Ponto de vista: Contra a solidariedade que precisamos, Jean Wyllys e a “esquerda” sionista

À frente de seu tempo, diferentemente de Jean Wyllys, o educador Paulo Freire recusou convite para participar de conferência em universidade israelense sobre “diálogo”, por entender que, diante da ocupação, parte dos interlocutores não seria ouvida

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À frente de seu tempo, diferentemente de Jean Wyllys, o educador Paulo Freire recusou convite para participar de conferência em universidade israelense sobre “diálogo”, por entender que, diante da ocupação, parte dos interlocutores não seria ouvida

Por Soraya Misleh

“Quando cidadãos em uma posição privilegiada formulam e desenham uma solução e a impõem a um povo colonizado e sob ocupação como a única solução viável e o ‘único passo construtivo restante’, isso não é solidariedade, mas sim outra forma de ocupação.” A afirmação é da palestina Budour Youssef Hassan em seu artigo intitulado “A falsa solidariedade da esquerda sionista”. O brilhante texto refere-se à realização de uma marcha em Jerusalém em 15 de julho de 2011 cujos slogans eram “luta compartilhada” e “solidariedade” contra a ocupação dos territórios palestinos – obviamente nenhuma menção ao direito legítimo de retorno dos milhares de refugiados às terras de onde vem sendo expulsos há mais de 67 anos ou sobre o racismo inclusive contra os palestinos que vivem onde hoje é Israel (criado em 1948, mediante limpeza étnica, a nakba – catástrofe palestina). Para Budour Hassan, “uma marcha palestino-sionista não oferece uma oportunidade para se estabelecer um diálogo produtivo, mas dá aos sionistas uma chance de marginalizar vozes palestinas sobre como devem resistir e o que devem aceitar”. Ela acrescenta: “Assim, essas manifestações que ostensivamente exigem igualdade, na realidade, visam manter o privilégio dos israelenses.” Por conseguinte, condenam, enfatiza Budour Hassan, “os cidadãos palestinos em Israel à inferioridade perpétua e discriminação”. A ativista conclui: “A solidariedade não é medida por números; não é sobre quantas pessoas vieram a uma manifestação pró-Palestina. Trata-se de porque essas pessoas vieram. Lutar ao lado de cinquenta israelenses realmente comprometidos com a causa palestina é, portanto, muito mais importante e valioso do que marchar na sombra de milhares de israelenses que pensam que a Palestina é apenas a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.”

Convocada por sionistas “de esquerda”, a marcha contou com algumas poucas presenças palestinas – a maioria declarara, como aponta o artigo em questão, que via em sua participação a oportunidade de obter a tão negada visibilidade na tradicional imprensa internacional. Ou seja, mesmo conscientes de que havia diferenças fundamentais e vale acrescentar – irreconciliáveis –, decidiram aproveitar uma suposta oportunidade de se fazer ver e ouvir. A despeito da atitude compreensível diante do regime de apartheid imposto cotidianamente por Israel aos palestinos, certamente um equívoco, como identifica a ativista palestina: “Essas manifestações são dominadas por sionistas liberais, e as vozes palestinas, as quais supostamente querem se fazer ouvir, são inaudíveis em meio a um coro de cânticos em língua hebraica sobre a paz e coexistência. Mesmo os slogans e os cartazes que foram levantados durante as manifestações foram decididos de antemão pelos organizadores israelenses, transformando os protestos em uma rotina entediante, dolorosamente previsível e elitista.” Em outra parte do artigo, ela revela o grande risco de que esses grupos sequestrem o crescente movimento popular de resistência sob o manto da solidariedade e da coexistência. E vai além: “A solidariedade não é nem um ato de caridade, nem um festival de discursos arrogantes e retórica vazia. É uma obrigação moral que deve ser realizada com todo o empenho, firme e incondicional. (…) As tentativas de explorar o sofrimento palestino para fins políticos e de transformar a causa palestina a partir de uma luta pelos direitos humanos, justiça, liberdade e igualdade em um desfile de independência e clichês falsos devem ser combatidas.”

