fsm
Um país de
um milhão
de faces
Sede do próximo Fórum, a Índia apresenta
uma rica diversidade religiosa, política e até mesmo de
idiomas. A realização do FSM deve trazer luz aos inúmeros
contrastes desse país-continente
Por Nicolau Soares
fotos de Satoru Takaesu |
|
A organização do Fórum Social Mundial
oficializou, no dia 3 de setembro, a realização da quarta
edição do evento em Mumbai, na Índia, praticamente
do outro lado do planeta. A confirmação não despertaria
tanto interesse se não tivesse ocorrido apenas poucos dias depois
dos atentados que mataram 46 pessoas e deixaram 150 feridos na mesma cidade.
A pergunta que passa pela cabeça dos possíveis participantes
do evento é muito simples: o que há na Índia para
que o FSM vá para tão longe mesmo com tantos riscos?
“A Índia é outra referência, uma maneira muito
diferente de pensar. Só para termos uma idéia da importância
do país no campo da cultura, basta dizer que a primeira língua
falada no mundo é o mandarim, a segunda é o inglês,
e a terceira e a quarta são faladas na Índia, o hindi e
o urdo”, registra Cristophe Aguiton, representante da ATTAC-França,
em depoimento no lançamento do FSM 4. Além desses, são
mais 15 idiomas oficiais, sendo o hindi o mais difundido. O inglês,
tido por muitos como a língua oficial, é dominado por uma
minoria da população. Mas é como os visitantes terão
mais chances de se comunicar. Mas não sem alguns problemas (ver
Box).
Essa é apenas uma das características marcantes desse país
que se gaba de ser a maior democracia do mundo, com cerca de 600 milhões
de eleitores, de uma população de 1 bilhão de habitantes,
a segunda maior do planeta. Tudo é grandioso e impressionante.
É o caso do hinduísmo, religião de 80% da população.
Com mais de 4 mil anos de existência, é uma das crenças
mais antigas e, para a cultura ocidental, difícil de entender.
Para se ter uma idéia, o hinduísmo pode ser considerado
monoteísta, politeísta e até panteísta, tudo
ao mesmo tempo. São descritas tradicionalmente cerca de 330 milhões
de divindades hindus, mas todas podem ser vistas como manifestações
do mesmo ser supremo.
A importância desses deuses tem variado durante a história.
Hoje, os principais são Bramah, o criador, Vishnu, o preservador
e Shiva, o destruidor, que dá continuidade ao ciclo da vida. Essa
diversidade é ressaltada como um fator extremamente positivo pelo
sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. “Eles
são muito democráticos. No hinduísmo pode-se até
criar divindades, enquanto nós somos obrigados a adorar um único
deus”, comenta.
Para o povo hindu, a religião tem uma importância fundamental.
É inconcebível para eles tomar qualquer decisão na
vida sem considerar suas implicações religiosas. O hinduísmo
regula o que comer, com quem casar e até mesmo com quem se relacionar,
o que é um de seus pontos mais polêmicos. O sistema de castas
estabelece, desde o nascimento, a posição social das pessoas.
Os hindus acreditam que a casta em que uma pessoa nasce é determinada
por sua conduta em vidas anteriores, sendo, portanto, um desígnio
divino.
A Índia foi o país onde esse sistema mais se desenvolveu.
A divisão teria sido imposta pelos povos arianos, que conquistaram
a região por volta de 1500 a.C. Dessa forma, manteriam-se distantes
das populações subjugadas, ignoradas nos antigos hinos védicos,
uma das bases do hinduísmo.
Eram originalmente quatro castas: brâmanes (sacerdotes), ksatria
(guerreiros, militares), vaisia (agricultores e comerciantes) e sudra
(lavradores mais humildes e servos). Mais tarde o número aumentou,
chegando a mais de três mil castas e subcastas. Cada uma tem suas
próprias normas e está rigorosamente separada das outras.
Não é permitido o casamento misto, a refeição
em comum, nem a participação conjunta em atividades profissionais.
A quebra de qualquer dessas obrigações implica a exclusão
da casta.
Mas o maior problema do sistema está na existência dos harijans
ou párias, que não fazem parte de nenhuma das castas. Eles
são o grupo mais numeroso e são extremamente marginalizados.
“No campo, mais de 70% das famílias são constituídas
por pequenos agricultores marginais ou por trabalhadores rurais sem terra.
São mais de 400 milhões de pessoas, boa parte delas vivendo
bem abaixo da linha de pobreza”, afirma Maria Lúcia Zanelli,
pesquisadora especializada em Índia do Núcleo de Política
e Estratégia (Naippe) da Universidade de São Paulo.
Mohandas Karamchand Gandhi, o grande líder da luta indiana pela
independência, conhecido no Ocidente pelo título de Mahatma
(Grande Alma), era contrário ao sistema, o que atraiu inúmeros
párias para seu movimento. Assim, após a emancipação,
o sistema de castas foi oficialmente abolido, mas continua muito relevante
nas relações cotidianas. Tanto que a solidariedade dentro
de cada casta deu origem a vários partidos políticos, possibilitando
até mesmo aos párias chegarem ao poder em alguns estados,
como o de Tamil Nadu. “Não se muda uma tradição
de milhares de anos facilmente”, sustenta Christophe Aguiton. “Precisamos
discutir esses temas na sociedade indiana e fortalecer os movimentos sociais
das castas menos favorecidas”, defende.
