entrevista
O mundo
está muito melhor
Quem diria, Millôr Fernandes, o crítico mais
crítico do país, faz 80 anos garantindo que a vida de hoje
em dia é muito melhor que a de outros tempos
Por Renato Rovai
“E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas.
Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito
menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão
cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as
palavras – reco-reco, tatibitate, ronronar, coré-coré,
tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim. Fui obrigado a tomar uma pílula
anticoncepcional. Agora estou bem, já não dói nada.
Quem é que sou eu? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já
não fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci
aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois, as pontas. Só
muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis
tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções,
todas perdidas. A primeira contra Deus, e ele me venceu com um sórdido
milagre. A segunda com o destino, e ele me bateu, deixando-me só
com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi,
e vim parar aqui.”
Assim Millôr se apresentou aos leitores quando foi fazer uma coluna
na revista Veja, em 1968. Aos 80 anos, completados no último 16
de agosto, Millôr é um dos maiores intelectuais vivos do
Brasil. Já fez dezenas de peças de teatro, traduções
e lançou e colaborou com outras tantas dezenas de veículos
de imprensa. Suas colunas no Pasquim da primeira fase ainda são
lembradas em muitas mesas de bar por quem tem mais de 40. Suas frases
diretas e perspicazes já encantam muitos garotos e garotas que
surfam pela internet e passam pelo Universo On-Line (UOL), onde colabora.
Millôr não gosta de dar entrevistas. Por isso, leitor, aproveite
essa deixa.
Pessimismo ou otimismo
Não sou otimista, mas quando digo aos meus
amigos que estamos vivendo no melhor dos tempos, as pessoas não
percebem. Estamos vivendo num tempo de transição, mas o
mundo nunca foi tão bom. É curioso dizer isso, mas é
verdade. Até 1888 era possível comprar um preto na esquina
e carimbá-lo com o seu nome. Trouxeram de 10 a 15 milhões
de negros da África e era perfeitamente normal. Isso mudou. Mas,
como disse, não sou otimista. A palavra poderia ser, sei lá,
realista. Mas não realista no sentido negativo, porque quando se
fala realista, em geral se quer dizer, “tá tudo fodido e
eu estou vendo a realidade”. Não é isso. Estou vendo
uma realidade em que hoje, no mundo inteiro, tem muito mais gente usufruindo
os bens da vida do que jamais houve. Tem um bilhão de pessoas passando
fome, mas são seis bilhões no planeta. Tem uma classe média
hoje no mundo que, se você for muito pessimista, dá 20% da
população. Você tem dois bilhões, ou um bilhão
e meio de pessoas vivendo muito bem.
Mais perto do socialismo
Quando começam a informatizar tudo, as pessoas
vão perdendo o emprego. Isso me parece evidente. Mas quando você
desemprega milhões de pessoas, na minha visão, ao mesmo
tempo está criando o socialismo. Ou você arranja uma maneira
de distribuir melhor os bens da terra, ou esta porra explode. Nesse momento
está explodindo, mas ou vai explodir de uma vez ou só estamos
num período de transição que pode durar 10, 20, 30
anos. Mas é um período de transição.
Conflitos futuros
Isso eu acho absolutamente imprevisível. É
impossível prever o gesto de um maluco. Não se pode saber
o que aquele doido da Coréia do Norte pode fazer e nem aqueles
filhos da puta dos EUA, não é verdade? A Índia está
lá, o Paquistão está lá. É imprevisível.
Também não é possível prever, se a coisa pegar
em um âmbito mais gigantesco, isso não vá acabar com
o mundo ou com a Terra. Ou chegar à barbárie total de novo.
De qualquer maneira eu acho muito interessante o mundo.
Qualidade de vida
Sempre fiz esporte, inclusive frescobol. Aliás,
fomos nós os cariocas que inventamos esse esporte. Hoje você
tem o skate, que de coisa de vagabundo virou um esporte formidável,
maravilhoso. Eu também vi nascer o surfe na minha porta. Aliás,
hoje já estamos na terceira geração do surfe. Isso
tudo criou um homem novo. Da geração de hoje para a minha
geração, deve ter tido um aumento de estatura de 10 centímetros.
O garoto de 17, 18 anos, bem alimentado, não tem mais cárie.
A expectativa de vida no mundo, que era de 40 anos no início do
século XX, hoje é 80. E eu digo isso porque consulto estatística,
gosto muito de estatística. Todo ano leio o Year Book da Enciclopédia
Britânica. Lá as estatísticas não são
ideológicas. Além disso, nesse período você
praticamente eliminou a dor e criou hábitos de higiene que atingem
todo mundo. Eu me lembro quando fui pra Europa pela primeira vez, em 1952,
hotéis bons só tinham banheiro no corredor. Fui nos dois
melhores hotéis e você tinha um banheiro só para um
monte de quartos.
