Para subverter o “capitalismo de compartilhamento”

Não vale a pena desistir da Internet. Continuam multiplicando-se iniciativas que, em resposta à mercantilização digital, estimulam teoria e prática da reciprocidade e do gratuito

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Não vale a pena desistir da Internet. Continuam multiplicando-se iniciativas que, em resposta à mercantilização digital, estimulam teoria e prática da reciprocidade e do gratuito

Por Rafael A.F. Zanatta, no Outras Palavras

“Compartilhar” é a palavra de ordem do capitalismo desta geração, em especial aquele forjado pelas empresas de tecnologia sediadas nos Estados Unidos após a expansão comercial da Internet – aquilo que Dan Schiller chamou de “capitalismo digital” no início da década de 2000.

O gigantesco Facebook clama por um mundo onde as pessoas “compartilhem” suas informações pessoais e emoções a todo o momento. O AirBnb pede que as pessoas “compartilhem” seus imóveis e quartos ociosos, utilizando a plataforma para tais transações. O Uber incentiva que proprietários de veículos “compartilhem” seus bens transportando aqueles que precisam de deslocamento – e podem pagar.

A narrativa contemporânea, endossada pelas empresas de consultoria e pelos fundos de investimento, nos faz pensar que a “economia do compartilhamento” é a próxima grande coisa. Por trás desse discurso, há poderosos investidores e acionistas que apostam em modelos de negócio com capacidade global de atuação. Não é por acaso que Microsoft e Goldman Sachs investiram no Facebook e Uber, enquanto que fundos de capital de risco como Founders Fund e Greylock Partners aportaram capital tanto na rede social de Mark Zuckerberg quanto no AirBnb.

A estratégia é conectar as pessoas por plataformas tecnológicas, de forma integrada a redes sociais e plataformas de perfis (Google+, LinkedIn) e fazer com que transações sejam “facilitadas” por tais empresas de modo ágil e prático para o usuário. O segredo do negócio de tais empresas é fazer com que uma população incluída no sistema financeiro (consumidores com contas bancárias e cartões de crédito) “compartilhe” seus bens.

O que há de específico no “compartilhamento” do capitalismo digital?

No ensaio The Social Logics of Sharing (2013), Nicholas John argumenta que o conceito de compartilhamento deve ser visto em três esferas distintas em nossa era da Internet. A primeira é a “Web 2.0”, cuja atividade constitutiva é o compartilhamento como ação comunicacional (por exemplo, Facebook, Twitter, Instagram). A segunda é a “esfera das relações interpessoais”, que inclui o requerimento cultural de que devemos compartilhar nossas emoções como um etos terapêutico. A terceira esfera é a das “economias do compartilhamento” de consumo e produção – novos sistemas socioeconômicos que geram ações humanas para utilização de bens ociosos, onerosa ou não, ou produção de novos bens com livre utilização de insumos, físicos ou imateriais.

Certamente, John não está falando do compartilhamento como cessão não onerosa, como compartilhar um pedaço de pizza com um conhecido ou receber uma pessoa em casa (algo potencializado por comunidades como CouchSurfing). Essa outra “economia do compartilhamento” – a das relações humanas baseadas em confiança e na gratuidade de atos por solidariedade ou integração em uma economia de reciprocidade – é distinta e precisa ser recuperada urgentemente no debate público sobre tecnologia e sociedade.

A concepção do compartilhamento como algo inerente a regimes de reciprocidade e solidariedade, algo que remonta a conceitos e insights oferecidos por Marcel Mauss (1872-1950) e Karl Polanyi (1886-1964), foi ocultada na discussão atual. Houve, de fato, uma transformação no que se entende por compartilhamento.

Existe hoje uma polarização em termos teóricos. Uma visão utilitarista e enraizada no pensamento econômico neoclássico irá conceber a economia do compartilhamento como um sistema onde “agentes racionais” se engajam em relações monetizadas de troca para uso eficiente de bens e serviços. O imperativo é o individualismo, a eficiência e a vantagem desse tipo de relação de consumo. Uma visão não utilitarista e enraizada na sócio economia pluralista irá conceber a economia do compartilhamento como um sistema onde sujeitos se engajam em relações de produção e troca em razão do pertencimento a uma comunidade e razões não mercantis (honra ou sentimento de dever). O imperativo é o engajamento, a solidariedade e uma lógica de reciprocidade.