Um país sob tensão
Apesar de maioria absoluta, o hinduísmo não é a única
religião seguida nessa sociedade tão multifacetada que é
a indiana. Existem minorias expressivas de muçulmanos (11%), siques
(2%), cristãos (2%), budistas (0,7%) e outros grupos menores.
Essas divisões são a maior causa dos conflitos internos
do país, como os atentados recentemente ocorridos em Mumbai. A
autoria dos atentados é atribuída ao Movimento Islâmico
dos Estudantes da Índia (Simi), um dos vários grupos extremistas
em atividade no país. “A Índia é uma colcha
de retalhos onde convivem cerca de 400 etnias. Existem pelo menos seis
regiões que abrigam movimentos separatistas, seja por motivos étnicos
ou religiosos”, explica Maria Lúcia Zanelli.
Os conflitos religiosos marcam a história do país desde
antes de seu nascimento. “Sob o domínio inglês, conviviam
no subcontinente indiano populações hindus e muçulmanas,
em um relacionamento agravado pela política do colonizador de ‘dividir
para reinar’”, explica o ex-embaixador Amaury Porto de Oliveira,
especialista em Ásia do Grupo de Conjuntura Internacional (Gacint)
da USP. Assim sendo, na ocasião da independência, em 1947,
Londres reuniu as áreas predominantemente muçulmanas e criou
o Paquistão. A Índia foi formada pelas áreas de predominância
hindu, mas mantendo em seu território uma população
de cerca de 120 milhões de muçulmanos. “A movimentação
demográfica causada pela separação entre terras e
gente foi feita em meio a verdadeira carnificina, chegando a cerca de
1 milhão de mortos, e a permanência da minoria muçulmana
na Índia continuou dando motivo a lutas e massacres, provocados
sempre por fanatismo religiosos dos dois lados”, relembra Oliveira.
O mesmo se dá com o Partido do Congresso, que governou o país
durante cinqüenta anos, desde a independência até meados
dos anos 90. Seguindo uma linha parecida com a do Mahatma Gandhi, o partido
buscou, sob a tutela do primeiro-ministro, Jawaharlal Nehru, considerado
o pai da pátria indiana ao lado de Gandhi, manter a união
do território contra os diversos movimentos separatistas que se
instauraram. São emblemáticos nessas lutas os atentados
contra a filha e o neto de Nehru. Indira Gandhi foi assassinada em 1984
em Nova Déli por extremistas da seita sique ainda durante seu mandato
como primeira-ministra. Seu filho e sucessor Rajiv morreu dois anos depois
de deixar o cargo, em 1991, num atentado.
A parte mais complexa desses conflitos está na Cachemira. A região
abriga uma população de maioria muçulmana, mas está
oficialmente ligada à Índia. Amaury Oliveira explica que,
quando se processou a partilha da região, havia 560 principados
não subordinados à Coroa Britânica que foram integrados
em um ou outro dos novos estados, de acordo com a geografia ou a religião.
“Sobrou o estado do Jammu-e-Cachemira, de população
majoritariamente muçulmana, mas governado por um príncipe
hindu”, esclarece Oliveira. Num processo confuso, o marajá
Hari-Singh escolheu integrar-se à Índia. O fato não
foi bem aceito pelo Paquistão, o que provocou a primeira guerra
entre os vizinhos recém-independente.
Desde então, a região foi motivo de
mais duas guerras e é alvo de ataques periódicos de movimentos
separatistas. A situação voltou a se agravar a partir da
década de 90, quando o Partido do Congresso começou a perder
poder.O beneficiado foi o Partido Fundamentalista Hindu que, atacando
o modelo econômico do Partido do Congresso, venceu as eleições
parlamentares em 1996 e assumiu o poder.
Sob o lema “a Índia para os hindus”, o crescimento
dos fundamentalistas se deu numa onda de exacerbação religiosa,
que culminou com a destruição de uma famosa mesquita por
uma multidão de hindus, que alegava que o prédio havia sido
construído em um terreno sagrado para sua religião.
Desde então, sucederam-se muitos massacres sangrentos. “Um
deles, em fevereiro de 2002, matou 58 hindus que voltavam de visita ao
sítio da mesquita destruída. A resposta veio no estado de
Gujarat, onde centenas de milhares de muçulmanos foram expulsos
de seus lares, com mais de 2 mil mortos”, conta Oliveira.
Apesar de tudo, o governo indiano se considera contrário ao terrorismo
e foi um dos primeiros a condenar os atentados do 11 de Setembro. Além
disso, reforçou sua política anti-terrorista com uma nova
legislação, sob a qual vários grupos islâmicos
foram banidos.
