Eliza Capai, diretora do filme #Resistência, sobre as ocupações de 2016, fala à Fórum

As imagens foram feitas nas ocupações: #OcupaAlesp, #OcupaMinc-RJ, #OcupaFunarte-SP, a Marcha das Vadias RJ e a Parada LGBTT de São Paulo, entre os meses de abril e agosto de 2016. Na tarde desta terça-feira (25), pouco antes de soltar em rede o teaser para...

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As imagens foram feitas nas ocupações: #OcupaAlesp#OcupaMinc-RJ, #OcupaFunarte-SP, a Marcha das Vadias RJ e a Parada LGBTT de São Paulo, entre os meses de abril e agosto de 2016. Na tarde desta terça-feira (25), pouco antes de soltar em rede o teaser para o filme, convocando as pessoas a organizarem sessões independentes para assisti-lo, Eliza Capai falou à Fórum.

Por Julinho Bittencourt

No momento em que o Congresso Nacional dava o primeiro passo do golpe em Dilma Roussef, naquele fatídico 17 de abril de 2016, várias ocupações culturais começaram a ocorrer em todo o Brasil. Durante todos os meses em que Michel Temer se manteve como presidente interino, até a votação definitiva do impeachment no Senado, em agosto, a cineasta Eliza Capai filmou estas ocupações.

Em maio, um ano depois, ela lança o filme, #Resistência.

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De dentro das manifestações, nos prédios públicos ocupados e nas ruas, Eliza deu voz aos seus protagonistas. Heróis anônimos, na maioria jovens, contam, através das lentes da cineasta, o surgimento irrevogável de uma nova mentalidade. Uma explosão de vida, liberdade e imaginação era gestada ali, a partir da caretice poeirenta e encarquilhada de um velho governo novo composto apenas por homens velhos, ricos, retrógrados, brancos e, como o tempo veio a mostrar, envolvidos até a tampa em corrupção.

Feminismo, Racismo, homossexualidade, transexualidade, educação, cultura, mídia e tecnologia desfilam pelo filme de maneira divertida, escancarada e emocionada.

#Resistência é uma ode à coragem e sensibilidade de encarar o renascimento da história, no momento em que ela parecia anunciar seu fim.

As imagens foram feitas nas ocupações: #OcupaAlesp#OcupaMinc-RJ, #OcupaFunarte-SP, a Marcha das Vadias RJ e a Parada LGBTT de São Paulo, entre os meses de abril e agosto de 2016.

Veja instruções para organizar a sua sessão abaixo, logo após a entrevista.*

Na tarde desta terça-feira (25), pouco antes de soltar em rede o link para o filme, convocando as pessoas a organizarem sessões independentes para assisti-lo, Eliza Capai falou à Fórum.

Em que momento você teve a ideia de registrar as ocupações que aconteceram durante o processo de impeachment?

Há um ano eu começava a realizar uma série sobre Democracia e um dos episódios era sobre educação. Assim, quando eu soube que os estudantes haviam ocupado a Alesp, decidi fazer contato com eles. Simplesmente mandei um inbox para a pagina do #OcupaAlesp e fui autorizada a entrar. Quando cheguei na Alesp, a grande mídia aguardava na ante-sala e, sem entender porquê, ao contrário deles, eu tinha recebido autorização para entrar. Entrei e fiquei impressionada com a diversidade daquele grupo, com a forma como discutiam gênero, feminismo, educação. Com a forma como dialogavam e contactavam os deputados. Eu fui para ficar uma horinha, mas acabei dormindo lá e só saí quando ocorreu a desocupação. Saí de lá com o sentimento de ter presenciado, vivenciado algo histórico mesmo. De ter aprendido e compreendido muito sobre aquela nova geração, sobre as novas e as velhas mídias, sobre outras formas de política.

Você já tinha ideia, quando começou a filmar, da importância do que estava registrando?

