A proibição de Mein Kampf só interessa a neonazistas

Para Adorno, a primeira e mais importante função da Educação é impedir que Auschwitz se repita. Não é censurando a obra de Hitler que isso vai acontecer

1554 0

Para Adorno, a primeira e mais importante função da Educação é impedir que Auschwitz se repita. Não é censurando a obra de Hitler que isso vai acontecer

Por Murilo Cleto

hitler

Na sua Introdução a uma vida não-fascista, que prefacia O Anti-Édipo de Deleuze e Guattari, o filósofo Michel Foucault lista uma série de princípios para, segundo ele, uma “arte de viver contrária a todas as formas de fascismo”. “Não caia de amores pelo poder” é um deles. De acordo com Foucault, não se trata apenas de eliminar o fascismo histórico de Hitler e Mussolini, mas aquele “que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.

A preocupação de Foucault tem fundamento. De todas as doutrinas políticas forjadas pela contemporaneidade, o fascismo é a menos política de todas. Quer dizer, antes de ser político, o fascismo foi um movimento sanitário e até artístico. Em Arquitetura da Destruição, o cineasta Peter Cohen demonstra como o discurso cientificista do nazismo construiu uma narrativa que soube cruzar velhos preconceitos com novas teorias estéticas. E vez ou outra ele está às portas como solução para as mais diferentes crises que regimes politicamente liberais têm enfrentado desde o fim da Segunda Guerra. Mas não é preciso ir muito longe: o apreço pelo poder e pela “hierarquização piramidal”, como sustenta, nos faz verdadeiros fascistas em potencial. No limiar do século XX, Freud já dizia que democracias são exceção – e não regra – na história das civilizações.

No dia 29 de janeiro, o Ministério Público do Rio de Janeiro abriu uma ação cautelar que pedia a proibição do lançamento nacional Mein Kampf, obra que começou a ser escrita por Adolf Hitler enquanto esteve na prisão, antes de tornar-se o fürer que liderou um dos mais brutais genocídios de toda história. Com os 70 anos de sua morte, o título entrou em domínio público e passou a ser cobiçado pelas editoras. A decisão judicial foi favorável ao MPE-RJ e ainda estipulou multa de R$ 5 mil para quem desrespeitá-la.

Parece consenso que a intenção do MPE não é ruim. O objetivo é impedir a proliferação de ideias nazistas em pleno século XXI – uma motivação bastante plausível. E é bem por isso que a ação representa um imenso equívoco. Em primeiro lugar, porque a obra pode ser facilmente encontrada online e a plataforma nas livrarias seria só mais uma delas. Em segundo, porque a decisão abre um precedente terrível sobre outros autores frequentemente – e nem sempre com razão – associados à barbárie. Com a ascensão de uma vigilância cada vez mais acirrada em torno de uma ideia bem ruim de “ideologia”, não seria de se estranhar caso autores como Gramsci e Beauvoir também tivessem suas obras censuradas por seguidores do movimento Escola Sem Partido e afins. Em terceiro, porque a proibição não produziria outro efeito senão o aumento da procura da obra, alimentando ainda mais teorias conspiratórias revisionistas que transformam nazistas em vítimas.

Em quarto lugar, e talvez mais importante, é preciso considerar que um pressuposto nocivo circunda a experiência totalitária nazifascista do século XX: o de que ela foi uma espécie de acidente na história do mundo. E não foi. Hitler costuma ser pintado como uma figura monstruosa, louca, até esquizofrênica, para limpar a barra da humanidade neste lamentável capítulo de sua trajetória. E poucas coisas são tão nocivas para a extinção do fascismo, inclusive deste que Foucault alertou estar em todos nós, do que este isolamento, historicamente desonesto e politicamente irresponsável.

Talvez uma das cenas mais chocantes de A Queda, longa metragem alemão sobre as últimas horas de Hitler no apagar das luzes do conflito contra os Aliados, seja quando o casal Goebbels decide tirar a vida dos próprios filhos com morfina e cianureto porque eram “bons demais” para habitar um mundo com o nazismo derrotado. A sequência atordoa espectadores não por causa da frieza da mãe, que é quem os envenena, mas justamente pelo poder que aquela convicção exerceu diante de uma ação tão difícil, mesmo para supremacistas. Por essas e por outras, A Queda é um filme necessário para desconstruir a embalagem desumana com que nazistas costumam ser envoltos e apresentados aos contemporâneos.

Hitler e o nazismo estão posicionados historicamente e é desta forma que precisam ser inscritos, inclusive – e sobretudo – se se quer que sejam superados, como, ao que tudo indica, espera a justiça do Rio de Janeiro. Para Adorno, a primeira e mais importante função da Educação é impedir que Auschwitz se repita. Não é proibindo Mein Kampf que isso vai acontecer.

Foto de capa: Flickr – Diego Cavichiolli Carbone









Golpe 16 - O livro da blogosfera em defesa da democracia

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.





No artigo

Comentários

000-017   000-080   000-089   000-104   000-105   000-106   070-461   100-101   100-105  , 100-105  , 101   101-400   102-400   1V0-601   1Y0-201   1Z0-051   1Z0-060   1Z0-061   1Z0-144   1z0-434   1Z0-803   1Z0-804   1z0-808   200-101   200-120   200-125  , 200-125  , 200-310   200-355   210-060   210-065   210-260   220-801   220-802   220-901   220-902   2V0-620   2V0-621   2V0-621D   300-070   300-075   300-101   300-115   300-135   3002   300-206   300-208   300-209   300-320   350-001   350-018   350-029   350-030   350-050   350-060   350-080   352-001   400-051   400-101   400-201   500-260   640-692   640-911   640-916   642-732   642-999   700-501   70-177   70-178   70-243   70-246   70-270   70-346   70-347   70-410   70-411   70-412   70-413   70-417   70-461   70-462   70-463   70-480   70-483   70-486   70-487   70-488   70-532   70-533   70-534   70-980   74-678   810-403   9A0-385   9L0-012   9L0-066   ADM-201   AWS-SYSOPS   C_TFIN52_66   c2010-652   c2010-657   CAP   CAS-002   CCA-500   CISM   CISSP   CRISC   EX200   EX300   HP0-S42   ICBB   ICGB   ITILFND   JK0-022   JN0-102   JN0-360   LX0-103   LX0-104   M70-101   MB2-704   MB2-707   MB5-705   MB6-703   N10-006   NS0-157   NSE4   OG0-091   OG0-093   PEGACPBA71V1   PMP   PR000041   SSCP   SY0-401   VCP550   JN0-360   LX0-103   LX0-104   M70-101   MB2-704   MB2-707   MB5-705   MB6-703   N10-006   NS0-157   NSE4   OG0-091   OG0-093   PEGACPBA71V1   PMP   PR000041