É nessa situação tensa que o FSM decidiu ir até
a Índia. Temores à parte, a ida do Fórum à
Índia é extremamente importante tanto para o movimento quanto
para as organizações sociais do país, que se fortalecerão
com o evento. Isso pode fazer do FSM na Índia um marco na integração
das lutas por liberdade e paz entre Ocidente e Oriente.
Para não se perder...
Para quem está pensando em ir à Índia,
organizamos uma lista de preocupações práticas. São
pequenos detalhes que podem facilitar bastante o seu passeio. Boa viagem!
1 – dinheiro
A moeda da Índia é a rúpia indiana. Cartões
de crédito são pouco usados, prefira levar cheques de viagem
ou dinheiro vivo.
2 – Língua
Falar inglês para um indiano é tão estranho quanto
para nós, já que a maioria utiliza outro idioma em sua vida
cotidiana. Tenha paciência e procure pronunciar bem as palavras.
3 – Comida
A comida na Índia é deliciosa, embora seja muito apimentada
para nosso paladar. Se você tem problemas com a pimenta ainda restam
opções, como frutas, pão, amendoim, coalhada, arroz
etc. Por questões de higiene, evite comer alimentos na rua. Coma
só frutas descascadas e tome água mineral ou refrigerantes.
4 – Gorjeta
Com o nome de bakshish, tem grande importância para os indianos.
Tenha sempre muito troco. Nos restaurantes, 10% é o esperado. Nos
hotéis, 5 ou 10 rúpias para os meninos que ajudam a levar
as malas é suficiente.
5 – Trânsito
As regras e costumes do trânsito são muito diferentes dos
nossos. À primeira vista, tudo parece um caos. A mão é
inglesa (à esquerda), mas nem sempre é respeitada. A buzina
é muito usada para sinalizar a proximidade do veículo ou
o desejo de ultrapassar, ao contrário daqui. Para se ter uma idéia,
os pedestres não costumam olhar para atravessar: se não
ouvem uma buzina, é porque não está vindo ninguém.
6 – Etiqueta
A cabeça é a parte mais nobre do corpo e os pés a
mais poluída. Portanto, não é aceitável tocar
na cabeça das pessoas ou se apontar os pés para elas. Quando
sentar, coloque os pés para trás ou sente-se na posição
de lótus. O contato físico entre homens e mulheres não
é bem visto. Não faça demonstrações
de carinho entre sexos em público. O cumprimento mais aceito, principalmente
entre os sexos, é o Namaskar ou Namaste, com as mãos juntas
na altura do queixo.
7 – O que visitar
Mumbai possui vários pontos turísticos, como a Porta da
Índia (Gateway of India), um impressionante arco com vista para
o porto, logo na entrada da cidade. O Museu Príncipe de Gales (Prince
of Wales Museum) destaca-se já pela fachada, no estilo indo-sarraceno,
e ainda abriga pinturas mongóis e jades primorosos. Próximo
ao museu encontra-se a Torre Rajabai, com 85 metros e uma passagem para
um amplo parque. A Flora Fountain ou Hutatma Chowk é o centro da
vida comercial da cidade.
BH se organiza para o 1º FSB
O primeiro passo já foi dado. No último
dia 2 de setembro, junto com o lançamento do Fórum Social
Mundial, também foi lançado o Fórum Social Brasileiro,
que será realizado em Belo Horizonte entre os dias 6 e 9 de novembro.
A organização espera que cerca de 40 mil pessoas estejam
presentes no evento.
De acordo com Salete Camba, integrante do Conselho do FSB, o encontro
deve contemplar tanto questões locais como globais. “Pretendemos
desenvolver um processo que possa discutir as questões brasileiras,
mas que também proporcione uma articulação para levar
a voz dos brasileiros à Índia”, esclarece.
O Fórum Social Brasileiro será organizado em torno de três
eixos temáticos. O primeiro eixo é “Imperialismo”
e abordará temas como a formação da Alca, OMC, dependência
externa e estratégias econômicas de dominação.
Também são temas de discussão a globalização
armada e a militarização na América Latina. O segundo
eixo é “O Brasil que temos e o Brasil que queremos”,
que debaterá a superação do neoliberalismo por meio
de projetos democráticos, populares, não-sexistas e anti-racistas
de desenvolvimento sustentável, destacando também a defesa
da Justiça Social, dos Direitos Humanos, da igualdade entre mulheres
e homens e da superação do preconceito racial. O terceiro
eixo abordará a ação global dos movimentos sociais.
Em termos de estrutura, o FSB seguirá a mesma metodologia do FSM,
com grandes conferências propostas pelo Conselho Brasileiro e também
com atividades autogeridas realizadas pelas redes e movimentos sociais
presentes no Fórum como painéis, mesas de diálogo,
testemunhos, oficinas, seminários, debates, convergências,
assembléias e laboratórios organizados pelas entidades.
As atividades do Fórum serão concentradas no campus da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, além de outros
locais, como o Mineirão e o Mineirinho.
Para mais informações sobre como participar e inscrever
sua entidade, acesse o sítio www.fsb.org.br.
Glauco Faria
|