terra
A reforma prioritária
Por Denyse Godoy |
Foto Gerardo Lazzari |
Embora a mídia queira pautar apenas a discussão
das reformas da Previdência e tributária, para o geógrafo
Ariovaldo Umbelino de Oliveira, ou o governo faz a reforma agrária
ou o quadro de conflitos no campo pode se agravar
Fazer a reforma agrária no Brasil é uma
das tarefas mais difíceis que o governo Luiz Inácio Lula
da Silva tem pela frente. Não bastasse ter de desmantelar uma estrutura
de enorme concentração de terras do país, entrando
em confronto com as elites, a administração petista ainda
precisa enfrentar boa parte do Judiciário e dos meios de comunicação
que também se opõe à redistribuição.
Para o professor de Geografia Agrária da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da USP, Ariovaldo Umbelino de Oliveira,
se Lula não corresponder às esperanças que os trabalhadores
rurais depositaram nele, os conflitos tendem a se acirrar, podendo chegar
a uma guerra civil. No entanto, Oliveira, autor de Geografia das Lutas
Sociais no Campo, entre outras obras, acredita que o petista irá
assentar algo em torno de 1 milhão de famílias nos próximos
quatro anos. Leia a seguir os principais trechos da entrevista com o geógrafo.
Lula, MST e a mídia
Para compreender o relacionamento entre o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),
é preciso dizer que o PT e o próprio Lula sempre foram simpáticos
à causa do MST, ou seja, a realização da reforma
agrária no Brasil. Portanto, existe uma relação baseada
numa identidade ideológica entre o movimento social e o partido
político.
A tensão que existe hoje é muito mais produto da mídia
e das elites brasileiras, que não querem e nunca quiseram que fosse
feita a reforma agrária no país. Não têm ocorrido
ocupações de terra no grau que a mídia tem divulgado.
Têm, sim, sido constituídos acampamentos ao longo das estradas,
mas que já tinham sido iniciados antes. Por exemplo, em Pernambuco,
já havia muitos acampamentos em propriedades que foram ocupadas
anteriormente. Uma questão importante que surge daí é
em relação ao papel e ao poder que a mídia desempenha
na formação da opinião pública: via de regra,
sempre a favor das elites e nunca em defesa da maioria da população
brasileira.
A mídia, no início do governo, como porta-voz das elites
do Brasil procurou pautar o que o presidente deveria fazer e não
olhou as propostas do partido para saber o que o governo faria. Assim,
fica parecendo que tudo o que o PT faz é diferente do que iria
fazer, o que não é verdade. O poder da mídia é
algo que tem de começar a ser controlado pela sociedade, porque
não é possível que se diga ou se escreva o que se
tem falado e escrito impunemente.
Justiça elitista e conservadora
O Judiciário é profundamente conservador e anti-refomista
no Brasil, já que é formado por representantes das elites.
Mal o Incra começa a trabalhar, ele e a mídia já
se põem contra as suas ações. A reforma agrária
está inscrita em um artigo da Constituição e em uma
lei que é o Estatuto da Terra. Logo, fazê-la é uma
obrigação dos governantes. Quaisquer que sejam eles. Se
há algum impedimento à reforma, o que tem que ser pensado
não é a Constituição ou o ato do governo,
mas quem está questionando o cumprimento da lei. No nosso país,
infelizmente, acontece tudo ao contrário: quem cumpre a lei é
que tem que provar por que está cumprindo.
A maior dificuldade para o governo é provar que uma terra é
improdutiva, o que pode ser feito em quatro hipóteses: se ela for
improdutiva, se a legislação trabalhista não for
cumprida, também no caso de descumprimento da legislação
ambiental ou se naquela área há cultivo de drogas. Porém,
os proprietários sempre tentam argumentar que a terra é
produtiva, que cumprem a legislação e que o cultivo de drogas
foi feito sem o conhecimento deles. Não se trata de conivência,
mas há um princípio ideológico no Judiciário,
que é profundamente conservador no que se refere ao direito de
propriedade. É mais fácil um juiz compreender que o direito
de propriedade é ilimitado do que reconhecer os limites constitucionais
do direto de propriedade.
O futuro da reforma agrária
Espero que o governo Lula, em seus quatro anos de governo, consiga assentar
algo em torno de 1 milhão de famílias. Com esse cenário,
certamente diminuiriam muito as ações dos movimentos sociais.
Um cenário intermediário seria aquele em que, por diversas
razões, entre elas a dita falta de recursos, se assentasse 500
mil famílias. Com essa perspectiva, ainda teríamos de forma
expressiva a luta dos movimentos sociais pela terra.
O cenário mais pessimista seria o governo Lula não assentar
um número expressivo de famílias. Aí, teria que conviver
com a formação de um número cada vez maior de assentamentos
de terra e com o conseqüente aguçamento da tensão política
entre esse setor latifundiário e os camponeses, que já estão
prestes a um enfrentamento de fato. Aí poderemos estar diante de
uma situação de crise política grave no campo, cujas
conseqüências podem ser um confronto que leve a uma verdadeira
guerra civil.
