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A Liberdade e Luta chegou ao poder
POR GLAUCO FARIA E THALITA PIRES Olíder revolucionário León Trotsky, inspirador de uma linha do comunismo, é uma figura praticamente apagada de qualquer discussão política que envolva altos mandatários do planeta – apesar de suas idéias ainda respirarem (com aparelhos) em vários partidos de esquerda mundo afora. Ele foi expulso da Rússia e assassinado a golpes de picareta há mais de seis décadas por ordem de seu arqui-rival Josef Stálin, no exílio no México. No Brasil, historicamente, o trotskismo nunca foi dominante entre as trincheiras da esquerda. Mas muita gente graúda hoje do governo federal já teve corações e mentes ocupadas pelas idéias do líder. Para começar por cima, o grão-mestre Antonio Palocci, ministro da Fazenda, Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicações, Clara Ant, assessora presidencial, Glauco Arbix, presidente do Instituto de Política Aplicada (Ipea), e Eugênio Bucci, presidente da Radiobrás, são alguns deles. Vários membros do segundo escalão, como secretários e chefes de gabinete também entraram na política em função do socialismo defendido por Trotsky. Para ser mais específico, eles fizeram A Libelu era diferenciada em vários aspectos. Formada por estudantes universitários e secundaristas, foi fundamental para a reorganização do movimento estudantil no fim dos anos 70, essencialmente em São Paulo. “Os ingressantes da OSI “Os integrantes da OSI tiveram um papel importante no movimento estudantil, na reorganização da UNE (União Nacional dos Estudantes), na luta pelas liberdades democráticas. A Libelu era uma tendência que atraía milhares de estudantes. Centenas deles entraram na OSI”, orgulha-se. “Estudávamos e discutíamos marxismo nos GER; líamos Marx, Engels, Lênin e Trotsky”, relembra Tita Dias, vereadora de São Paulo. “Nesse processo, éramos avaliados e, se aprovados, Atrasos aos pontos (ou encontros) eram imperdoáveis, mas algumas vezes, os aspirantes eram levados às reuniões com os olhos vendados, sem saber o caminho. “De tempos em temos havia a escola de quadros, para reciclagem dos integrantes”, completa Tita. O rito de passagem tornava tudo mais sério. Não que antes fosse apenas gandaia, mas, para muitos, o que valia a pena mesmo na Libelu eram as festas da corrente. Ao contrário do resto da esquerda da época – inclusive de tendências estudantis rivais, como a Refazendo – a música internacional não era abolida ou proibida. “A Libelu tinha todo um charme, um carisma muito grande dentro do movimento estudantil”, gaba-se a socióloga Lúcia Pinheiro, ingressante na Libelu em 1976. “Nossas festas eram muito comentadas, porque ouvíamos rock. Na Refazendo e na Caminhando só se ouvia MPB, Chico Buarque. Eles eram muito sisudos”, avalia. O som da Libelu incluía Black Sabbath, Pink Floyd e Rolling Stones. “A tendência tinha uma relação muito libertária com a estética”, opina Eugenio Bucci, atualmente na presidência da Radiobrás. “Existia um grupo, o Viajando sem Passaporte, que fazia críticas fantásticas à musica engajada. Não passava na cabeça de ninguém que o rock pudesse ser uma coisa imperialista”, conta. As diferenças da Libelu iam além da música. Sua postura em relação à moral era bem flexível para os padrões celibatários que alguns setores da esquerda sustentavam à época. “A Libelu era muito mais interessante. As meninas eram mais bonitas e inteligentes, os meninos eram mais interessantes, e tinha um clima de liberação sexual muito grande. Éramos muito Apesar da liberalidade no aspecto sexual, a tendência tinha restrições ao uso de drogas. Os integrantes eram totalmente proibidos de consumir qualquer tipo de entorpecente ilegal. “Não existia um problema moral em relação às drogas, mas Vôo mais alto A Libelu tinha uma atuação que começou a se tornar mais influente no meio estudantil quando sua chapa disputou e venceu as eleições para o DCE da USP em 1978. A partir daí, sua linha de atuação virou referência para vários movimentos O status mais elevado da Libelu levava também às alturas o cartaz da OSI, que adquiria um papel de relevância dentro da esquerda. Um momento-chave foi a chapa vitoriosa do Sindicato dos Bancários de São Paulo na eleição de 1979 com membros da organização na composição do grupo. A eleição representou o fortalecimento do braço sindical da organização. À época, o chamado bureau político da OSI, que centralizava as decisões importantes e comandava os rumos do Outra figura da direção era o franco-argentino Luis Favre, hoje um dos coordenadores da campanha de sua atual esposa, Marta Suplicy, à prefeitura de São Paulo. Ele fazia a comunicação entre a OSI brasileira e o grupo lambertista na França, o qual financiava e ditava as ordens da Quarta À época, os ditames que vinham da França eram bastante claros: o grupo deveria lutar pela