especial palestina A situação imposta aos palestinos é comparável ao regime de segregação sul-africano, e Yasser Arafat, mesmo longe de ser o líder ideal, ainda é reconhecido por todos os palestinos e a única alternativa consolidada por Anselmo Massad* Abdul Aziz Rantissi, líder do Hamas, havia sido assassinado no sábado, dia 17, na cidade de Gaza. No domingo, dia 18 à noite, o presidente da Autoridade Palestina (AP), Yasser Arafat, abatido, recebia as condolências ao lado dos membros do parlamento palestino. No auditório de seu quartel-general, centenas de pessoas passaram pela sala, ao som de trechos do Alcorão continuamente reproduzidos. Atrás de Arafat, cartazes de Rantissi com fuzil em punho e de Ahmed Yassin, morto 28 dias antes. Era o primeiro encontro com o presidente palestino na Muqata, local onde está preso há três anos. Numa primeira observação, parecia que ele manifestava publicamente a relação com o Hamas, grupo acusado por Israel e pelos EUA de terrorismo – e, por isso, responsabilizado pelo estancamento das negociações de paz na região. A relação existe, mas não é de apoio como se perceberá mais tarde. A reportagem da Fórum acompanhava a a delegação brasileira de quatro deputados coordenada por Jamil Murad, do PCdoB-SP (os outros parlamentares eram Vanessa Grazziotin, PCdoB-AM; Nilson Mourão, PT-AC; e Leonardo Matos, PV-MG), outros dois jornalistas, e os organizadores da visita, o presidente da Confederação Palestina Brasil, Farid Suwwann, e o embaixador da Palestina no Brasil, Musa Amer Odeh. A viagem havia começado em Omã, capital da Jordânia e seguiu para os territórios palestinos por terra. A fronteira com Israel deu uma pista do que observadores internacionais passam na região – especialmente em territórios palestinos ocupados – mas nem de longe dava a dimensão do que sofrem os palestinos para circular em seu próprio território que ganha contornos de Apartheid. A comparação com o regime sul-africano vem sendo feita por diversos ativistas palestinos, israelenses de grupos da esquerda e observadores internacionais. Um desses ativistas merece destaque: a ministra das Relações Exteriores da África do Sul, Nkosazana Dlamini Zuma. Em sua visita à Palestina em meados de abril, ela declarou que o que viu nos territórios ocupados não ocorreu nem em seu país nem em nenhum outro da África. Ainda que analogias entre violações de direitos humanos ou de resoluções da ONU sejam pouco precisas e produtivas, ela ajuda a entender o impacto que o muro e as barreiras de controle – dentro do contexto da ocupação, da desproporção de forças e do massacre – têm na vida dos palestinos. Mustafá Barghouti, diretor da Health, Development, Information, and Policy Institute (HDIP), uma ONG que congrega redes de entidades, é outro que levanta a comparação. “Israel é um Estado já extremamente próximo de se tornar, como a África do Sul de antigamente, um pária entre a comunidade internacional”, afirma em artigo publicado pelo Planeta Porto Alegre. “Se não fosse pelo veto dos EUA, é quase certo que estaria enfrentando sanções”, completa. O embaixador Odeh, de passaporte palestino (ainda que diplomático, o que deveria garantir facilidades de trânsito) teve de passar por um processo todo separado na fronteira, por guichês com poucos atendentes e muita gente esperando, junto de todos os palestinos que se atrevem a enfrentar as filas e a boa vontade dos soldados israelenses na fronteira. Os que tinham sobrenomes árabes passavam apenas por um (ou três) interrogatórios. O repórter teve apenas que aguardar que uma das malas recebesse uma inspeção detalhada. O sobrenome Massad é encontrado tanto em famílias árabes quando judias, o que facilitou a vida do repórter da Fórum. “Coloque sua mala sobre a mesa e apenas faça o que o oficial pedir”, orientou o soldado israelense que coordenava a vistoria das bagagens. Enquanto o exame se prendia à análise minuciosa de meia dúzia de livros sobre a questão palestina contidos na mala, uma equipe de TV do leste europeu reclamava das quatro horas e meia perdidas na revista do material (câmeras, computadores e aparelhos eletrônicos são conferidos com atenção redobrada), sem sinal de liberação. Ao sair com a mala, o repórter pôde ouvir um soldado com o cabelo raspado e carregando um fuzil chamar de lado o membro mais irritado da equipe de TV, e em tom calmo, mas incisivo, dizer: “Nós suspeitamos de todo o mundo”. Para os palestinos, atravessar a fronteira significa muito mais tempo, com uma dose calcada de humilhação. Mas nem é preciso sair dos territórios ocupados para receber esse tratamento. Tanto pela Faixa de Gaza quanto pela Cisjordânia, há mais de 70 barreiras de controle (checkpoints) e 600 bloqueios de ruas. Enquanto as primeiras ficam instaladas nas entradas e saídas das cidades palestinas, as outras são postadas no meio delas, restringindo ainda mais a circulação dos palestinos em sua própria terra. Atentados, violação dos direitos humanos,
ocupação... *Anselmo Massad esteve na Palestina de 18 a 23 de abril a convite de uma delegação da Câmara dos Deputados |