Do que um blockbuster precisa para vencer o Oscar

O site El Diario analisou os critérios usados pela Academia de Hollywood nos últimos 25 anos, onde se prefere o drama à ação e o riso fácil à ficção científica. Orçamentos milionários não garantem estatuetas no Oscar Por David Sarabia. Tradução livre a partir de...

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O site El Diario analisou os critérios usados pela Academia de Hollywood nos últimos 25 anos, onde se prefere o drama à ação e o riso fácil à ficção científica. Orçamentos milionários não garantem estatuetas no Oscar

Por David Sarabia. Tradução livre a partir de El Diario

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Eles quase nunca ganham. Ainda que haja exceções: um senhor dos anéis ao longe, um gladiador que recupera as glórias do passado, um barco batizado de Titanic que afunda nas águas do Atlântico. Mas são isso, exceções. Os blockbusters em Hollywood dão dinheiro. Os membros da Academia sabem e o público também, o cheiro das pipocas não contamina o ambiente do Oscar: as superproduções preenchem as horas de ócio; mas não preenchem as vitrines com prêmios.

Não existe um ponto exato no qual podemos situar a origem do termo “blockbuster”. É uma dessas coisas que aparecem por arte da magia e que se firmam aos poucos para a posteridade. Tudo começou com Spielberg e Tubarão, com George Lucas e Star Wars, e outra vez Spielberg, que enviou Harrison Ford para buscar a arca perdida. Os filmes “pop-corns” haviam chegado para ficar. E o público seguiu os assistindo, tendo-os como seus candidatos ideais, desejando que ganhassem o Oscar de melhor filme. Ainda que isso aconteça poucas vezes. Muito poucas.

Os  últimos 25 anos não deixam dúvidas. A Academia prefere filmes que comovem. Que machucam um pouco mas logo cauterizam a ferida. São fitas dramáticas – Kramer vs. Kramer (1980), Rain man (1989),  O silêncio dos inocentes (1992),  A lista de Schindler (1994),  Gladiador (2001),  Menina de ouro (2005), e um longo etecetera -, comédias dramáticas que buscam tirar lágrimas depois de uma gargalhada – ou vice-versa. E, sim, aos  80% de membros maiores de 62 anos que formam a Academia lhes cativam as histórias de superação – Forrest Gump (1995)-, de amor – O paciente inglês (1997) – ou de amor misturado à comédia – Shakespeare apaixonado (1999).

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Kramer vs Kramer: tipo de filme “talhado” para o Oscar

Não gostam de ação. Os efeitos especiais não os convencem. O DeLorean de Doc Brown não os fascina, 007 não consegue acertar o alvo, os dinossauros de Jurassic Park não são tão ferozes quanto parecem nem a cicatriz de Harry Potter tão mágica como aparentaria. Na Academia não tem lugar para os  blockbusters. São somente alguns poucos que entram no Olimpo dos premiados a melhor filme. Um grande orçamento não garante um grande prêmio. Talvez alguma estatueta em categorias técnicas. Ou um Oscar de melhor canção ou melhor figurino. Mas nunca, quase nunca, um prêmio principal.

A Academia não se impressiona com o orçamento

Que se pergunte a George Lucas em 1978.  Star Wars: Episodio IV foi indicada para 10 categorias, incluindo melhor filme e melhor diretor. Ganhou seis prêmios, mas – adivinhem – nenhum dos principais. E esta foi a vez que a saga intergaláctica esteve mais próxima de ganhar um Oscar de melhor filme. Nos episódios V e VI,  Star Wars seguiu na descendente, ganhando duas e uma estatueta, respectivamente.

1978 foi o ano de  Annie Hall. Woody Allen contou com um orçamento de quatro milhões de dólares para dirigir uma de suas grandes obras, que acabaria arrebatando quatro Oscars.  Star Wars: Episodio IV, por sua parte, envolvia cifras próximas aos 13 milhões de dólares. Sim, ganhou prêmios. Mas o filé mignon quem levou foi Allen e Diane Keaton.