A essa “solidariedade” é que tem feito coro o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), desde o início de sua viagem para participar de conferência na Universidade Hebraica de Jerusalém. Sua atitude lembra a de movimentos que seguem a lógica do que vem sendo chamado de feminismo colonial, fundamentado na falsa dicotomia Oriente-Ocidente para ditar regras de comportamentos às árabes e às muçulmanas e, portanto, em ideias que mantêm o colonialismo e servem ao imperialismo. Entre essas, as de que as ditas “ocidentais” seriam a civilização a ser levada àqueles povos atrasados. É esse pensamento que demonstra Jean Wyllys quando afirma que não poderia ir a algumas cidades palestinas ou a países árabes vizinhos porque, como homossexual, seria morto. Um discurso que destila o preconceito que ele diz combater e revela o desconhecimento que se nega a ter humildade em reconhecer.

“Pombas da paz”

Quando o deputado reproduz a ideia de um diálogo possível, em contraposição à campanha central de solidariedade ao povo palestino – um chamado amplo dessa sociedade feito em 2005 ao mundo –, ignora a realidade no terreno e a história. Com a autoridade de quem luta por justas causas democráticas, presta um desserviço à causa palestina. Confunde a fundamental solidariedade internacional, ao falar em “esquerda” sionista como possível interlocutora e trazer questionamentos à eficácia da campanha BDS.

Em primeiro lugar, é preciso entender de que interlocutor possível e esquerda Jean Wyllys fala. “Na gíria israelense local e no discurso político utilizado pelos meios de comunicação e pela comunidade acadêmica, o ‘campo da paz’ em Israel é a ‘esquerda’. Noutras partes do mundo, tal significaria necessariamente uma plataforma social-democrática ou socialista, ou pelo menos uma preocupação acentuada com os grupos social e economicamente desfavorecidos numa dada sociedade. O campo da paz em Israel tem se concentrado inteiramente nas manobras diplomáticas desde a guerra de 1973, um jogo que tem pouca relevância para um número crescente de grupos”, ensina o historiador israelense Ilan Pappe em “História da Palestina moderna”.

Em resenha sobre a publicação “Falsos profetas da paz”, de Tikva Honig-Parnass, o Ijan (Rede Internacional de Judeus Antissionistas) demonstra que historicamente a “esquerda” sionista esteve tão alinhada com o projeto de colonização da Palestina quanto a direita. “Como esse livro mostra, desde antes da fundação do Estado de Israel, a esquerda sionista falou demasiadas vezes a língua do universalismo, enquanto ajudava a criar e manter sistemas jurídicos, governos e o aparato militar que permitiram a colonização de terras palestinas.”

A raiz dessa esquerda está no chamado “sionismo trabalhista”, constituído ao início da colonização, em fins do século XIX e início do XX. Seus membros reivindicavam a aspiração de princípios socialistas e cultivaram, como informa o texto do Ijan, deliberadamente essa falsa ideia. Os diários dos trabalhistas à época demonstram seu intuito não declarado: assegurar a “transferência” dos habitantes nativos (árabes não judeus em sua maioria) para fora de suas terras e a imigração de judeus vindos da Europa para colonizar a Palestina – um eufemismo para limpeza étnica. “Em um de seus momentos mais francos, David Ben Gurion, principal liderança desse grupo e chefe do movimento operário sionista (que se tornaria primeiro-ministro de Israel em 1948), confessou em 1922 que ‘a única grande preocupação que domina nosso pensamento e atividade é a conquista da terra, através da imigração em massa (aliá). Todo o resto é apenas uma fraseologia’.” O artigo cita ainda outra observação de Honig-Parnass: “No 20º Congresso Sionista, em 1937, Ben Gurion defendeu a limpeza étnica da Palestina (…) para abrir caminho à criação de um estado judeu.”

Independentemente de se autodenominar de “esquerda”, de “centro” ou de “direita”, o sionismo visava a conquista da terra e do trabalho, que seria exclusivo a judeus. Para tanto, a central sindical israelense Histadrut – ainda existente e alicerce do estado colonial, proprietária de empresas que exploram palestinos – teve papel central, e seu fortalecimento é defendido por sionistas de “esquerda”. Em outras palavras, a diferença entre os trabalhistas e os revisionistas (como Netanyahu) é que os últimos eram – e continuam a ser – mais francos.