No mês seguinte, quando começaram as ocupações culturais, entendi que entrar nestes prédios públicos como forma de forçar a sociedade a discutir temas importantes, se apresentava como principal forma de luta daqueles meses de governo interino. Participei do momento de ocupação da Funarte SP, e depois gravei no #OcupaMinc RJ, que foi a mais duradoura das ocupações. Foi muito forte entender aquele caos, aquele momento de golpe ou impeachment com aqueles grupos, com tantas discussões e desejos de construção de sociedades mais igualitárias, mais criativas, mais artísticas. Em que a utopia ganhava corpo.

Vocês estão organizando sessões do filme, incentivando as pessoas a se organizarem para assisti-lo. É um ato de política total, onde até o lançamento vira um evento, é isso?

A gente não está nem organizando as sessões… a gente quer que as pessoas se apropriem do filme, ocupem mesmo! Que cada um organize suas sessões, convide os iguais e os diferentes para assistir. Que ele seja usado como pausa, depois deste ano tão louco, para que a gente pare e tente, de novo, entender o que estamos vivendo. Nosso sonho é que cada grupo se conecte com a temática que mais lhe faça sentido: uns com a discussão de feminismo – aquele que o filme mostra não apenas como “inimigo” distante, mas também colado na nossa própria esquerda que ocupava, em nossos “companheiros” -; a discussão da mídia, da grande mídia e dos discursos que se conectam com seus próprios interesses, e também com a nossa nova mídia engajada; com a importância da cultura e da educação. Assim, entre 12 e 21 de maio, quando completa um ano do afastamento de Dilma, a gente convida as pessoas a organizarem suas sessões – no cineclube, no auditório, no trabalho, escola, universidade, na rua, onde for… Que, assim como os movimentos retratados, os protagonistas do filme, que elas se apropriem destas discussões.

O que mais te surpreendeu quando vc começou a filmar?

É muito surpreendente ver quando um grupo pequeno de pessoas, que se unem em torno de causas justas, de temas que afetam a vida de um grupo gigante de pessoas… ver como estas pouco pessoas, organizadas, com uma pauta e metodologia clara, conseguem reverberar tanto. Conseguem pautar a mídia, conseguem fazer com que a opinião pública discuta estes temas importantes. No Brasil, há um esforço muito claro de nossas elites em deslegitimizar os movimentos sociais, em criminalizar, dizer que não funciona… e, de dentro destas ocupações, sentir que sim, que funciona… é muito surpreendente. E este funcionar ao que me refiro fala sobre a abertura da CPI da Merenda – apesar de como este capitulo se desenrolou – e sobre o retorno do Minc, mas fala também de um processo de amadurecimento dos participantes, de tomada de consciência, de autoestima. De como o feminismo é abraçado pelas minas, do processo de empoderamento delas, de como as discussões começam a ocorrer a partir disto. Da consciência de falta de representatividade da periferia, do negro nos lugares de poder, e a inversão, expansão consciente desta lógica dentro dos movimentos. Um processo de amadurecimento destes grupos dentro de nossa nova e golpeada democracia.

*Para organizar sua sessão:

  1. Organize um espaço com projetor ou tela, no período de 12 a 21 de maio. Incentivamos as pessoas a se conectarem com espaços já conhecidos, como cinemas, auditórios, cineclubes, espaços culturais; ou criarem seu próprio local e organizarem uma projeção na rua, praça, local de trabalho, etc;
  2. Envie uma mensagem inbox para a página facebook.com/resistenciafilmecom a data e local do evento;
  3. Nós te enviaremos a base da arte, para você criar sua divulgação;
  4. Convide pessoas interessantes para debater um ou vários dos temas do filme, no final da sessão: resistência, democracia, feminismo, gênero, mídia movimento estudantil, cultura;
  5. Bole uma campanha massa e chame todo mundo para assistir o filme no seu #ocupa!
  6. Você receberá acesso ao filme para exibir na sua sessão;
  7. Exiba e discuta #Resistência!

 



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