Ajoelha-te e beija-me ou te condeno!

Em sua coluna, ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha analisa depoimento de Lula a Moro: “Mais uma vez, os grandes veículos de difusão da comunicação mostraram de que lado estão. A cobertura não foi nem um décimo do que foi o dia do ‘sequestro/condução coercitiva...

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Em sua coluna, ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha analisa depoimento de Lula a Moro: “Mais uma vez, os grandes veículos de difusão da comunicação mostraram de que lado estão. A cobertura não foi nem um décimo do que foi o dia do ‘sequestro/condução coercitiva de Lula a Congonhas’. Não foi um vigésimo do que foram as manifestações contra Dilma e nem um quinquagésimo do tempo gasto no principal telejornal para esquartejar a imagem de Lula”

Por Alexandre Padilha*

Ajoelha-te e beija-me ou te condeno!

Querem que Lula e todo e qualquer petista que se apresente, todo dia antes de qualquer coisa, peça infindáveis desculpas pelo Mensalão, como exigiam que os judeus se desculpassem pela morte de Jesus Cristo. Pra mim é o que fica como única novidade no depoimento do ex-presidente Lula de ontem (10), em Curitiba.

A tese do tríplex ruiu de vez, já que as novas e únicas “evidências” trazidas pelo Ministério Público são: a palavra praia escrita em ‘caixas’ – em um país com mais 7,4 km de praias – e uma rasura que nem a perícia da Polícia Federal estabelece quem fez. Ambas, obviamente, já haviam sido objeto de matérias da imprensa que realiza uma caçada contra Lula. Horas e horas de depoimento e mais nada. Restaram perguntas esdrúxulas como: “o senhor esteve no lançamento da Refinaria? Mas o senhor visitou a obra?” ou “mas se o Instituto Lula passou a arrecadar em 2011, porque não gastou este recurso para alugar um galpão para o acervo de ex-presidente e deixou que o armazenamento continuasse sendo pago pela OAS?”.

Mas o que querem é outra coisa. E isso para mim ficou claro na insistência do juiz em querer arrancar uma opinião, comentário do Presidente Lula sobre o processo do mensalão ou tentar mostrar contradições entre as entrevistas de Lula sobre o tema em contextos políticos e históricos diferentes. Em insistir em perguntar ao presidente algo como “O senhor dizia que o PT e seus dirigentes deveriam se desculpar, o senhor acha que o PT já se desculpou?”.

E como se Lula e os petistas não tivessem o direito de fazer ou ser nada antes de se desculpar. Não pode defender os direitos dos trabalhadores sem antes se desculpar. Não pode sonhar com um Brasil mais justo sem antes se desculpar. Não podem falar do Brasil pelo mundo sem antes se desculpar. Não podem vestir vermelho sem antes se desculpar. Não pode se quer levantar a cabeça. Ficou claro, seu Luís Inácio.

Já convictos de que nem o tríplex, que já seria ridículo por si só, não se sustenta, prepara-se uma condenação em outras bases. O domínio do fato, o conjunto da obra, o método de ter feito um governo popular em um sistema politico ainda tão conservador e influenciado pelo dinheiro e tentar cravar tal condenação na testa do líder das pesquisas de opinião. Quem defende a democracia tem que se preparar para este cenário: ter o candidato líder das pesquisas em julgamento enquanto concorre nas eleições.

Para mim, uma das grandes imagens que sintetizam o dia de ontem foi a descrita por um post, em uma rede social, que dizia “O juiz chega escoltado. Os promotores chegam escoltados. A imprensa é escoltada. O único que chega e sai nos braços do povo é o réu”.

A expectativa do juiz era que Lula, ao final da audiência, saísse humilhado e fraco. Mas, o tiro saiu pela culatra, seu juiz, e o senhor tem consciência disso, que subestimou.

Qual político brasileiro mobilizaria mais de 50 mil pessoas vindas do Brasil inteiro para Curitiba em solidariedade a sua honra? Trabalhadores que aguardaram por horas sob sol e chuva após longas viagens de ônibus, que tiveram seus pertences revistados pela policia e o acampamento atacados na noite anterior, que foram tratados como “baderneiros” pela justiça de Curitiba que determinou os atos pró-Lula a uma distância de cinco quilômetros do fórum de justiça, com aparato policial de guerra. Claro que os atos pró-Moro/Lava Jato estavam mais próximos, mas foi demais ver a baixa adesão ao movimento com medo dos “bagunceiros”.

Por compromisso profissional não pude ir a Curitiba e me juntar aos milhares que tomaram a Praça da Democracia. Assisti de longe com uma tremenda inveja. Mas serviu para olhar tudo de um outro lugar. Cumprindo meu cotidiano comum na cidade, andando, conversando na padaria, entrando no metrô, levando e pegando minha filha na escola o que percebi é que a cidade estava alheia do que acontecia em Curitiba.

Mais uma vez, os grandes veículos de difusão da comunicação mostraram de que lado estão. A cobertura não foi nem um décimo do que foi o dia do “sequestro/condução coercitiva de Lula a Congonhas”. Não foi um vigésimo do que foram as manifestações contra Dilma e nem um quinquagésimo do tempo gasto no principal telejornal para esquartejar a imagem de Lula.

Poucos holofotes para o momento onde ficou claro para a história que Lula tem consciência tranquila e não teme estar diante da justiça, mas as manchetes de hoje nos jornais tentam cravar “Lula põe a culpa em Marisa”. Nada parecido com o comentário que me fizeram na rua hoje “caramba, Lula foi lá e falou tudo sem medo”.

*Alexandre Padilha é médico, foi secretário municipal da saúde na gestão de Fernando Haddad e ministro nas gestões Lula e Dilma



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