Na Paulista, manifestantes pró-impeachment apontam dois caminhos: o do “não sei” e Bolsonaro

Entre um pato da Fiesp e uma coxinha do Ragazzo (Habib’s), manifestantes de verde e amarelo – entre eles apoiadores da intervenção militar, monarquistas e até mesmo “membros do MMDC” – não souberam dizer o que querem que aconteça após o tão aclamado impeachment. Os...

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Entre um pato da Fiesp e uma coxinha do Ragazzo (Habib’s), manifestantes de verde e amarelo – entre eles apoiadores da intervenção militar, monarquistas e até mesmo “membros do MMDC” – não souberam dizer o que querem que aconteça após o tão aclamado impeachment. Os que sabem, são unânimes: Bolsonaro

Por Ivan Longo

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O número de 450 mil manifestantes calculado pelo Datafolha não agradou àqueles que foram protestar contra o governo, a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula na tarde deste domingo (13) na avenida Paulista, em São Paulo. Quando o dado foi divulgado, o líder dos ‘Revoltados Online’, Marcello Reis, se indignou do alto do carro de som.

“O Datafolha acaba de divulgar 400 mil. Eles são petistas! Já somos em 3 milhões”, disse, enfurecido, ao que foi seguido pela massa com o coro “Folha petista”. Logo foi a vez do ator Alexandre Frota assumir o microfone de Reis para fazer um cumprimento aos “carecas de São Paulo”, em uma suposta alusão a grupos skinheads e neonazistas que estariam presentes no ato.

“Um abraço pros carecas de São Paulo! Eu não sou careca mas também estou contra o PT e a corrupção. ‘Tamo’ junto!”, disse, fazendo um sinal em formato de ‘X’ com os braços.

O Habbib's, restaurante que fez campanha para a manifestações, colocou carrinhos do Ragazzo para vender coxinhas ao longo do ato. (Foto: Ivan Longo)
O Habib’s, restaurante que fez campanha para a manifestações, colocou carrinhos do Ragazzo para vender coxinhas ao longo do ato. (Foto: Ivan Longo)

Entre gritos de “Lula cachaceiro” e “Dilma vagabunda”, o clima de festa (os patos distribuídos pela Federação das Indústrias de São Paulo, a Fiesp, e os carrinhos de coxinha do Ragazzo contribuiam), regado à cerveja vendida pelos bares e ambulantes, misturou-se, ao longo de toda a manifestação, ao tom de ódio nos olhos e nos gestos de homens, mulheres, idosos e até mesmo crianças que, incentivadas pelos pais e responsáveis, gritavam “Lula na cadeia” sem nem mesmo saber quem era Lula ou até mesmo “cadeia”. Eram os “manifestantes mirins”, conforme dizia a bandeira segurada por adultos.

O discurso, até certo ponto, estava afinado. As dezenas de milhares de pessoas, majoritariamente brancas – os poucos negros que se viam eram moradores de rua ou policiais – tinham em comum um desejo: o impeachment da presidenta Dilma. “Ela já caiu e está morta. Falta só enterrar!”, gritava o jovem Kim Kataguiri, líder do Movimento Brasil Livre. De fato, os manifestantes concordavam com Kim: o impeachment já seria algo iminente. Resta, portanto, saber qual o melhor rumo a ser tomado pelo país em uma eventual queda de Dilma.

A presença de homens e mulheres negras no ato era mínima. (Foto: Ivan Longo)
A presença de homens e mulheres negras no ato era mínima. (Foto: Ivan Longo)

“Não sei. Não importa. O importante é a Dilma cair e nos livrarmos do comunismo no país. Depois a gente vê”, afirmou Rosana Lapas, empresária de 35 anos que estava com a camiseta “In Moro we trust”.

A resposta de Lapas foi a mais comum entre os manifestantes quando perguntados o que deveria ser feito após o afastamento da presidenta. Paulo Ferraz, por exemplo, não se importa que o vice de Dilma, Michel Temer (PMDB), assuma, mesmo sabendo que ele pertence ao partido que mais políticos investigados tem na operação Lava-Jato.

“Tem que seguir a Constituição. Vai ele mesmo e vai ser cobrado da mesma maneira que ela. Até achar alguém que preste. Dali não pode piorar”, disse o manifestante que carregava uma placa com os dizeres “STF bolivariano”.

Integrantes do 'novo' MMDC. (Foto: Ivan Longo)
Integrantes do ‘novo’ MMDC. (Foto: Ivan Longo)

Já Marcelo, manifestante que se identificou apenas com o primeiro nome, dizia integrar o “MMDC”, movimento que oferecia treinamento de guerrilha aos paulistas na década de 1930, atuando contra o governo Vargas.

“Somos a resistência paulista”, afirmou, tentando explicar, sem muito êxito, a finalidade da existência do movimento até os dias de hoje. Quando indagado sobre o que fazer após o impeachment, novamente se enrolou. “Sou a favor da intervenção militar. Mas não ditadura, intervenção”, ponderou.

Entre os que não sabiam o que fazer e os apoiadores dos militares, uma solitária defensora da monarquia distribuia panfletos. “O Brasil era bem melhor antes da República. Tínhamos homens que zelavam pela pátria”. Esta, no entanto, não chegava nem perto da expressividade daqueles que declaravam, em meio a críticas a Eduardo Cunha e Aécio Neves, voto em Jair Bolsonaro em 2018.

“Depois do impeachment não sei como vai ser. Mas em 2018 eu voto no Bolsonaro. Ele defende a família tradicional e vai abaixar a criminalidade. Fora que ele é a melhor pessoa pra livrar o Brasil do comunismo”, disse o manobrista Marcos Paulo.

Opinião parecida com a do comerciante Gil que, carregando uma bandeira de São Paulo, disse que “não há muitas opções” já que todos os partidos “são de esquerda. “Eu iria de Alckmin, mas ele é socialista. Então voto no Bolsonaro”, declarou pouco antes de entrar em uma loja do Starbucks lotada de manifestantes de verde e amarelo.

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Comentários

1 comment

  1. Ricardo Pinto Responder

    Este é o material para analisar e descobrir o que fazer, A DESPOLITIZAÇÃO (cuja o PT também tem culpa). Na política criminalizada existe a busca pela solução autoritária ou anárquica (que me desculpem uns poucos anarquistas), ou ambas simultaneamente (mercado desregrado somado a Estado ditatorial). As empresas e os funcionários de carreira, por estarem fora da atividade política e eleitoral, são considerados imaculados e imunizados da desonestidade, que passa a ser inerente dos políticos. A atividade política não foi trazida à população e se tornou a atividade de rapina por excelência, seja ela política estudantil, sindical, movimento de negros, mulheres ou do que quer que se mobilize de forma organizada, exceto os que se organizem para “acabar com a política”.