Um estranho no ninho |
Foto Gerardo Lazzari |
Foram mais de 16 mil horas passadas em presídios
femininos de São Paulo desde 1996. Dessa forma, por meio da convivência,
do diálogo e, principalmente, de muita lealdade, o jornalista Antônio
Carlos Prado conquistou a confiança de centenas de internas que
não hesitaram em lhe contar histórias íntimas de
suas vidas, antes e depois de serem detidas.
Do trabalho voluntário de Prado nasceu o livro Cela Forte Mulher
(Labortexto), que apresenta diversos personagens desse desconhecido universo
dos presídidos femininos. A seguir, confira trechos da entrevista
que Prado concedeu à Fórum.
Como é seu trabalho como voluntário?
Comecei no Tatuapé fazendo um jornal de presas e com as presas.
Só corrigia o português, a pauta era delas, elas faziam,
elas rodavam. No primeiro exemplar, já tinha uma página
inteira de cartas, no segundo tinha uma dupla. Elas mandaram o jornal
pra todo mundo e começaram a vir cartas de tudo quanto é
cadeia, de famílias, advogados... A cada número levávamos
alguém pra dar entrevista, não na sala do diretor, mas na
sala de redação dentro do pavilhão, sem segurança.
O primeiro que foi era secretário da Justiça, o Belizário
Júnior, e falou uma frase que virou manchete: “hediondo é
o ato, nunca o ser humano que o praticou”. Várias outras
autoridades se seguiram. Faltou apoio e em 2000, após três
anos, o jornal acabou. Mas eu já estava dentro daquele mundo, cuidando
também da parte de saúde e cultura ligada à reabilitação.
Estou lá até hoje.
E como nasceu a idéia do livro?
Ela nasceu porque elas me pediram para escrever a história delas.
Um fato importante é que muita menina de classe média e
classe média alta está chegando ao sistema prisional. E
é principalmente essas que querem falar com as adolescentes e com
as mães. Tem esse lado pedagógico para as mães, principalmente
nesse momento em que as meninas de classe média estão chegando
e trocam roupa de grife por um uniforme bege com uma naturalidade espantosa.
Como você conseguiu se aproximar delas?
Eu conheço pela data de menstruação umas três
mil internas. Já evitei que meninas fossem para o castigo explicando
pra chefia de plantão ou para a diretora que a presa estava de
TPM. Essa proximidade surgiu da convivência. Todo sábado,
domingo, feriado, folgas na IstoÉ, estou lá. Por conta dessa
dedicação, existe uma troca de afeto entre nós.
É preciso entendê-las. Tive o prazer de pagar diversos tratamentos
dentários. Nada mexe mais com a presa do que a quebra de um dente.
Já vi meninas calmíssimas, que nunca tinham ido pro castigo,
perderem o dente da frente e entrarem em uma depressão duas semanas
depois. Quatro semanas depois estavam em um estado de agressividade que
as levou para o castigo.
Evito trabalhar com certo ou errado, virtude ou pecado, feio ou bonito,
não julgo nunca. Trabalho com aquilo que a pessoa é. Não
me relaciono com patologias nem com artigos do Código Penal. Claro
que sei tudo o que fizeram, elas confiam em mim, mas foram me testando.
Algumas diziam pra mim “olha, naquela cela tem drogas”, pra
checarem se haveria revista naquela cela no dia seguinte. As fiscais da
minha ética são elas.
Anselmo Massad
Cela Forte Mulher
Labortexto, 216 págs., R$ 35)
Contato: tels: 0/xx/11/3864-9899 e 3862-7478
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