A responsabilidade do MST
As primeiras ocupações de terra aconteceram em regiões
distintas do Brasil, sem que ninguém organizasse ou coordenasse,
por um movimento desses sujeitos sociais que passam a recusar a miséria
e começam a ver na luta política uma possibilidade para
conquista de direitos. Essas ocupações ocorreram no Rio
Grande do Sul, em São Paulo e no Paraná e são anteriores
à existência do MST, que vai existir de fato e de direito
a partir de 1985, após a reunião das lideranças dos
movimentos dos três estados. Portanto, não é o MST
o responsável pelo início das ocupações de
terra no país. Os responsáveis são, repito, a estrutura
fundiária concentrada e o não cumprimento pelos governos
da Constituição, que determina que se faça a reforma
agrária em terras que não cumpram sua função
social.
Agora, os camponeses não querem mais esperar que a lei seja cumprida.
Eles estão de plantão, atuando politicamente, pois aprenderam
com a história que, se continuarem esperando a reforma agrária,
ela não se faz, como não se fez até hoje. Infelizmente,
uma parte da nossa intelectualidade e conseqüentemente da mídia
trata o movimento social como se aborda um partido político ou
um sindicato. O movimento social tem características específicas.
Ou seja, a liderança não tem o controle da base. Quando
vai ocorrer uma ocupação de terra, não se pede permissão
para a liderança. Enquanto não se fizer reforma agrária,
haverá ocupação de terra neste país, independentemente
da cúpula de qualquer movimento.
A origem dos latifúndios
Não é que as elites tenham medo da reforma agrária.
Elas estão defendendo a propriedade privada da terra que entendem
ser intocável. Antes da Independência do Brasil, a terra
pertencia ao rei, que concedia sesmarias aos chamados homens de bem da
Corte. Esse título de posse só tinha validade se os sesmeiros
ocupassem econômica e produtivamente essas terras. Portanto, ninguém
era proprietário absoluto de um pedaço de chão neste
país.
Após a Independência, as elites trataram de gestar um caminho
jurídico para repor as perdas econômico-financeiras que teriam
com a libertação dos escravos, pois eles eram propriedade
do senhor. Então, criaram, na passagem da escravidão para
o trabalho livre, um caminho para transferir a propriedade privada, que
era o escravo, para a propriedade privada da terra. E para isso fizeram
a Lei de Terras de 1850, também conhecida como Lei Vergueiro, do
senador que era um grande proprietário de terras de São
Paulo.
Essa passagem legal permitiu que, na legislação brasileira,
o título de propriedade se sobrepusesse à posse. Isso quer
dizer que um proprietário pode, sem nunca ter pisado num pedaço
de chão, reivindicar o direito sobre aquela área desde que
ele seja possuidor do título jurídico daquele pedaço.
Isso não aconteceu nos EUA, a legislação norte-americana
junta domínio e posse. Lá, só tem o domínio
quem tem a posse.
Agronegócios
Há dois setores hoje em disputa no governo Lula. De um lado, o
setor dos agronegócios, e não se pode ignorar sua importância,
já que uma parte expressiva das divisas oriundas das exportações
brasileiras vem desse grupo. Do outro, estão os movimentos sociais.
Os grandes proprietários que não têm terras produtivas
querem colar sua ação política ao agronegócio,
tentando demonstrar à sociedade que suas terras são produtivas,
sim. Os latifundiários querem se mostrar representantes dessa área.
Mas é papel do governo e da mídia construir uma separação
desses dois setores, os proprietários de terras que não
usam a terra para produzir daqueles que produzem nas suas propriedades;
o latifundiário que tem a terra apenas com finalidade especulativa
do dono do agronegócio.
No Brasil, a maior parte do agronegócio é realizada nas
médias propriedades e uma parte menor nas pequenas. As propriedades
acima de 5 mil hectares, em geral, não são propriedades
destinadas ao agronegócio. Os dados do Censo Agropecuário
de 95/96, os mais recentes disponíveis, mostram que os estabelecimentos
com mais de mil hectares geraram apenas 21% do valor da produção
agrícola do país, o que demonstra que o papel das grandes
propriedades não é produzir. Para efeito de comparação,
as áreas com menos de 100 hectares, as pequenas propriedades, respondem
por 46% do valor da produção agrícola brasileira
e ocupam 20% da superfície de terras agriculturáveis do
país. Quem ocupa 20%, gerou 46% do valor da produção
agrícola. Quem ocupa 50%, gerou 20%.
Revolução agrária
Governos de esquerda não fazem reforma agrária. Fazem revolução
agrária. A China, por exemplo, transformou todo o sistema. A União
Soviética, no período em que existiu, fez revolução,
não fez reforma agrária, que é uma ação
realizada em países capitalistas. E ela, como o próprio
nome diz, reforma a estrutura existente. Podemos tomar, por exemplo, o
caso da Revolução Francesa, em que o país fez simultaneamente
uma revolução e uma reforma agrária. As terras da
aristocracia foram todas entregues aos camponeses franceses, que suprem
a França em produção de alimentos até hoje.
Os Estados Unidos agiram da mesma forma na Guerra de Secessão.
O Norte impôs ao país uma estrutura fundiária baseada
nas family farms, nas propriedades familiares, contra o regime de escravismo
e de grande propriedade do Sul. O Japão, depois da Segunda Guerra
Mundial, fez a sua reforma agrária e lá não existe
latifúndio. Portugal, após a chamada Revolução
dos Cravos, também fez a sua. O mundo capitalista inteiro fez reforma
agrária. O problema é que as elites brasileiras não
a admitem. É justo, do ponto de vista social, 1% dos proprietários
de terra serem donos de 50% do país?
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