terra prometida
A 10 anos depois
Em 13 de setembro de 1993, em Oslo, na Noruega, era assinado
o acordo de paz entre líderes palestinos e judeus... Rendeu até
prêmios Nobel
Por Newton Carlos
Em 1993, o mundo foi surpreendido pela informação
de que israelenses e palestinos, representados pela Organização
pela Libertação da Palestina (OLP), haviam negociado secretamente
em Oslo, capital da Noruega, um acordo de paz. Completados 10 anos desse
evento, o que se vê é uma nova espiral de violência
na qual naufraga mais um projeto de entendimento apresentado pelos Estados
Unidos com apoio da União Européia, ONU e Rússia.
O plano de 1993 previa a criação de um Estado palestino,
a partir sobretudo da resolução de problemas envolvendo
o status de Jerusalém, os refugiados palestinos e as colônias
judaicas em territórios palestinos.
O plano americano de hoje, que conta com endosso meramente formal dos
europeus e pouco peso dos russos e da ONU, entrou em campo com uma única
meta verdadeira, a de acabar com a violência, mas com foco concentrado
nos grupos islâmicos.
Hoje as negociações atendem muito mais a interesses estratégicos
dos Estados Unidos, que procuram reduzir a onda de antiamericanismo entre
os povos árabes, engrossada com a invasão do Iraque.
Israel em nenhum momento reeditou a aceitação formal de
10 anos atrás, de que um processo de negociações
culminasse com o advento de um Estado palestino, idéia central
do acordo de Oslo. Arafat, o negociador de Oslo, foi expulso da mesa por
americanos e israelenses.
Oslo aconteceu por pressão da primeira Intifada, a revolta palestina,
que Israel não conseguiu controlar com sua política de “punhos
de ferro”, de repressão brutal, contra jovens armados de
pedras. Por pressão do mundo árabe, estabeleceu-se o consenso
de que são os territórios palestinos ocupados o coração
da crise no Oriente Médio e Israel acabou concordando com o princípio
da troca de terras por paz.
Pelo acertado em Oslo, para ser consolidado em negociações
futuras, a Cisjordânia e Gaza, ocupadas por Israel em 1967, representando
22% da Palestina original, seriam agrupadas num Estado palestino. Israel
se “contentaria” com 78% do que fora a Palestina sob mandato
inglês, antes da partilha determinada pela ONU. Oslo saiu daí,
foi essa a sua alma.
Criou-se uma Autoridade Palestina (AP) e foi instalado em Gaza um governo
autônomo. Depois de anos de negociações “passo
a passo”, exaustivas e exasperantes, e da violência em escaladas
sucessivas, por volta de 80% das terras ocupadas militarmente em 1967
continuavam em mãos de Israel, em parte ou totalmente. Nenhum ponto
de conflito mais sério foi superado. Jerusalém ficou imobilizada
como algo “intratável” em discussões sobre seu
status. Seguidamente Israel reocupa áreas e afinal constrói
um muro separando palestinos e israelenses, o que sepulta qualquer pretensão
voltada para um Estado palestino.
A idéia de um “grande Israel”, que se pretendia sepultada
por Oslo, permanece viva e ativa, com as 200 colônias judaicas intocadas
em territórios palestinos. O tom dominante é de expansão
e não regressão.
O pacifista judeu Uri Aveneri denuncia que o primeiro-ministro israelense
Ariel Sharon “se empenha em acabar com Oslo e desmantelar a AP desde
que assumiu o poder”. Não se trata de suprimir a violência
palestina, acabar com os suicidas-bomba, as justificativas oficiais para
as incursões militares. Sharon quer destruir a própria noção
de entidade palestina e instituições que possam ampará-la.
Nada de redividir terras. Por isso encurralou Arafat.
Conta com a força (Israel tem um dos melhores exércitos
do mundo) e um surpreendente conformismo árabe. “Precisamos
decidir se a Palestina continua sendo ou não o nosso problema central”,
escreveu um influente jornal libanês. A capitulação
diante de Israel, continuou o jornal, “parece total”, líderes
árabes “se mostram resignados em sua impotência”.
Há resoluções da Liga Árabe “exigindo”
o reconhecimento de um Estado palestino, de acordo com Oslo. Há
declarações e discursos de apoio à causa palestina
e de condenações da violência, do cerco e da marginalização
de Arafat. Muita retórica e praticamente nada de atos concretos.
Há, no entanto, mudanças importantes. Há menos de
30 anos Golda Meir, ex-primeira-ministra de Israel, negava que os palestinos
existissem como povo. Hoje nem Sharon nega. Mesmo assim a questão
palestina continua vigente e incandescente. Não foi solucionada
com a definição das fronteiras de um Estado palestino, como
prometia Oslo.
Há 10 anos houve um festival de celebrações prematuras
envolvendo os heróis de Oslo, agraciados com o Nobel da Paz. O
ex-primeiro-ministro Rabin, de Israel, acabou assassinado por um judeu
ortodoxo fanático, partidário do “grande Israel”.
Seu ministro do Exterior, Shimon Peres, tornou-se figura secundária
da política israelense e até avalizou o primeiro governo
de Sharon, reeleito como expressão da linha dura e anti-Oslo, dominante
em Israel. A subordinação a Sharon selou a decadência
de Peres, um dos heróis da época. Hoje em dia Oslo sequer
é mencionada no noticiário da crise. É como se nunca
tivesse existido.
Arafat, o Nobel do lado palestino, depois de encurralado num gabinete
da AP em Ramalá, teve de aceitar a criação no governo
autônomo, do qual é presidente, do cargo de primeiro-ministro,
que faz a interlocução com Israel e os americanos, que ignoram
Arafat.
Rabin encarava o “grande Israel”, definido por “fronteiras
bíblicas”, como alucinação. Antes de tombar
assassinado, estabeleceu como meta de Israel enquadrar-se como um “Estado
judaico”, secular, uma entidade não religiosa e em boa vizinhança
com uma “entidade palestina”, como foi estabelecido em Oslo.
A AP só conseguiu a devolução de mais ou menos 20%
das terras ocupadas em 1967. O restante continuou sob controle total de
Israel ou sob administração conjunta. As incursões
militares de Israel são tantas e tão profundas, em toda
a geografia palestina, que a AP mais parece uma entidade fantasma.
Além disso as áreas palestinas não são contíguas.
São como manchas separadas umas das outras. Entre elas circulam
livremente as forças israelenses de segurança. Lembram os
bantustãos da África do Sul nos tempos do apartheid.
Nessas manchas se instalaram 200 colônias judaicas protegidas pelo
Exército de Israel. Como criar um Estado palestino em cima de obstáculos
que se mostram inamovíveis? A impressão hoje é a
de que Oslo, apesar do foguetório, nasceu morto. Intelectuais palestinos
do peso de Edward Said há 10 anos dizem isso.
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