) contra os EUA e a Coreia do Sul.

Em 2002, após George W. Bush incluir o país entre os membros do “eixo do mal” – expressão criada pelo então presidente dos EUA – Pyongyang já havia anunciado que “varreria da terra sem piedade seus agressores”. Não parece que tenham levado a termo o anúncio.

Não se sabe ao certo se os norte-coreanos passaram a dominar a altamente complexa técnica de produção da bomba H. Menos ainda se possuem tecnologia suficiente para utilizá-la militarmente. Mas, ainda que o tenham feito, há bons motivos para acreditarmos que os dirigentes norte-coreanos não optaram por uma espécie de suicídio coletivo.

Pyongyang vem demonstrando alguma habilidade ao jogar com as tensões decorrentes da presença militar norte-americana na Ásia. Os dirigentes norte-coreanos têm consciência de seu posicionamento estratégico.

A APEC, Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Asia-Pacific Economic Cooperation – na versão em inglês), fórum que reúne as economias da região do Pacífico e é responsável por aproximadamente 40% da população, cerca de 54% do produto interno bruto (PIB) e aproximadamente 44% do comércio de todo o mundo. Não é à toa que os EUA vêm realizando sucessivos exercícios militares na região nos últimos anos e reforçando sua cooperação militar com seus aliados, como a Coreia do Sul.

Da mesma forma, os interesses da China na região, que não aceita a ideia de ter os EUA margeando suas fronteiras no caso da derrubada da dinastia norte-coreana, é um fator que os líderes militares norte-coreanos manipulam muito habilmente. Pyongyang, por sinal, vem dando recados à China e esse parece ser mais um deles. Ocorre que, até agora, Kim Jong Un sequer se encontrou com o atual presidente chinês, Xi Jinping, que assumiu em 2013 – e que num gesto bastante simbólico esteve a visitar a Coreia do Sul no ano de 2014.

O colapso da Coreia do Norte e um eventual deslocamento em massa de gente faminta em direção à grande potência asiática é outro risco que Beijing não pretende correr. Assim, Kim Jong Un segue os passos de seu pai, Kim Jong Il, com uma relativa convicção de que não será atacado.

Outro aspecto a ser considerado é a política interna. A Coreia do Norte possui um dos regimes mais militarizados que a história contemporânea conhece. Uma dinastia militarista que utiliza seu aparato bélico para sustentar o controle irrestrito sobre a população do país. Songun é como chamam a política estabelecida por Kim Jong Il, que tem como fundamento a prioridade aos interesses militares. Através dela perpetuam uma estrutura de poder capaz de debelar qualquer indício de desestabilização política interna.

Portanto, engana-se quem acredita que os movimentos de Kim Jong Un têm a ver com algum tipo de combate ideológico frente ao Ocidente e o capitalismo. É puro pragmatismo. É o uso da bravata na construção de suas políticas interna e externa.

O regime norte-coreano, por sinal, advoga a superação do marxismo pelo Juche, uma espécie de doutrina teológica que reserva ao grande “presidente imortal e eterno”, Kim Il Sung – avô de Kim Jong Un e fundador da Coreia do Norte – um lugar divino.

O Juche foi transformado em doutrina oficial em novembro de 1970, substituindo o marxismo-leninismo. Uma das lendas Juche bastante conhecida na Coreia do Norte afirma que uma estrela de brilho intenso e um duplo arco-íris apareceram nos céus do Monte Paekdu quando o grande líder Kim Il Sung nasceu neste que é o mais auspicioso feriado da Humanidade. Pode parecer engraçado, mas discordar ou rir da história oficial pode custar a vida de um norte-coreano comum.

Juche, em coreano, tem um significado que se aproxima de “autoestima”. Transformada em ideologia oficial, essa doutrina que, em diversos aspectos, se aproxima do corporativismo fascista, busca legitimar com apelo religioso um regime tirânico que permite a seu “líder supremo” desperdiçar milhões de dólares com seu programa nuclear enquanto camponeses passam fome no meio rural empobrecido da Coreia do Norte.

Mais uma vez, um confronto real não parece ser o objetivo do regime, muito embora as incertezas sobre o comando do país possam levar o atual processo a um desfecho imprevisível. Porém, o governo de Pyongyang parece estar decidido a seguir utilizando a bravata como instrumento de ação política, ainda que essa prática coloque em risco a vida de seu próprio povo.

Foto de capa: Reprodução/YouTube









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