O único partido hoje que se autodenomina sionista de esquerda é o Meretz, criado nos anos 1990. Como ensina Ilan Pappe em “A história moderna da Palestina”, o novo grupo de “pombas pragmáticas” surgiu da fusão do “movimento de direitos civis de Shulamit Aloni, um partido liberal da linha dura chamado Shinui (‘mudança’) e o partido socialista Mapam”. O autor acrescenta: “Pragmatismo nesse caso significava uma veneração tipicamente israelita de segurança e dissuasão, não um juízo de valor sobre a paz como conceito preferido, nem simpatia pelo problema do outro lado no conflito, nem reconhecimento do seu próprio papel na criação do problema.”

A “esquerda” sionista apoiou a invasão de Israel ao Líbano em 2006 e ofensivas subsequentes em Gaza, à exceção da operação terrestre em 2014. Sua alegação é que não abrem mão do direito de “defesa” de Israel. É o que conta Honig-Parnass em artigo publicado no The Palestine Chronicle. Durante o massacre em Gaza há 1,5 ano, informa o autor, o Meretz recusou-se a participar de manifestação conjunta com árabes-palestinos contra a ofensiva e pelo fim do cerco a Gaza, porque questionava esse “direito”. Em seu artigo, Honig-Parnass cita declaração de uma liderança do Meretz, Haim Orom, a respeito: “Nossa posição é essencialmente diferente do denominador comum daqueles grupos que organizaram a manifestação: Meretz apoia a operação em Gaza. Esses grupos não aceitam o direito básico de autodefesa do Estado de Israel, o que nos apoiamos. A massiva maioria do partido votou pela operação e por uma resolução em oposição ao ato terrestre.”

Arvorando-se a favor da paz, a “esquerda” sionista tenta apagar ou justificar a nakba. Racionaliza a afirmação da natureza democrática de um estado judeu e defende a lógica de “separados, mas iguais”. Essa “solução”, de dois estados, tornou-se inviável diante da expansão contínua da colonização, cuja face mais agressiva são os assentamentos – os quais não só não cessaram durante os sucessivos governos trabalhistas (no poder inclusive em 1967, quando Israel ocupou o restante da Palestina), como foram impulsionados por eles. Parte da esquerda mundial defende essa solução, mas um número crescente tem percebido sua impossibilidade e reconhecido que é preciso lutar por um estado único, laico e democrático, com direitos iguais a todos que queiram viver em paz com os palestinos.

Hoje, pensar nessa proposta seria semelhante a legitimar o regime institucionalizado de apartheid, com um estado dividido em bantustões, sem qualquer autonomia, em menos de 20% do território histórico da Palestina. Se essa “solução” hoje está enterrada, como reconhecem especialistas no tema, desde sempre é injusta, por não contemplar a totalidade do povo palestino, mas somente os que residem na Cisjordânia e Gaza – a maioria não vive ali, mas fora de suas terras, e há ainda 1,5 milhão no que é hoje Israel, considerados cidadãos de segunda classe.

Negociações e Oslo

Defendidas e impulsionadas pela “esquerda” sionista, as inúmeras negociações fracassaram não à toa: em nenhuma, a pretensão era pôr fim à colonização de terras e assegurar justiça aos palestinos. Como escreve Waldo Mermelstein em seu artigo intitulado “Turnê de Jean Wyllys por Israel foi um desastre para a causa palestina”, a oferta generosa denominada Iniciativa de Genebra, de 2005, era de pouco mais do que “as já reduzidas propostas de Clinton e Ehud Barak em 2001. Retorno simbólico de poucos milhares de refugiados, manutenção das colônias com a permuta de territórios entre essas e as regiões em que os palestinos são majoritários nas fronteiras de 1948.”

Os acordos de Oslo firmados em 1993, mediante a rendição da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) a Israel, aprofundaram o apartheid e a ocupação. Segundo a jornalista Naomi Klein denuncia em seu livro “A doutrina do choque – a ascensão do capitalismo de desastre”, entre aquele ano e 2000, o número de colonos israelenses dobrou.