Tecnologias e TV
Acho que nós sempre estivemos a reboque da
tecnologia. Hoje, as pessoas sabem muita coisa porque a informação
da televisão é muito grande. Você pega um programa
do Faustão, da Hebe Camargo, tem 30 milhões de pessoas vendo.
Uma audiência de 30 milhões. Aí a coisa mais fácil
é você dizer “estão acabando com a cultura.
A TV está acabando com tudo”. Mentira. Essa gente que vê
esses programas está aumentando sua capacidade de comunicação
própria. Elas não leriam Dostoievski nunca. Elas não
seriam carreadas para a chamada alta literatura. Agora o que acontece,
ali mesmo você terá 1% ou 2% ou até 10%, o que é
muita gente, de pessoas que lêem. No terreno prático, não
no terreno subjetivo ou intelectual, você pega a novela que eu não
sei o nome, sobre o Garibaldi, do Rio Grande do Sul (Millôr se refere
à minissérie A Casa das Sete Mulheres), aquele romance não
tinha vendido nada. Mas veio a novela e ele começou a vender. E
muito. Isso significa, pra mal ou pra bem, que muita gente foi levada
a ler também por causa da televisão.
Não às entrevistas
É engraçado. Não vou porque
não vou. Mas não é por princípio, eu não
tenho princípio, tenho horror a princípio. Tenho a minha
vida, de vez em quando brinco, e é verdade, que sou indecentemente
feliz. Moro há 50 anos na praia da Vieira Souto, você entende?
Até hoje, pego meu calção de manhã e vou andar
na praia ou vou para o Jardim de Alá. Depois, vou pro meu estúdio,
vou ver meu programa da internet, vou ver minha televisão, vou
ver o que tenho que escrever. E como sempre as pessoas me solicitando
coisas... Aí eu reajo violentamente. Não quero ser dirigido,
quero ficar com minha vida. Não vou deixar de ir à praia,
de duas vezes por semana receber minha personal trainner. O que eu apareço
dá pra minha satisfação, pra minha vaidade. Por isso
que não aceito certos convites.
Lula
É evidente que a ignorância lhe subiu
à cabeça, não tem dúvida nenhuma. Porque de
repente ele começou a se sentir culto, falar sobre tudo. Já
o nosso amigo Fernando Henrique o que falava de besteira também
não era brincadeira. Eu não votei no Lula, aliás
não votei no Lula determinadamente porque achei que ele ia ganhar
de qualquer maneira. Então votei no Serra pra dar um voto pro outro
lado. Eu também achava que o Tarso Genro era melhor quadro, que
o Cristóvam era melhor quadro. Mas o Lula fincou o pé ali.
O que vai acontecer agora é muito difícil dizer porque a
coisa está muito difícil. A jogada internacional hoje é
assustadora, nenhum de nós sabe o que está acontecendo por
trás daquilo. Eu não tenho nenhuma competência pra
dizer “acho isso ou acho aquilo”. Eu faço especulação.
Capitalismo e mudança
Eu não gosto da palavra revolução.
Em geral todas as revoluções que vi e estudei dão
dois passos pra frente e três pra trás. Se você pegar
aquela história da revolução na URSS, que poderia
ter sido a redenção do mundo, veja no que deu. Se comparar
o socialismo com o capitalismo, o que acontece? O socialismo é
uma idéia tão generosa, tão maravilhosa, essa coisa
de você abrir mão de bens seus para beneficiar gente que
não é seu primo, não é seu irmão, sua
avó, pessoas que você não conhece, é tão
generosa que não pode dar certo. Agora, o capitalismo está
preso ao umbigo do ser humano. O ser humano quer tomar um pouco do outro,
quer ter um pouco mais, quer ter um tapete embaixo dos pés que
custa 5 mil dólares, mas não dá dinheiro pra empregada
botar a filha no colégio. Então são as circunstâncias
de pressão que vão fazendo com que isso mude. Já
modificou muito, não tem dúvida.
Revolução humana
Pode ser que esteja errado, mas acho que a grande
revolução do ser humano foi o dia em que o homem parou e
disse “vou ficar aqui” e descobriu como domesticar o animal
e plantar naquele local. O desenvolvimento da civilização
não é constante, mas acontece o tempo todo. Estamos diante
de milagres. Ninguém mais duvida de que em breve vamos ter um clone
humano. Não sei se é bom, se é ruim, se é
nada. São coisas que mostram que não estamos parados. Que
o mundo está mudando muito.
Rio de Janeiro
A verdade é que no Rio nós vivemos num gueto. Há
uma população que vive muito bem, mas pressionada pelas
circunstâncias sociais que se chama hoje basicamente tráfico
de drogas, com todas as suas implicações. Mas no início
do século XIX o Rio de Janeiro era uma merda. Era um antro de doenças.
Eu acho que, de modo geral, melhorou. Quer ver, hoje o celular presta
um serviço inimaginável ao operário. Antigamente
no Rio, tinha que deixar recado no telefone do bar da esquina e o cara
não dava.