fundação de um partido operário. “Fomos os primeiros a pensar na organização de um partido de trabalhadores, e queríamos também a fundação de Marcus Sokol confirma o esforço, lembrando a campanha pelo voto nulo em 1978: “O jornal O Trabalho defendia o slogan: ‘Nem Arena nem MDB, voto nulo por um partido operário’.” Se esse era o objetivo, nada mais natural que, com a fundação do O ímpeto juvenil deturpava um pouco a visão do processo político. Prova disso é que, certa vez, fechada a questão de que Lula de fato era um pelego, alguns militantes da Libelu foram panfletar contra o líder sindical no ABC, mais especificamente na Vila Euclydes, em São Bernardo do Campo, palco das históricas reuniões de metalúrgicos. A recepção foi bem diferente do que os libelus esperavam. Depois de muito tentar, saíram corridos, perseguidos por operários que não digeriam bem a idéia de seguirem um pelego. A referência no movimento sindical para muitos integrantes da corrente era um metalúrgico chamado José Ibrahim, líder das incendiárias greves na Cobrasma em Osasco, em um dos momentos mais rígidos do regime militar, no fim dos anos 60. Exilado, Ibrahim foi recebido como uma grande esperança à época da Anistia, mas logo se distanciaria de seus novos companheiros. Lula era a única referência válida para o meio sindical naquele momento. PT e a separação E foi dentro dessa realidade que, com a fundação do PT, a OSI e a Libelu passaram a discutir a entrada ou não no novo partido. “Em 1978 fiz a campanha por um partido operário. A Libelu ficou meio receosa, mas como eu era sindicalista, acreditava no PT. Uma parte dos quadros da tendência entrou direto para o PT, até para saber como era, e depois a OSI aderiu de vez”, lembra Tita Dias. Dentro do PT, a OSI se transformou na corrente O Trabalho e passou a ser uma das inúmeras tendências políticas que compunham o partido. Ali, as divergências começaram a aumentar entre os membros, ainda mais quando se discutiu a dissolução da corrente para entrar na Articulação em 1986. As orientações do grupo lambertista francês eram para que não fosse feita a dissolução, por isso houve uma cisão. Um episódio demonstra bem como já eram tensas as relações entre os membros da OSI. Lula convidou Glauco Arbix, um dos líderes da corrente, para discutir a dissolução. Conversou, propôs, e o sociólogo saiu dali com a tarefa de conversar com os demais membros e estudar as saídas sugeridas. Arbix foi desautorizado pelo grupo mais radical, que disse que ele não tinha representatividade sequer para negociar. Acisão foi inevitável. Gente como Marcus Sokol e Julio Turra permaneceram fiéis à corrente, ou ao que restou dela, enquanto Arbix, Clara Ant, Antonio Palocci e outros abandonaram o barco para entrar na tendência majoritária de Lula. “Eles queriam um partido dentro do partido, não entendiam que estar dentro do PT era fazer a opção pela via institucional”, critica José Rocha Cunha, um dos que abandonaram a corrente O Trabalho. Marcus Sokol ainda é um remanescente daquela época. Segue fiel à bandeira trotskista e ainda acredita no socialismo internacionalista. “A Quarta Internacional tem hoje muito mais influência do que na sua fundação há 30 anos. Está presente em 46 países, impulsiona a corrente Acordo Interno dos Trabalhadores e faz campanha contra a ingerência dos EUA na Venezuela”, atesta. Hoje, ele enxerga o PT ameaçado ao deixar de lado suas bandeiras históricas. “A Lei de Responsabilidade Fiscal prioriza os bancos, e não o povo. Essa inversão de prioridades ameaça o Partido. O Orçamento participativo, por exemplo é uma cooptação. Não há soberania para o aumento da receita, nem para questionar despesas que não sejam da vontade popular. Esse mecanismo reparte migalhas entre os movimentos sociais, para decidir o que não vai ser feito. Isso traz o esvaziamento do movimento reivindicativo. Com o governo eleito é a mesma coisa, mas é possível trocar de dirigente por meio do voto, o que não acontece com o mecanismo do orçamento participativo”, acredita. “Hoje o internacionalismo não tem cabimento, e o PT é uma referência ideológica e de ação tanto aqui quanto para outros países”, rebate Luis Favre. Como os outros ex-membros da OSI, ele reconhece a importância histórica da organização. “Ela lutou pela redemocratização e pelo restabelecimento das instituições”. Para a maior parte dos ex-libelus e ex-OSI, o grande legado deixadopelos anos de militância foi a capacidade de disciplina e de organização. “A questão do método, de pensar e planejar, foi algo que só se viria a ver de novo em grandes empresas privadas. Aquilo era único em termos de movimento político”, orgulha-se Eugenio Bucci. “A militância ajudou muito na formação teórica e na atuação política, tanto que hoje a maioria está muito bem em suas profissões”, defende Lúcia Pinheiro, que completa: “ainda hoje, a imagem que as pessoas |