Tico Santa Cruz: ‘A onda conservadora está associando a esquerda à criminalidade’

Em evento realizado no Fórum Social Mundial Temático em Porto Alegre (RS), músico afirmou que conservadores são muito mais organizados do que a esquerda, que, conforme ele, não consegue o mesmo êxito devido aos conflitos internos que “neste momento devem ser deixados de lado”

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Em evento realizado no Fórum Social Mundial Temático em Porto Alegre (RS), músico afirmou que conservadores são muito mais organizados. A esquerda, de acordo com ele, não consegue o mesmo êxito devido aos conflitos internos que “neste momento devem ser deixados de lado”

Por Jaqueline Silveira, do Sul21

Jovens de diferentes sotaques e cantos do país lotaram, na noite de quarta-feira (20), uma das tendas montadas no Parque da Redenção para o Fórum Social Mundial Temático. O principal convidado da mesa “Juventudes: Resistência e Luta por Direitos e Democracia” era o líder da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, que chegou a Porto Alegre pouco antes.

Em sua manifestação aos jovens, o músico disse que seu papel é “defender, acima de tudo, a democracia.” Atuante nas redes sociais, Tico Santa Cruz afirmou que “não existe comunicação democratizada”, uma vez que 70% da mídia no país estão concentrados nas mãos dos grandes conglomerados. A internet, segundo ele, é um espaço democrático que ele utiliza para “desconstruir o discurso único.”

Na fala aos jovens, Santa Cruz defendeu que a classe artística não pode ser omissa. “O papel do artista não pode ser só o entretenimento, ele tem a responsabilidade de participar das questões sociais, das questões políticas e das questões econômicas”, opinou o músico, sob muitos aplausos. Embora tenha uma situação bem mais confortável do que a maioria da população brasileira, acrescentou ele, o artista tem de se posicionar diante dos problemas do país com o objetivo de melhorar a vida dos que mais precisam. “Somos todos sócios dessas lutas”, frisou o músico.

O diálogo com o maior número de pessoas, pregou ele, é fundamental para barrar a “reprodução do discurso único.” “Nós, aqui, a gente não pode ficar só em guetos, em espaços pequenos”, alertou o músico. O artista afirmou que seu trabalho não se resume ao palco, participando desde 2004 de atividades e palestras, por exemplo, em universidades e penitenciárias.

Para ele, o Brasil precisa de pessoas com ideias, pensadores e não que só reproduzam o discurso. “Eu não estou defendendo o governo, estou defendendo a democracia”, disse, enfatizando que a presidente Dilma Rousseff tem direito de concluir o mandato conquistado legitimamente nas ruas. Após a declaração, o músico foi interrompido pelo coro “Não vai ter golpe, vai ter luta.” “A democracia é a mais importante no momento”, prosseguiu Santa Cruz.

Os conservadores, na visão do artista, são muito mais organizados do que a esquerda, que, conforme ele, não consegue o mesmo êxito devido aos conflitos internos que “neste momento devem ser deixados de lado”. “A onda de conservadores está associando a esquerda à criminalidade, como se isso fosse verdade absoluta”, alertou o músico, que afirmou tem sido alvo de “ataques” principalmente nas redes sociais por suas posições, mas que não teme esse tipo de episódio. “Não tenho medo”, concluiu ele, pedindo que os jovens usem as redes socais para desconstruir o discurso único. Em resposta, Santa Cruz recebeu muitos aplausos e, mais uma vez, ouvir o coro: “Não vai ter golpe, vai ter luta.”

Foco na juventude negra e nas mulheres

Representante da Marcha Mundial das Mulheres, a estudante do curso de Engenharia Civil de Minas Gerais Moara Saboia também foi palestrante da mesa “Juventudes: Resistência e Luta por Direitos e Democracia.” A jovem focou sua manifestação no combate à violência contra a juventude negra e na defesa das mulheres. Ela lembrou que a cada dia 60 jovens morrem no país, vítimas da polícia e do crime organizado, e que os defensores da redução da maioridade penal “são inimigos da juventude”. Ela afirmou que é fundamental elaborar políticas públicas e oportunizar cultura aos jovens, mas, ao mesmo tempo, enfrentar “o extermínio” da juventude. Do contrário, eles não irão usufruir dessas ações porque estarão mortos ou encarcerados. “A gente tem de ter coragem para enfrentar esses desafios da juventude brasileira”, destacou a estudante. Moara pregou que é preciso “conversar com deputados e senadores” no Congresso Nacional, mas também “dialogar com os jovens na periferia.”

Em relação às mulheres, a jovem criticou as propostas conservadoras capitaneadas pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), como a proibição da pílula do dia seguinte. Também criticou o fato de as universidades ainda serem racistas e homofóbicas. “Nós, mulheres, sabemos disso”, finalizou Moara, convocando todos a resistir contra os retrocessos.

Ocupações das escolas em SP

Presidente da União Brasileira de Estudantes (UBEs), Camila Lanes também foi palestrante da mesa e abordou, principalmente, as ocupações de 223 escolas em São Paulo no ano passado, depois que o governo Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou o fechamento de várias instituições de ensino, movimento que agora está se espalhando por Goiás pelo fato de o governador Marconi Perillo (PSDB) ter tomado medida semelhante. “A gente passava uma humilhação pública, era perseguida pela polícia”, relembrou ela, sobre as ocupações em São Paulo. Os estudantes que aderiram ao movimento, afirmou a presidente da UBEs, estão sendo perseguidos pelas coordenadorias de educação e são multados em R$ 50 mil por ocuparem as escolas. “Estudante paga multa, essa é a política dos governos com os estudantes”, ironizou Camila, sobre as medidas aplicadas em São Paulo. “Que culpa temos nós se o PSDB fecha escolas”, alfinetou ela.

A representante da UBEs esclareceu que não se trata de uma questão ideológica e que se governadores de outros partidos também fecharem as escolas, os estudantes vão se unir para barrar. “Nós vamos caçar cada um, independente de ser tucano ou não”, avisou Camila. A estudante também comentou os protestos frequentes que têm ocorridos em São Paulo e organizados pelo Movimento Passe Livre, devido ao aumento da tarifa do transporte público. Um boicote, conforme a presidente da UBEs, está sendo organizado no metrô de São Paulo que consiste nos passageiros não carregarem moedas para troco, obrigando as concessionárias a baixarem a tarifa. “Levem essa ideia para vocês”, recomendou Camila, aos estudantes de municípios que também reajustaram a passagem.

Mensalidade nas universidades

Já a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, convocou os jovens para barrar o projeto do senador carioca Marcelo Crivella (PRB) que tramita no Senado e prevê a instituição de mensalidade também em universidades públicas. Na opinião dela, trata-se da privatização da educação. Hoje, segundo Carina, ainda 80% da juventude estudam em instituições privadas. Como resposta à convocação, a presidente da UNE ouviu o canto “Não pago, não deveria, educação não é mercadoria.”

“Nós, jovens, não podemos nos calar, temos o papel de resistir a essa sociedade que está aí”, completou a secretária da Juventude do PT no Rio Grande do Sul, Adriele Manjabosco, outra palestrante da mesa, em relação aos retrocessos defendidos. O ingresso de estudantes nas universidades, observou ela, registrou um avanço significativo na última década, contudo, só 17% da juventude brasileira cursam o ensino superior.

O Fórum Social Mundial temático, que começou na terça-feira (19), encerra-se no sábado (23). Ao longo desta quinta-feira (21) haverá diversas mesas (confira abaixo) com a participação de intelectuais, representantes de movimentos socais e da cultura.

Foto de capa: Guilherme Santos/Sul21









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