Casa de acolhimento a pessoas trans e travestis em situação de rua é inaugurada em Belo Horizonte (MG)

A iniciativa pioneira na capital mineira é considerada um marco para a militância trans e travesti do estado Por Alessandra Dantas, colaboradora da Rede Fórum...

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A iniciativa pioneira na capital mineira é considerada um marco para a militância trans e travesti do estado

Por Alessandra Dantas, colaboradora da Rede Fórum

Foi na sala de aula da ONG TransVest, projeto que combate a transfobia e busca incluir travestis, transexuais e transgêneros na sociedade, que veio a demanda de se criar uma casa de acolhimento para essas pessoas em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. A iniciativa nasceu da urgência em tirar 4 estudantes de uma situação de rua e de vulnerabilidade. Foi esse contexto que motivou os coordenadores do TransVest e voluntários a se mobilizarem na criação e manutenção do espaço, localizado em uma comunidade na região leste de BH.

A casa TransVest, inaugurada no último dia 11, foi pensada para ser mais do que uma moradia. “Vamos dar o suporte de assistência social, psicológica, de alimentação, de roupas. Para que a pessoa se sinta parte da sociedade e perceba que pode estar inserida em qualquer espaço e que isso é um direito dela”, explica o transmasculino e um dos coordenadores do local, João Maria.

O novo projeto chega para complementar uma das principais iniciativas da ONG, o cursinho pré-vestibular para travestis e pessoas trans. “Para elas terem um bom rendimento em sala e o resultado esperado no Enem, precisam ter minimamente o direito básico à dignidade, à moradia, de poder tomar um banho e falar ‘estou indo para a minha casa’”, completa João.

Em 2016, a ONG TransVest atendia cerca de 20 pessoas por meio do cursinho. Neste ano, são mais de 50 pessoas acolhidas nas várias atividades da organização. Como também não tem apoio financeiro do governo, a casa TransVest será mantida por financiamentos coletivos, doações e voluntariado. “É um paliativo. A gente fica esperando medidas que já estão propostas em cadernos de resoluções de direitos humanos e a gente precisa ficar cobrando. Até agora, nem o nome social está efetivado direito, então imagine como ficam essas pessoas em situação de rua. A gente precisa fazer, e não ficar esperando acontecer, porque as pessoas estão morrendo”, desabafa João.

Quem primeiro recebeu as chaves da nova casa foi a estudante e travesti Ludimylla Ferraz. Natural de Uberlândia, ela vive há 6 meses na capital e há 3 estava em situação de rua. Ludimylla carrega uma história comum entre as travestis, que é a violência da qual são vítimas. Durante a entrevista, ela se recuperava de uma agressão sofrida em BH que resultou em ferimentos nas costas, provocados por facadas.

Como primeira moradora da casa de acolhimento e pelo empenho como monitora do cursinho pré-vestibular da ONG TransVest, a estudante assume o posto de referência para outras moradoras do novo lar. Ela será responsável pela organização e construção conjunta do bom funcionamento do local.

Ludimylla Ferraz, primeira moradora da Casa TransVest (Foto: Alessandra Dantas/ Rede Fórum de Jornalismo)

Questionada sobre a expectativa com a saída da rua, Ludimylla comemora que agora terá o que sempre lhe foi de direito, mas que era negado pela situação de vulnerabilidade em que se encontrava. “Agora vou ter um lar para estudar e descansar, um banho à minha altura e pessoas me apoiando”, ressalta a futura universitária. Aos 25 anos, ela já sabe a carreira que deseja seguir. “Já passei por vários momentos difíceis e agora é que estou me estabilizando tranquilamente para estudar. Meu sonho é ser assistente social e eu peço a Deus que consiga antes de eu morrer. Porque muita assistente social me ajudou para eu estar aqui onde estou hoje. Eu tenho essa missão a cumprir. Estudo todos os dias”, conta.

A casa TransVest conta com 6 vagas, todas já ocupadas. O projeto só foi possível pelo empenho da travesti e transformista Nickary Felipe, responsável por pesquisar e encontrar o imóvel que seria alugado para dar vida à iniciativa. “A casa está localizada na comunidade onde eu moro há 32 anos. Quando surgiu a ideia, me senti muito feliz e pensei ‘por que não ajudar?’ Então, procurei e consegui achar essa casa para dar início a esse projeto que começou do coração e tem muito amor envolvido” explica Nickary. Ela se considera uma multiplicadora do respeito ao próximo. “É dar respeito para ser respeitada, eu procuro sempre fazer isso. Acredito que posso ser essa multiplicadora na minha comunidade”.

A localização do imóvel na periferia é estratégica, na opinião de um dos coordenadores da casa João Maria. “A gente está abrindo a possibilidade de diálogo com a periferia que também é uma parte da população que está a margem”, afirma. O mais importante é a relação de troca. “Às vezes não chega para eles o conhecimento e a informação das questões de gênero e sexualidade. Então, a gente está sendo abraçado lá, a gente ensina para eles e eles ensinam para gente, a gente está se fortalecendo nesse sentido”.

Dois quartos grandes, banheiro e cozinha. É nesse espaço que as moradoras terão a oportunidade de conviver. Mas para ser moradora, uma regra é fundamental: “Tem que participar das atividades pedagógicas, artísticas e culturais da ONG”, ressalta João.

Para contribuir com a manutenção da casa de acolhimento Transvest uma das opções é preencher o formulário.

Além disso, você pode se informar pela página da ONG no Facebook. “A gente pede a colaboração de todos, não importa em qual região do Brasil a pessoa esteja. Precisamos das doações para quando tivermos uma emergência não ficarmos desesperadas e ajudarmos quem precisa porque sempre temos demanda”, conclui Ludmylla.

Foto de capa: Alessandra Dantas/Rede Fórum


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