Dor, medicina e Glauco Mattoso
Você pega o progresso que fez a odontologia,
a oftalmologia... É assustador, o cara está operando com
colírio hoje. Dizem que a Mary Stuart com 20 anos, 21, não
tinha um dente. Tem uma história de que a rainha Elizabeth teve
uma vez uma dor de dente e teve que arrancar. Mas ela não queria,
estava apavorada, porque o cara chegava com um boticão. Não
tinha outro jeito. Aí, um lorde, pra dizer que a dor era suportável,
mandou arrancar um dente bom dele. Hoje ninguém duvida que se possa
fazer um clone. A genética, a transgenética, tudo isso é
uma coisa inacreditável de poder. Tem um médico amigo meu
que me garante que daqui a 20, 30 anos a cegueira vai ser uma coisa rara.
Você pega lá em São Paulo, o meu amigo Glauco Mattoso
(poeta) está completamente cego. Ele é um gênio, acabou
de lançar um livro novo, duca, é um louco, né? Um
louco desvairado. Inclusive faz aquela coisa que considero fantasia. Chupa
pé, chupa pé... ninguém chupa tanto pé (risos).
Ele é maravilhoso. Ele fez 300 sonetos camonianos, 300 sonetos...
é maravilhoso. Mas ele não é para aquela senhora
ler (aponta uma mulher na outra mesa). Você dá pra ela ler
“você dever ser enrabado todos os dias...” (risos).
Ele faz isso.
Produção artística e cultural
Eu vou ficar nas artes plásticas, mais controversas,
ou que têm a maior merda evidente. Houve avanço, quando se
saiu da prisão do realismo e se passou pra expressionismo, cubismo
etc. Na música também e na poesia também você
teve aquela coisa da métrica etc. Mas quando você se liberta,
você dá acesso a muito mais gente. E muita gente que entra
pelo ato de audácia de fazer. Porque antigamente, você, pra
fazer um soneto, você tinha que aprender. A poesia evolui até
onde? Você pode dizer que não vai mais fazer aqueles sonetinhos
de antigamente etc. e tal, mas e os sonetos do Augusto dos Anjos, você
não vai fazer? Será que os caras estão fazendo melhor
do que aquelas coisas maravilhosas? Mesmo as coisas mais brandas, como
Olavo Bilac, você pega meia dúzia que são importantíssimos.
Você pega a poesia popular publicitária aqui do Rio, algumas
que ficaram famosas “veja, ilustre passageiro, que belo tipo faceiro...”,
quando eu te digo isso você dá um sorriso, porque imediatamente
afeta. Será que só pode ser importante aquele verso difícil
do Ezra Pound? Há uma poesia popular que te afeta diretamente,
por mais culto, por mais capaz e exigente que você seja. A arte
ficou muito melhor quando se libertou, quando deixou de ser restrita a
mosteiros, quando deixou de ser para alguns. É assim com tudo.
Futebol e raça
Por isso eu não gosto de ficar endeusando
as coisas difíceis, só as grandes. Ou como fazem alguns,
que gostam de futebol, só falam do Garrincha, né, Ruy? (brinca
com Ruy Castro, autor do livro Estrela Solitária, sobre o jogador).
Tem um monte de jogadores bons hoje. Pega o Ronaldinho, ele é um
grande atleta e uma grande personalidade. O Ronaldinho Gaúcho também
é um belíssimo jogador de futebol. Você não
vê ele se desviando pelos caminhos da sacanagem. Tem os mais novos
que ainda estão em julgamento, como o Diego, o Robinho e o Kaká.
Tá aparecendo muita gente boa. É uma coisa que acho curiosa,
nesse aspecto, que é a famosa mistura da raça brasileira,
não é isso? O Ronaldinho que é preto, o Ronaldinho
Gaúcho que é preto. Aí aparece o Kaká e o
Diego. Ninguém fez isso. É o Brasil fazendo isso. Não
é um gueto de brancos e também não é aquilo
de “vamos proteger o pretinho”. Acho que, aliás, hoje
as pessoas já aprenderam que não podem chegar e dar um berro
“e aí, crioulo”, que pode levar uma fubecada. Isso
vai posicionando a questão. Agora, existe raça, as pessoas
agora vêm com essa de dizer que não. As pessoas têm
medo de dizer certas coisas. Uma coisa é raça e outra é
racismo. A diferença genética que existe entre negros e
brancos é enorme. Esse negócio de dizer que é igual,
bobagem. Tem raça sim. Você tá vendo, um é
negro e outro é branco, você tá vendo que são
diferentes, por que fugir disso? Isso não é racismo porra
nenhuma. É não ficar inventando teses para disfarçar,
entendeu? O que diferencia não é dizer que é tudo
igual, é não haver condições sociais iguais,
entendeu?
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