A gôndola está cheia, por Rodrigo Abel

Ex-subsecretário de Desenvolvimento Social do Rio de Janeiro analisa, em artigo, os efeitos da chamada “guerra às drogas” e o aumento da violência no país Por Rodrigo Abel*...

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Ex-subsecretário de Desenvolvimento Social do Rio de Janeiro analisa, em artigo, os efeitos da chamada “guerra às drogas” e o aumento da violência no país

Por Rodrigo Abel*

Nem chegamos à metade do ano e já sonhamos com o seu fim, loucos para exercitarmos a nossa indelével capacidade em dar o “boot” na máquina do tempo e começar tudo de novo. O mais carioca dos cariocas dirá que isso é de uma obviedade tremenda, pois depois do Carnaval logo ali está o Reveillon.

Mas é dentre tantas questões deste conturbado cotidiano atual que uma tem nos tocado com muita intensidade: o inegável aumento na sensação de insegurança.

Para efeitos estatísticos, fechamos o primeiro trimestre com 88 policiais baleados, dos quais 42 estavam em serviço e, acreditem, 38 encontravam-se em folga. Para nossos indicadores olímpicos, registram-se na contabilidade mais 32 óbitos. Com esse andar da carruagem quebraremos mais um recorde, superando os 390 policiais baleados e 111 óbitos de 2016.

Em duas décadas perdemos mais de 3 mil policiais em confrontos no Rio de Janeiro, praticamente o mesmo impacto das guerras separatistas na Irlanda e na Espanha – IRA e ETA. Para o bem da verdade, ao mesmo tempo em que nossos policiais morrem, eles também matam. Em estudo recente a ong Human Rights Watch denunciou a morte de mais de 8 mil civis nestes conflitos, em apenas uma década.

Mas que guerra é essa? Por que motivo há esta cruzada entre o bem e o mal?

Em grande parte, essa matança é fruto da disputa comercial pelos postos de venda de drogas ilícitas, coibidos militarmente pelo Estado.

Em tempos de drogas de laboratório, o Instituto de Segurança Pública (ISP/RJ) divulgou recentemente que a velha conhecida maconha representou quase 70% das apreensões em 2015, havendo aumento na ordem de 400% em comparação com anos anteriores.

Será mesmo que o comércio da maconha merece ser combatido com rifles automáticos, carros e helicópteros blindados?

Infelizmente estamos condicionados a fazer este debate marcados por rótulos: torcida dos “maconheiros” versus torcida pela “família” – essa é a verdeira droga a ser combatida. Precisamos exercitar a difícil tarefa da neutralidade axiológica a qual Weber se refere, onde a razão e a ciência organizam as dialéticas opostas para produzir novas sínteses.

Em seu último relatório, o Observatório Europeu sobre Drogas nos trouxe dados ainda mais alarmantes: em 2016, 78% das apreensões registradas foram por porte ou comércio de maconha. O sistema europeu de alerta sobre novas drogas emitiu ainda neste mesmo ano 98 comunicados de substâncias não catalogadas sendo comercilizadas. Incrivelmente, 60% destas novas substâncias foram produzidas a partir de canabinóides sintéticos – derivações da planta da maconha.

O comércio de drogas é como uma gôndola de mercado que impulsiona o sujeito a comprar mais do que precisa e a experimentar novos produtos. Quantas vezes vamos ao mercado para comprar pão e aproveitamos para levar sabonete, iogurte e cerveja? Sendo a maconha o produto historicamente mais consumido nas gôndolas das ilicitudes, por que então não fazemos um debate profundo, sem paixões ou posições caricatas para retirá-lo desta prateleira?

A deposição das armas, seja na Irlanda ou na Espanha, foi obra de consensos, diálogo e, sobretudo, pela vontade em dar fim à guerra. E nós, comecamos a falar disso quando?

* Rodrigo Abel é ex-subsecretário de Desenvolvimento Social da Cidade do Rio de Janeiro, membro da Comissão Brasileira Sobre Drogas e Democracia e mestrando em Sociologia Política pelo IUPERJ

Foto: Agência Brasil

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