A batalha da narrativa

Há muitas batalhas que hoje compõem a guerra em torno do mandato de Dilma Rousseff. Uma delas é jurídica. Outra é política. Mas, ao que tudo indica, a mais intensa delas tem sido a narrativa. O que está em jogo é quem tem o...

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Há muitas batalhas que hoje compõem a guerra em torno do mandato de Dilma Rousseff. Uma delas é jurídica. Outra é política. Mas, ao que tudo indica, a mais intensa delas tem sido a narrativa. O que está em jogo é quem tem o direito de contar essa história

Por Murilo Cleto

A presidenta Dilma Rousseff participa do encerramento da Cúpula Empresarial Brasil-China, no Palácio do Itamaraty (José Cruz/Agência Brasil)

Há muitas batalhas que hoje compõem a guerra em torno do mandato de Dilma Rousseff. Uma delas é jurídica, com liminares e recursos. Outra é fundamentalmente política, através de alianças e arranjos nos bastidores. Mas, ao que tudo indica, a mais intensa delas tem sido a narrativa. No fim das contas, o que está em jogo é quem tem o direito de contar essa história.

Evidentemente, a batalha da narrativa não nasceu hoje. Muito menos com Dilma. Como não distinguiam os persas de seus rivais históricos, os gregos antigos referiam-se a todos os inimigos do planalto do Irã como medos, o que também soava como ofensa. Hoje a história deste conflito é contada com o título de Guerras Médicas. Romanos insistiram na utilização do termo “bárbaro” para classificar estrangeiros, descaracterizando-os como plenamente humanos.

No Brasil republicano, historiadores ainda discutem se 1930 foi golpe ou revolução. O debate não é por acaso: golpe e revolução são mais do que palavras. Mais do que isso, revelam um conjunto de valores que, somados, dão significado ao fato, atribuindo-lhe mais ou menos legitimidade. Embora tenha triunfado o discurso de que 31 de março foi golpe, saudosos do regime militar insistem em revolução para nominá-lo. A explicação é simples: golpe sugere o descumprimento injusto de regras. Já revolução indica o descumprimento justo das regras para que a justiça seja garantida.

Desde a vitória de Dilma Rousseff no 2º turno das eleições presidenciais em 2014, a oposição insiste no encurtamento de seu novo mandato através das mais diferentes vias. Primeiro foi com a recontagem de votos, depois com o impeachment e, mais recentemente, com a cassação via TSE. O governo reagiu rápido e passou a classificar o empreendimento como golpista. O recurso funcionou entre a militância e, junto às analogias com 1964, tem dado o tom da defesa da presidenta reeleita.

Vem daí todo o trabalho da oposição para explicar que, apesar de todas as manobras do legislativo na condução do processo de impeachment, ele é previsto pela Constituição e, portanto, perfeitamente legal. Com o acirramento do embate, as duas forças antagônicas se radicalizaram e, como destacou o cientista político Pablo Ortellado em artigo recente para o UOL, excluíram posições independentes.

A dinâmica das redes, claro, contribuiu significativamente para isso. Como em geral a sua lógica opera pela adesão, palavras de ordem e recursos de desqualificação tendem a ganhar mais destaque, em detrimento de publicações ponderadas, que podem ser tanto ignoradas quanto atacadas por ambos os polos. “Isentão” é o nome que se dá, pejorativamente, aos que estão distantes dos extremos. O uso de hashtags aproxima inclusive aqueles que não se seguem mutuamente.

De acordo com Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, foram mais de 160 mil tuítes comentando os protestos agendados para o último dia 13, vindos de mais de 26 mil usuários. Movimento Brasil Livre, Revoltados Online e Vem Pra Rua registram um aumento de 55% nas interações desde o ano passado. E, quanto mais se adia o desfecho desta história, mais os grupos radicalizam suas posições, abrindo cada vez mais espaço para discursos que vão de pedidos de intervenção militar à misoginia, passando por racismo, preconceito de classe e um anticomunismo extremamente violento, ainda que muito pouco lógico diante da realidade do país.

A imprensa, evidentemente, não está alheia. Como boa parte dela tem vestido a camisa do impeachment, seu discurso insiste em operações de validação que legitimam determinados eventos em detrimento de outros. O Globo de 14 de março, um dia depois do protesto antigoverno, estampou a seguinte manchete: “Brasil vai às ruas contra Lula e Dilma e a favor de Moro”. Para noticiar a manifestação reativa, cravou: “Aliados de Dilma e Lula fazem manifestação em todos os estados”. Quer dizer, o Brasil foi dia 13. No dia 18 foram os aliados do PT. Essa pressuposição de neutralidade joga para o campo partidário somente aqueles que, dentro desta interpretação, estão com governo. Agora a cobertura das interceptações telefônicas entre Lula, Dilma e demais figurões do Partido dos Trabalhadores costuma ser sempre recheada com o selo “autorizadas pela justiça”. Desta forma, elas próprias, as interceptações, ganham status de legítimas. Por outro lado, governo e militância petista insistem no termo grampo para caracterizar escuta ilegal e descartá-las da queda de braço.

Em A ordem do discurso, Michel Foucault sustenta que o ato de dizer é ele próprio objeto de desejo na medida em que nem todo mundo é autorizado a fazê-lo. E, ainda, os que são não falam a partir da mesma condição. Marilena Chauí destaca que a confusão entre os espaços público e privado na contemporaneidade promoveu a superestimação da credibilidade como instrumento validador de posicionamento, substituindo os valores clássicos de verdade e mentira no debate público.

É também por isso que, primeiro, as militâncias insistem mais na desautorização do opositor do que efetivamente na própria pauta. Basta observar o seu comportamento nas redes às vésperas das manifestações, que se ocupa fundamentalmente em desqualificá-las de alguma forma, apontando nelas a presença de corruptos pedindo pelo fim da corrupção ou a distribuição de incentivos que descartariam a adesão espontânea. E, segundo, ambas buscam legitimidade na fala a partir de determinado grupo validador. Por exemplo, o que mais se vê nos últimos tempos são manifestos de juristas e outros profissionais de respeito contra e a favor de Moro. É como se dissessem: “Olha, estão vendo como a minha posição é a correta? Juízes federais (ou insira aqui a categoria que desejar) também pensam como eu”.

E parece evidente que o grande problema deste cenário é que o debate público jogou o conteúdo para escanteio diante da necessidade de imposição discursiva através da invalidação. O resultado, é claro, não poderia ser outro: as redes estão congestionadas e sobra pouca ou nenhuma margem para pensar a crise e suas saídas para o além da dinâmica maniqueísta que faz da demonização do outro uma prática cotidiana. Segundo o próprio Malini, ao contrário das expectativas, quanto a maior a tendência de desqualificação, mais é insuflada a militância que se sente provocada. E, desta forma, o congestionamento nunca tem fim.

Talvez ainda seja cedo para imaginar o que vai sobrar desta guerra. Mas é certo que pelo menos a batalha da narrativa vai deixar sequelas para uma democracia jovem que debate como criança e que mais uma vez corre o risco de desaparecer como se fosse uma velha instituição desgastada.

Foto de capa: Agência Brasil

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