No livro The Penguim and the Leviathan (2011), o teórico social Yochai Benkler argumenta que somos seres humanos muito complexos e não podemos ser enquadrados em modelos econômicos simplistas, que predizem comportamentos agudamente individualistas ou altruísticos. Algumas vezes, agimos por interesse próprio e racionalidade instrumental. Outras vezes, agimos por solidariedade e sentimento de dever de cooperação.

A moderação de Benkler oferece um contraponto ao discurso de bancos de investimento e dos estudos econômicos que insistem em explicar a lógica do compartilhamento por critérios de “eficiência” e “ganhos individuais”. Mais importante, o que Benkler entendeu é que a sociedade em rede pós-Internet possibilita formas inéditas de cooperação produtiva, muito em razão da possibilidade de divisão de tarefa granular, a descentralização e a desterritorialização das atividades de cooperação. Um primeiro passo para reverter o caráter crítico da “economia do compartilhamento” é retomar o seu caráter de produção. A própria redação da Wikipédia no Brasil falha ao limitá-la a uma “nova forma de consumo”.

Honrando a tradição pluralista de Polanyi, melhor seria se falássemos de economias do compartilhamento. Afinal, laboratórios de “makers” não se baseiam no compartilhamento de programações e hardwares? A Wikipédia não baseia-se na produção baseada em bens comuns, aberto a todos?

Subvertendo o discurso e a prática dominante

Engana-se quem pensa que não há alternativas ao capitalismo digital e a lógica neoliberal totalizante de apropriação do discurso do compartilhamento no “capitalismo de dados” identificado por Evgeny Morozov. Em todo o mundo, organizações e militantes estão se reunindo para contestar essa agenda e ampliar os termos do debate público sobre economia, Internet e instituições. Há alternativas. Há resistência. Há ideias.

Desde 2005, a Peer-to-Peer Foundation, fundada pelo ativista belga Michel Bauwens, tem se organizado em rede para disseminar conceitos e práticas sobre novos modos de organização econômica pautados em colaboração, autonomia e ética. Em 2012, ativistas franceses criaram a OuiShare, uma comunidade de construção de sociedades colaborativas baseadas em abertura e confiança. Em 2015, em Nova Iorque, professores da The New School lançaram a plataforma Platform Cooperativism, que busca oferecer uma alternativa à lógica de empresas como Uber ao fomentar práticas cooperativas e a apropriação da programação e desenvolvimento tecnológico pelos usuários de plataformas de “compartilhamento”.

Essas experiências, no entanto, são muito pouco comentadas e estudadas no Brasil. A universidade brasileira, que produziu um fascinante conjunto de estudos sobre “economia solidária” e “cooperativismo” no passado, parece ignorar o mundo da tecnologia e as disputas sobre o significado das “economias do compartilhamento”.

Essa situação não pode permanecer como está. É preciso discutir mais profundamente tais alternativas e disseminar com mais intensidade textos provocativos e críticos, que forçam uma reavaliação dos conceitos utilizados pela mídia mainstream e pelos veículos financiados por grandes corporações.

O que proponho no Outras Palavras é a construção de uma agenda crítica sobre o tema. Para tanto, me dedicarei a duas tarefas primordiais. A primeira é apresentar ao leitor do Outras Palavras discussões introdutórias sobre cooperativismo urbano, economias peer-to-peer e economias baseadas em bens comuns (commons). A segunda é realizar traduções dos principais textos contemporâneos sobre o assunto, escritos por ativistas e intelectuais engajados com essa agenda.

Os textos seguirão uma lógica de facilitação do acesso às fontes. Sempre que possível, ligarei as referências originais e as páginas de movimentos sociais, autores e projetos. Do mesmo modo, espero que o leitor indique materiais e se engaje na construção colaborativa de conhecimento sobre o assunto. Assim, podemos transformar essa própria coluna em uma experiência de produção colaborativa em pares, dentro de alguns limites.

É hora de subverter a economia do compartilhamento e pensar em suas várias possibilidades.

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