Juca Ferreira: A agenda das mulheres é a agenda do Século 21

As palavras insensíveis, deslocadas e vergonhosas proferidas pelo presidente interino refletem cruamente a opressão do golpe sobre as mulheres. A começar pela escandalosa proposta de Reforma da Previdência que pretende elevar a idade mínima de aposentadoria das mulheres para 65 anos condenando-as ao trabalho...

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Por Juca Ferreira*

Um mar de mulheres encheu as ruas do Brasil e de quase 50 países, na terça-feira passada, 8 de março, Dia Internacional da Mulher. A mobilização organizada pela Articulação Global de Mulheres, #8M, foi um marco, uma onda transformadora de grande impacto para o Brasil e para o mundo inteiro. Definitivamente a agenda das mulheres é a agenda do Século 21.

Montevidéu (Foto: Ninja)
Montevidéu (Foto: Ninja)

As mulheres ocupam um papel central nos combates essenciais para humanidade. Devemos ouvi-las e segui-las. Primeiro, pela justiça de suas exigências e, segundo, porque as mulheres estão reabrindo com uma força incontrolável os caminhos das lutas emancipatórias da humanidade embaralhados desde a queda do Muro de Berlim.

O protagonismo das mulheres, com sua força espontânea e avassaladora, indica a direção a seguir para fazermos frente à ofensiva reacionária que ameaça as conquistas políticas, sociais, culturais e humanas no Brasil e em praticamente todo o mundo ocidental. E vai mais além, renovando sonhos e utopias que nos estimulam a lutar por uma sociedade justa e igualitária.

Melborne, Austrália (Foto: Daniel Pockett/Getty Images)
Melborne, Austrália (Foto: Daniel Pockett/Getty Images)

Esta semana, o #8M recuperou a essência do Dia 8 de março, instituído em 1917, dentro das lutas socialistas que sempre viram nas mulheres uma grande força revolucionária. Aos longo dos anos a data foi esvaziada, adquirindo uma conotação festiva, quando seu cerne original, hoje recuperado, é de luta e de defesa da igualdade de direitos, do respeito e da solidariedade.

Ainda hoje as mulheres lutam pelo direito de existir com liberdade, igualdade de direitos e de oportunidades. Lutam contra a violência e contra a exploração dentro e fora de casa. Lutam pelo direito ao trabalho digno, pelo direito à livre expressão do corpo e da mente, pela igualdade em todos os sentidos. E lutam pelo direito à singularidade, de serem elas mesmas e não um apêndice ou uma cópia dos homens. As mulheres lutam por acesso a direitos humanos e por uma humanidade melhor.

No Brasil de hoje essa luta ganha contornos dramáticos. As mulheres são as principais vítimas do golpe parlamentar de 2016. Primeiro, o governo de plantão tirou da Presidência da República uma presidenta eleita e, agora, exerce sem pudores a sanha de perseguir e suprimir direitos já conquistados, desprotegendo e avançando sobre as mulheres com insensibilidade e violência. O discurso vexatório do presidente interino no dia 8 de março, reduzindo o papel da mulher a limpar a casa, fazer supermercado e cuidar dos filhos, seria risível se não fosse trágico.

Rio de Janeiro (Foto: Ninja)
Rio de Janeiro (Foto: Ninja)

O sombrio discurso, em seu machismo escancarado, é a síntese de um desgoverno que se esforça para nos impor 100 anos de atraso. As palavras insensíveis, deslocadas e vergonhosas proferidas pelo presidente interino refletem cruamente a opressão do golpe sobre as mulheres. A começar pela escandalosa proposta de Reforma da Previdência que pretende elevar a idade mínima de aposentadoria das mulheres para 65 anos condenando-as ao trabalho desvalorizado até a morte. Não é à toa que a prorrogação de mais 15 anos na aposentadoria das mulheres foi um dos temas de destaque nas manifestações do #8M nos quatro cantos do Brasil.

São Paulo (Foto: Ninja)
São Paulo (Foto: Ninja)

Inviabilizar a aposentadoria não é a única crueldade misógina perpetrada pelos golpistas. A extinção de programas sociais, a redução do acesso à educação, a supressão de direitos trabalhistas e a perseguição a políticas afirmativas contra os preconceitos raciais e de gênero afetam primeiro as mulheres. E mais duramente as mulheres negras.

Os números evidenciam a discriminação, a violência e a exploração sofridas pelas mulheres brasileiras, condição que o golpe está aprofundando. Segundo o IBGE, as mulheres trabalham 7,5 horas a mais que os homens por semana. Em 40% dos lares brasileiros, elas são as provedoras, mas suas condições de vida estão sempre em desvantagem. Os salários retratam com precisão a escala de valores da sociedade: os homens brancos continuam tendo os melhores rendimentos, seguidos de mulheres brancas, homens negros e mulheres negras. Aí temos a soma do preconceito de gênero com o preconceito racial que torna a vida das mulheres negras uma dura luta diária pela sobrevivência.

São Paulo (Foto: Ninja)
São Paulo (Foto: Ninja)

Os dados sobre violência contra as mulheres são assombrosos. A cada 11 minutos um mulher é estuprada; a cada 1h30m uma mulher é assassinada no Brasil. Vivemos uma epidemia de violência contra as mulheres e, em vez de ampliar as políticas protetoras, o governo golpista retira direitos, é negligente com as políticas de segurança e, com seu discurso preconceituoso, reforça e autoriza a cultura do estupro sobre a qual se instalam todas as dimensões da misoginia em nosso país.

Mas, apesar dos golpistas e do pensamento retrógrado que predomina em parte da sociedade brasileira, o movimento das mulheres e a adesão a ele criam um ambiente de resistência e de criatividade, que vai nos ajudar a sair do turbilhão de retrocessos e boçalidades que tirou o Brasil de sua rota de desenvolvimento econômico, social, humano e cultural.

O grito das mulheres é um despertar para muita gente. Uma grande parcela dos brasileiros já está compreendendo que não haverá paz enquanto a mentalidade machista prevalecer em todas as dimensões da vida pública e privada. O machismo é a matriz a partir da qual se reproduzem todas as formas de opressão. Opressão de homens sobre mulheres; de fortes sobre fracos; de ricos sobre pobres; de brancos sobre negros… É daí que se originam as arbitrariedades, as violências, intolerâncias, racismos e explorações, que estão na base da nossa sociedade injusta e excludente.

Eu vejo na luta das mulheres uma grande fonte de inspiração para os que lutam por um mundo melhor. A agenda das mulheres contém a semente da transformação radical, indicando novas formas de organização humana, mais solidárias, colaborativas e generosas; abrindo caminhos de libertação de todas as gentes e de todos os povos oprimidos para a construção de uma sociedade justa, igualitária e pacífica.

juca ferreira
*Juca Ferreira é sociólogo e ambientalista. Foi ministro da Cultura nos governo Lula e Dilma Rousseff

 

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