As lições diárias de desjornalismo da imprensa brasileira

Na quarta-feira (15) centenas de milhares de brasileiros saíram às ruas no país todo contra a reforma da Previdência. A imprensa falou em greve dos transportes, greve de servidores públicos, distúrbio ao trânsito, caos nas cidades, ato de apoio a Lula, menos no que...

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Na quarta-feira (15) centenas de milhares de brasileiros saíram às ruas no país todo contra a reforma da Previdência. A imprensa falou em greve dos transportes, greve de servidores públicos, distúrbio ao trânsito, caos nas cidades, ato de apoio a Lula, menos no que levou tanta gente a se mobilizar. Deu voz a todos que quiseram atacar o protesto e a ninguém que pudesse simplesmente explicar o seu sentido

Por Gabriel Priolli, no Nocaute

Imagem veiculada pelo helicóptero da GloboNews (Reprodução)

Estes dias têm sido particularmente pedagógicos sobre o funcionamento da imprensa brasileira, em sua fase de jornalismo de guerra.

Boas lições são oferecidas nos capítulos da seleção de pautas, angulação do noticiário, tratamento das fontes de informação e respeito à verdade dos fatos.

Desde que a direita e a esquerda dividiram as águas nos movimentos de rua, depois de uma breve confluência nas jornadas de 2013, a mídia corporativa cuidou de esclarecer ao país que existem dois tipos de manifestação.

A dos brasileiros, cidadãos, patriotas, gente de bem, devidamente vestidos nas cores pátrias e orientados pela opinião de direita do rádio e da TV.

E a dos vagabundos, baderneiros, vândalos, agitadores esquerdistas, esses terríveis vermelhos inimigos da Pátria, da Família e da Propriedade, que só sabem fazer greve e atrapalhar o sagrado direito de ir e vir de quem quer trabalhar.

Na quarta-feira, dia 15, centenas de milhares de brasileiros saíram às ruas no país todo contra a reforma da Previdência e, mais uma vez, foram encaixados no Tipo 2 de manifestação.

A imprensa falou em greve dos transportes, greve de servidores públicos, distúrbio ao trânsito, caos nas cidades, ato de apoio a Lula, menos no que levou tanta gente a se mobilizar.

Deu voz a todos que quiseram atacar o protesto e a ninguém que pudesse simplesmente explicar o seu sentido.

Também na quarta, 15, a rádio Band News ouviu o vereador de alma branca Fernando Holiday, em São Paulo, para que explicasse pagamentos ilegais em sua campanha eleitoral.

Mas, em vez de tão somente colher as capengas explicações, para depois criticá-las como quisesse, o apresentador Fabio Pannunzio destemperou para cima do político do MBL, levou o rapaz a um ataque apoplético e cortou a sua fala no ar, sumariamente.

Como se fosse uma espécie de juiz curitibano, sentenciando ao microfone.

Na terça-feira, dia 14, Lula prestou depoimento à Justiça Federal, em Brasília, e deu um show de oratória política, mostrando-se saturado e indignado com a perseguição implacável que sofre.

Mas o portal UOL exemplificou o tom da cobertura da mídia para esse fato. Deu em manchete que “Lula diz acordar com medo da imprensa na porta esperando sua prisão”.

O presidente não usou a palavra medo em nenhum momento de sua fala e o que demonstrou foi revolta, com o assédio diário de repórteres e fotógrafos.

O decano dos jornalistas respeitáveis do Brasil, Jânio de Freitas, diz que muito da pós-verdade circulante no país provém da mentira oficial do governo, constante, onipresente, e ecoada aos quatro ventos.

O que falta em pós-verdade, a imprensa trata ela mesma de produzir, noticiando um mundo que pouco tem a ver com o real, e tudo com os seus próprios interesses, políticos e comerciais.

Difícil saber o que é pior. Se é ter uma imprensa que falseia, na cara dura, ou um público otário, que confia candidamente na falsidade.


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