Como demonstra ela, Oslo foi um ponto de virada numa política que sempre teve na sua base a limpeza étnica dos palestinos. De 1948 até então, havia certa interdependência econômica, a qual foi interrompida. “Todos os dias, cerca de 150 mil palestinos deixavam suas casas em Gaza e na Cisjordânia para limpar as ruas e construir as estradas em Israel, ao mesmo tempo em que agricultores e comerciantes enchiam caminhões com produtos para vender em Israel e em outras partes do território”, aponta Klein na obra. Após os acordos de 1993, o estado judeu se fechou a essa mão de obra, que desafiava o projeto sionista de exclusão dessa população. Simultaneamente, Israel passou a se apresentar, nas palavras da jornalista, “como uma espécie de shopping center de tecnologias de segurança nacional”. Em seu livro, a autora afirma que, ao final de 2006, ano da invasão de Israel ao Líbano, a economia do estado sionista, baseada fortemente na exportação militar, expandiu-se vertiginosamente (8%), ao mesmo tempo em que se acentuou a desigualdade dentro da própria sociedade israelense e as taxas de pobreza nos territórios palestinos alcançaram índices alarmantes (70%).

Apartheid e a justeza do BDS

Diante de uma economia a solidificar o regime de apartheid, o contraponto veio sob a forma do chamado da sociedade civil palestina por BDS em 2005. Suas demandas são: o fim imediato da ocupação militar e colonização de terras árabes e a derrubada do muro de segregação, que vem sendo construído na Cisjordânia desde 2002 e divide terras, famílias e impede a livre circulação; a garantia de igualdade de direitos civis a todos os habitantes do território histórico da Palestina, independentemente de religião ou etnia; e o respeito ao direito de retorno dos refugiados palestinos às suas terras e propriedades.

Em diversas partes do globo a campanha de BDS tem se intensificado. Na Europa, governos como o da Noruega desinvestiram em contratos com empresas israelenses. Cidadãos comuns recusam-se a comprar produtos oriundos da potência ocupante, sindicatos e intelectuais têm se engajado nessa luta, bem como universidades têm cancelado convênios de cooperação com instituições que mantém e legitimam o regime de segregação. Netanyahu estimou a perda de bilhões de dólares com o BDS – e o Parlamento israelense aprovou uma lei que proíbe os residentes em Israel de endossá-lo e criminaliza o boicote. A eficácia da campanha tem levado sionistas a desqualificarem-na e considerá-la uma ameaça. A “esquerda” segue nessa direção. Amplamente utilizados por Jean Wyllys, argumentos como o de que o BDS visaria indivíduos e impediria o possível “diálogo” são uma forma de enfraquecer a principal ação de solidariedade internacional ao povo palestino.

O boicote acadêmico é outra linha de frente nessa luta. Entre seus adeptos estão a própria Naomi Klein e o cantor Roger Waters. Conforme escreve o ativista Omar Barghouti em “BDS – Boycott, divestment, sanctions, the global struggle for palestinian rights”, nesse sentido, o chamado palestino reivindica: cessar qualquer forma de cooperação acadêmica e cultural, colaboração ou projetos com instituições israelenses; suspender todas as formas de fundos e subsídios a essas e ‘desinvestir’ nelas; trabalhar para condenar as políticas de Israel e pressionar pela adoção de resoluções nesse sentido; apoiar instituições acadêmicas e culturais palestinas sem contrapartida em relação ao estado sionista.

Como afirmou Indra Habash em artigo de sua autoria sobre o tema, as instituições israelenses têm funcionado “como instrumento facilitador e normalizador da situação de ilegalidade das colônias israelenses, da construção do muro de separação e dos crimes cometidos contra os palestinos”. Além de se dar em uma das universidades que não foge à regra  e ainda tem parte de seu campus construído em território ocupado – como aponta carta da Frente em Defesa do Povo Palestino a Jean Wyllys (leia em http://goo.gl/ER08Uw) –, a conferência e a viagem de Jean Wyllys foram um exemplo dessa “normalização”, a partir do uso de causas democráticas justas para manter o projeto colonial.

De encontro a isso, a campanha por BDS a Israel é tarefa urgente e precisa ser elevada ao topo da lista da solidariedade internacional pela Palestina. À frente de seu tempo, diferentemente de Jean Wyllys, o educador Paulo Freire recusou convite para participar de conferência em universidade israelense sobre “diálogo”, por entender que, diante da ocupação, parte dos interlocutores não seria ouvida. A propostas de “diálogo” que ousem a paz dos cemitérios, essa é lição a ser aprendida.

Foto: Reprodução/Facebook

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