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E N T R E V I S TA “Quero o gol de bicicleta” Um dos principais nomes do movimento negro brasileiro, o POR NICOLAU SOARES Doutor em administração pela USP, Hélio Santos é um dos principais intelectuais negros do Brasil. Atento estudioso da questão racial, suas análises são carregadas de um tom radical muitíssimo bem sustentado. Nesta entrevista, Santos vincula o subdesenvolvimento Brasil e EUA Para se falar da diferença do racismo entre os países, é preciso falar da diferença entre as sociedades. A sociedade norte-americana é anglo-saxã e birracial, ao passo que a brasileira é ibérica e multirracial. Vários autores dizem que nossas origens étnicas são complexas. O português constituía um tipo de europeu diferenciado, Um lado diz que não discrimina e outro diz não ser discriminado. Nos EUA houve um apartheid, originalmente, que gerou avanços. Não reivindico o apartheid oficial para o Brasil, afinal, temos aqui um que funciona de uma maneira sofisticada de fazer isso. Pesquisa recente revela que a possibilidade de um negro morrer de maneira violenta é cerca de 90% mais alta do que entre não-negros. A diferença entre ser branco ou negro pode ser a diferença entre estar vivo ou não. Apesar da relevância do tema, ele não tem o mesmo peso aqui. Nos EUA, o objetivo é tornar a situação visível, para se ter de pensar em remédio, enquanto aqui o que ocorre é a invisibilidade. Espelho negro Participei, há 10 anos, de uma banca de mestrado de uma candidata que avaliou a auto-estima de crianças negras de 4 a 6 anos, não alfabetizadas. Ela aferiu que as meninas negras se identificavam como loiras. Ao ver fotografias de meninas negras, elas tinham uma crise de identidade. As conclusões do estudo é que as crianças são muito mais atentas do que as pessoas imaginam – o que todo educador já sabe – e que as crianças no Brasil começam a ver televisão muito cedo. No momento em que ela fez a pesquisa, as três apresentadoras As crianças brancas dos EUA sabem que os negros podem ser artistas, ocupar diversos postos da sociedade. Quando adultas, podem ser racistas, mas terão de respeitar os negros. O Brasil, contraditoriamente, não tem ódio racial, mas o negro tem muitas dificuldades concretas de se inserir socialmente. O modelo aqui precisa quebrar com a invisibilidade e com consensos muito pesados.] O motor do Boeing A eficácia do racismo brasileiro está exatamente aí. Enquanto uma gota de sangue negro torna negro o norte-americano, aqui, uma gota de sangue branco, torna branco o negro. Essa diferença, com a autoestima Um país com meio milênio, dos quais os negros passaram 354 anos sob a escravidão e 116 de subcidadania, é um tempo muito grande, o que acabou anestesiando a todos. Isso tudo impede que o Brasil decole, faz com que o país seja um Boeing 747, com dois andares, enorme, mas que não decola porque o Na imprensa, pegue os artigos contra as cotas, tire o nome do autor, e misture. Você nunca saberá qual artigo é de quem. É um consenso monolítico que anestesiou o Brasil. Fim da invisibilidade Sempre se traz o tema da pobreza, dez entre dez cientistas sociais acham que é a questão da pobreza, sob o raciocínio: “Se a maioria dos pobres são negros, vamos combater a pobreza”. Um branco pode ser pobre por falta de sorte, mas nunca porque os bisavós, tetravós foram escravizados. O volume de brancos pobres está aí por causa da exclusão dos negros, e a inclusão do negro não tem como deixar esses brancos de fora. A questão do negro não é o problema, é a solução. Florestan Fernandes me disse, há 20 anos, que era um equívoco acreditar que o negro vai se salvar sozinho, porque quando o negro se colocar, vai salvar o resto da população junto. Ele tinha razão. O modelo de desenvolvimento que se pensa não tem como deixar o branco pobre de fora. Quando se começou a discutir políticas de ação afirmativa para a população negra nas universidades, entendeu-se logo que apenas os negros da escola pública deveriam ser beneficiados, porque as cotas não são uma proposta para a classe média negra (que é pequena, Também