Página ‘Feminismo Sem Demagogia’ é derrubada após ataques de grupos machistas

O post que levou à derrubada parabenizava travesti que entrou na universidade essa semana; administradoras alertam para páginas falsas com o mesmo nome por Helô D’Angelo...

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O post que levou à derrubada parabenizava travesti que entrou na universidade essa semana; administradoras alertam para páginas falsas com o mesmo nome

por Helô D’Angelo

Na manhã de hoje (21), a página do Facebook ‘Feminismo Sem Demagogia’ foi derrubada, depois de denúncias em massa a uma publicação que elogiava Amanda Palha – travesti que passou em primeiro lugar na Universidade Federal de Pernambuco – e que incentivava mulheres trans e travestis a continuar estudando. A página, que reúne 975 mil curtidas, já foi alvo de outros ataques como esse: “Sempre desativamos a ‘Feminismo Sem Demagogia’ para evitar a derrubada, mas dessa vez, não conseguimos, porque fomos denunciadas por conteúdo pornográfico. Não tinha nada de pornográfico no nosso post”, coloca Verinha Kollontai, uma das administradoras da página.

Segundo ela, a página sempre sofreu ameaças de seguidores de outras páginas, como a ‘Orgulho de Ser Hetero’, todas de cunho machista e homofóbico. No ano passado, porém, a perseguição se intensificou. Em novembro, a ‘Feminismo Sem Demagogia’, assim como a página da youtuber Jout Jout foram vítimas de ataques semelhantes. Na época, o Facebook pediu desculpas apenas para Jout Jout, dizendo que “nossos times trabalham com um alto índice de precisão nas revisões, mas dado o volume de conteúdos na plataforma, mesmo que tentemos manter uma taxa de 99% de acertos, ocasionalmente cometeremos erros.”

Verinha, no entanto, questiona a moderação de conteúdos da rede social: “Como confiar? Os caras aceitaram denúncia de pornografia e nudez onde não havia. Era apenas postagens de elogios a mulher trans e travestis entrando na faculdade. O aviso que recebemos diz que vamos perder a página se, após pedirmos uma reavaliação, ela não for devolvida”. Ela desconfia da decisão do site, já que “não existe outra página de cunho feminista e marxista que seja tão grande e tão expressiva”, enquanto páginas que incitam o ódio, como a ‘Orgulho de Ser Hetero”, são muito comuns – e o Facebook frequentemente não aceita as denúncias dos internautas em posts dessas comunidades.

Além do ataque em forma de denúncias, Verinha alerta que três paginas falsas foram criadas pelos mesmos grupos, satirizando a ‘Feminismo Sem Demagogia’ com posts sobre depilação e sobre a suposta ‘falta de homem’ das feministas: “Muitas meninas procuram a gente para relatar casos de estupro. Peço que fiquem atentas a essas páginas fake, pois elas foram criadas por homens mal intencionados”. Três das cópias se chamam  “Feminismo Sem Demagogia – original”, e uma delas, “Feminismo Sem Demagogia – original 2.0”. Uma das páginas já reúne mil seguidores.

A ‘Feminismo Sem Demagogia’ existe desde 2012, e tem como objetivo compartilhar conteúdos feministas e marxistas. Desde seu início, a página foi ‘roubada’ uma vez, quando ainda tinha cerca de 80 mil seguidores: “Invadiram nosso perfil e retiraram todas as moderadoras dos cargos administrativos”, lembra Verinha. O grupo de nove moderadoras, então, recomeçou do zero e reconstruiu a ‘Feminismo Sem Demagogia’, alcançando um público ainda maior. Sobre a derrubada, Verinha lamenta: “A página da Jout Jout eles devolveram por que ela é pop, e a mídia se interessa por gente assim. Mas e nós? Uma página ideológica? Ninguém liga”.

Procurado, o Facebook não se manifestou até as 17h30.

Confira o texto que acompanhava o último post da página antes da derrubada:

“Vai ter mulher na universidade SIM!Vai ter negra periférica. Vai ter trabalhadora. Vai ter mãe solteira. Vai ter travesti. Vai ter quilombola. Vai ter sapatão. Vai ter ribeirinha. Vai ter dona de casa. Vai ter cadeirante. Vai ter sem teto. Vai ter feminista. Vai ter mulher, muita mulher. Vai ter todas as mulheres que um dia vocês disseram que nunca chegariam lá. Todas as mulheres que vocês preteriram. Todas as mulheres que vocês negaram o básico. Todas as mulheres que vocês julgaram incapazes. Todas as mulheres que vocês abusaram e exploraram. Todas as mulheres que vocês ignoraram a existência. Todas as mulheres que vocês quiseram queimar na fogueira. E a gente vai chegar junto, vai ocupar espaço, vai dominar a academia, vai tomar de assalto o que sempre nos foi negado e que é nosso por direito. E sabe porque? Porque a revolução vai ser feminista! E vocês não vão mais nos parar, o caminho é sem volta e isso é apenas o começo. Porque lugar de mulher é onde ela quiser.”









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