Três anos depois, Steven Spielberg viu como lhe fugiu o Oscar em detrimento de um Robert Redford que estreava na direção. George Lucas, esperando do lado de fora, produziu e co-escreveu o filme Indiana Jones, para o qual foi destinado um orçamento de 20 milhões de dólares. Pouco importou para a Academia:  Gente como a gente havia custado três vezes menos e a estatueta finalmente foi parar na estante de Redford, confirmando uma vez mais que os  blockbusters nem vencem nem convencem os acadêmicos.

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Gente como a gente: Redford derrotou Spielberg

Se falamos de orçamentos milionários, Star Trek soma mais de 621 milhões de dólares consumidos em 12 filmes. Desde 1979 foi indicado pela Academia em 15 ocasiões, mas só ganhou um Oscar de melhor maquiagem em 2010. Um caso parecido aconteceu com James Bond: 16 vezes a saga do agente 007 foi indicada a um prêmio da Academia. Em quatro ocasiões venceu, nas duas últimas há três anos com Skyfall. Outro êxito de bilheteria que também entra nesse rol é  Alien: 11 indicações desde a estreia de O oitavo passageiro (1979)  e pouco menos de 400 milhões de dólares investidos nos sete filmes da saga para ganhar… dois prêmios Oscar, ambos de caráter técnico.

Oscar 2016: quando os  blockbusters se transformaram

Nem ficção científica, nem alienígenas, nem agentes especiais vivendo aventuras como deuses. Se observarmos a lista de vencedores do Oscar, os filmes  pop-corn não comovem a Academia. E exceções como as que mencionamos no início do texto são as que confirmam a regra: O senhor dos anéisCoração Valente, Gladiador e Titanic são os que podem ser classificados como blockbusters triunfantes. Temos que esperar para ver o que Perdido em Marte vai fazer neste ano.

Além do filme de Matt Damon, Star Wars e Mad Max também estão entre os indicados em 2016. É peculiar o caso deste último. Nunca foi indicado pela Academia até este ano, que reúne 10 nomeações – melhor filme e melhor direção incluídos. E aí ocorre um paradoxo: enquanto Star Wars se diluiu na espuma dos dias, Mad Max voltou triunfante de Valhalla. Trajetórias opostas, o cheiro da decadência frente à faísca provocada pela pólvora do século XXI. Uma pólvora que inclui elementos que a sociedade demandava – e demanda – desde há muito tempo: uma visão feminista e uma ótica integradora.

Falemos sobre Mad Max. Parece que a mensagem chegou à Academia. Uma protagonista sem braço, um personagem masculino que às vezes lidera e por vezes é liderado, e várias mulheres – três modelos de Victoria’s Secret para sermos exatos – em busca de um paraíso feminista. O filme, que foi classificado pelo Washington Post como  “uma perseguição de duas horas” tem requisitos para ganhar. Mas é isso. Requisitos. Agradecem a intenção, e em Hollywood também o fazem: compete em 10 categorias, entre elas a de melhor filme.

This photo provided by Warner Bros. Pictures shows, from left, Abbey Lee as The Dag, Courtney Eaton as Cheedo the Fragile, Zoe Kravitz as Toast the Knowing, Charlize Theron as Imperator Furiosa and Riley Keough as Capable, in Warner Bros. Pictures’ and Village Roadshow Pictures’ action adventure film, “Mad Max:Fury Road," a Warner Bros. Pictures release. (Jasin Boland/Warner Bros. Pictures via AP)
Em Mad Max, as mulheres são protagonistas de fato. Filme concorre ao Oscar de melhor filme em 2016

Star Wars também tentou. Não é uma surpresa que nem sequer tenha sido indicada à categoria mãe. “A campanha publicitária já passou”, pensaram muitos, e o retorno de Mark Hamill e Carrie Fisher à saga não parece ter devolvido a glória de eras anteriores.

Mas diferentemente de George Lucas ou Irvin Keshner, J.J. Abrams deu a uma figura feminina o status de indispensável; e Rey lidera, organiza, articula, ataca, ajuda e pilota. O coadjuvante, Finn, é negro. E o papel de uma mulher líder se torna natural – “Posso correr sem que me dê a mão”, diz Rey em uma cena -, sem que o espectador se dê conta de que o diretor realizou um filme sob uma perspectiva feminista e integradora. Ainda assim, são cinco indicações para um blockbuster que não mudarão a dinâmica de anos anteriores.

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