para o lado de cá Ao imigrante europeu foi dado terras e apoio. São ações afirmativas, porque se premiava quem estava em desvantagem. Ter trazido quase todo tipo de europeu – germânicos, ibéricos – e depois árabes, orientais, na minha avaliação, fortaleceu a cultura brasileira. O que se fez para esses grupos europeus parece-me que foi correto. O escândalo é que não se tenha feito nada no dia 14 de maio de 1888 e que hoje, mais de um século depois, quando se pensa em políticas de inclusão, algumas tímidas, há todo esse alvoroço. Políticas de ação afirmativa buscam compensar grupos que estão em desvantagem. Elas já existem:o que é a política de desenvolvimento industrial ou o Proer? É beneficiar Sucesso norte-americano Nos EUA, há exclusão e discriminação, mas há esforço de inclusão, e aí está a chave do crescimento do país. A insuficiência é inegável, porque não incluiu tão bem os negros quanto os brancos; mas pegue a pesquisa feita pela Ivy League, uma associação americana formada pelas principais 28 universidades do país. Um estudo paciente e exaustivo examinou a situação de 80% dos 45 mil negros que se beneficiaram das ações afirmativas, entre 1976 e 1989, e que responderam à pesquisa. Os alunos têm notas um pouco abaixo do que os brancos, porque vêm de famílias mais pobres, de escolas piores. No entanto, os negros formados fazem mestrado e doutorado numa proporção maior do que entre brancos, sobretudo em dois cursos que nos EUA têm muito prestígio: medicina e direito. O mais interessante vem Cotas e qualidade Na UERJ, entre os cotistas, a parcela de aprovados em todas Vou falar sobre qualidade. A universidade brasileira não tem qualidade, independentemente dos vestibulares, porque não conseguiu decifrar este país. Conseguiu desenvolver tecnologias modernas, mas não sabe o que é a inclusão. A Saída de emergência As políticas de ação afirmativa são emergenciais, não devem durar mais do que 30 anos, que é o tempo para se reduzir o fosso social – que na verdade é quase exclusivamente racial. Aí, poderemos ter uma sociedade mais homogênea, com oportunidades mais iguais. Temos de admitir que somos um mosaico e que somos mais ricos por isso. O Brasil precisa desenvolver o gol de bicicleta, criado por um jogador brasileiro, negro, Leônidas da Silva (em 1931). As regras do jogo criadas Os britânicos não previram isso. Ele pegou as regras e adaptou à nossa realidade. É isto que peço ao ministro Palocci: fazer o gol dentro das regras internacionais, mas com nossa criatividade, e dentro da nossa realidade. Revolução cultural Sim, vai ser criada uma classe média negra. Quem critica isso são setores da esquerda, mas a política de ação afirmativa não é de revolução. Haverá inclusão, porque a capacitação é importante. E aqui nem essa elite existe. Alguém conhece um grande empresário negro, um banqueiro negro, um dono de rede de supermercados? Há uma classe média baixa, que representa 10% da população negra. E essas políticas também potencializam o mercado interno, melhora a distribuição de renda e o IDH. A questão é que o negro tem acesso às políticas sem qualidade, mas não às que têm, como a universidade pública. O que reivindico é uma revolução cultural. Só com dinheiro a qualidade do ensino público não será equiparada com a do particular. O mesmo vale para a saúde. Quero que a discussão vá para além das cotas, para um modelo de desenvolvimento para os negros. Sem o governo O que se conquistou se deve ao movimento social negro e não ao governo. O governo Lula mandou a proposta para o Congresso e não por Medida Provisória, alegando que se trata de um tema polêmico. Mas dar status de ministro ao presidente do Banco Central ou taxar inativos também é. É falta de vontade política. A proposta não é totalmente Além disso, temos de começar com as empresas estrangeiras, que já adotam políticas de diversidade. Os executivos americanos e, sobretudo, europeus não adotam essas políticas em suas filiais daqui por causa dos diretores brasileiros. Quero começar por essas, as mais importantes.
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