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Chávez sabe por que ganhou
A história da Venezuela está por trás da enorme diferença de votos que garantiram a continuidade do atual governo. E de suas propostas de transformação
POR RENATO ROVAI
Especial de Caracas
A eleição de 15 de agosto na Venezuela foi uma das mais
fiscalizadas, zeladas e participativas da história recente.
Foram às urnas 68% dos eleitores registrados, sendo que
lá o voto é facultativo. Nos EUA, vale a mesma
regra. A disputa em que George Bush ganhou
de Al Gore foi uma das que mais atraiu
eleitores nos últimos tempos. Houve 48% de abstenção.
Para votar, cada venezuelano passava primeiro
por uma máquina eletrônica de identificação
por meio de impressão digital. Após
o registro, que evitava o voto com identidade
falsa, ia-se a urna eletrônica e se fazia a opção.
Nesse caso, era Sim ou Não. O Sim significava
que a pessoa queria o que o mandato
do presidente fosse interrompido. O Não garantia
continuidade a Chávez. Para confirmar
o que havia sido digitado, o aparelho imprimia
o comprovante do voto. Após verificar se
estava correto, o eleitor o depositava numa urna
tradicional. Por conta de todos esses mecanismos
de segurança a votação foi lenta e um
tanto confusa. As filas chegavam a tomar de
10 a 15 horas dos votantes.
Mesmo assim, de um total de 14 milhões de
cadastrados, 9,6 milhões votaram no dia 15.
E 80% passaram pelo ritual das urnas eletrônicas,
para apenas 20% o voto foi manual. A
oposição, inconformada com o resultado, gritou
fraude e solicitou que fosse feita uma auditoria
cotejando o resultado das urnas eletrônicas
com os comprovantes depositados nas
tradicionais. Alegava que as urnas eletrônicas
haviam sido programadas para computar mais
votos Não do que Sim.
O Centro Carter e a Organização dos Estados
Americanos (OEA), que acompanhavam a
votação como observadores internacionais, defenderam
que as dúvidas fossem esclarecidas.
A Comissão Nacional Eleitorial (CNE) aceitou.
Foi sorteada em todo o país uma amostra
num total de 160 mil votos. Recontados, houve
discrepância de 0,02% no resultado. Nada,
se comparados aos 1,75 milhão de votos de diferença
entre as opções. Os que votaram pela
continuidade de Hugo Chávez somaram 5,62
milhões de votos, contra 3,87 milhões dos que
desejavam sua saída, ou 59,3% a 40,7%. Esse
processo foi fiscalizado por 300 observadores
do Centro Carter e da OEA, além de 100 personalidades
representantes de outras organizações internacionais.
“Bem.... acho que o resultado da eleição na
Flórida poderia ter sido outro”, respondeu
com um sorriso o ex-presidente Jimmy Carter,
do partido democrata dos EUA, quando
questionado se George Bush seria presidente
se as eleições norte-americanas tivessem sido
como aquela na Venezuela.
O registro acima se faz necessário. Mesmo
com todos os elementos apresentados, a oposição
venezuelana continua atacando Chávez
como ditador e afirmando que seu governo
não tem legitimidade. Mais do que isso: acusam-
no de ter fraudado o processo eleitoral,
mesmo sem provas e contra todos os relatórios
dos observadores internacionais.
O grupo conta com a mídia comercial de lá
e de outros países. Se o tom da cobertura não
embarca em exageros semelhantes aos que levaram
quase todos os veículos a ser coniventes
com o golpe militar de 11 de abril de 2002,
ainda faz de conta que a democracia venezuelana
é menos legítima do que em outras partes
do mundo.
Participação que arrepia
Imagine um país onde praticamente toda a
população discute e participa da política com
mais informação e paixão do que o brasileiro
do futebol. Parece impossível, mas é assim na
Venezuela. Do grande empresário ao trabalhador
do comércio de rua a política é hoje o
principal esporte do país. Na semana que antecedeu
o plebiscito, tanto os chavistas como
a oposição convocaram passeatas em Caracas.
Ambas foram enormes e animadas com
mais de 200 mil pessoas.
E se Chávez continua à frente do governo,
mesmo contra todos os veículos de informação
local e contra a quase totalidade do empresariado
e da classe média alta, isso se deve
ao fato de que há ao seu lado um imenso
movimento popular, que supera a organização
daqueles que querem o fim do seu governo.
Hugo Chávez afirma em quase todas as entrevistas
coletivas à imprensa que concede não
ser ele a causa desse processo que acontece na
Venezuela, mas conseqüência. E tem razão.
23 de Janeiro
Juan Contreras, de 39 anos, é da Coordenadoria
Simon Bolívar do bairro 23 de Janeiro, um
dos mais pobres de Caracas e onde vivem
aproximadamente 500 mil pessoas. A Coordenadoria
é uma associação de moradores,
mas é mais atuante na organização do movimento
popular do que as similares brasileiras.
Juan é a principal liderança. Sujeito simples,
moreno, estatura média, um pouco mais
forte do que o padrão, criado no local. Diz ter
assistido desde criança a formação do movimento
político que resultou em Chávez e garante
que a revolução bolivariana que acontece
hoje no país é fruto da luta que passou pelo
23 de janeiro. Juan, como muitos venezuelanos,
é professor em política.
“O bairro nasceu na ditadura de Marcos Pérez
Jimenez e foi batizado de 2 de Dezembro”,
conta. Tanto seu primeiro nome, como
o atual tem que ver com a política do país.
“Foi em 2 de dezembro de 1953 que Peréz Jimenez
deu o golpe de Estado que o manteve
no poder até o dia 23 de janeiro de 1958.”
O bairro é singular. Ao todo, são 98 edifícios,
42 de quatro andares e 56 maiores, com
14. São conjuntos habitacionais populares,
semelhantes às construções da época do Banco
Nacional da Habitação (BNH) no Brasil. Adiferença
é que entre esses conjuntos, misturam-
se aproximadamente oitenta vilas de casas
simples, construídas de maneira desorganizada
por moradores de baixa renda.
“Quando o Peréz Jimenez inaugurou esses
prédios no dia 2 de dezembro de 1957, para
marcar o quarto ano de seu período na presidência,
não imaginou que já no dia 23 de janeiro
daqui desceriam algumas centenas de
moradores até o Palácio de Miraflores para
ajudar a derrotá-lo”, explica Juan. “E nem na
década de 60, o pessoal da AD (Ação Democrática,
partido que se alterou no poder com
a democracia cristã – Copei – desde 1958 até
a vitória de Chávez, em 1998) tinha idéia de
que rapidamente se organizasse a partir daqui
um movimento de resistência ao governo deles”,
afirma.
O primeiro movimento de resistência a que
se refere é o Movimento da Esquerda Revolucionária
(MIR). Ele foi criado por um setor
da juventude da AD que se negou a aceitar um
pacto de governabilidade, após a derrocada
de Jimenez, que isolava setores de esquerda,
incluindo-se aí o Partido Comunista, integrante
da articulação vitoriosa.
“Eram os anos da revolução cubana, e os
EUA tinham muito receio de que outros países
na América Latina se aproximassem do
comunismo”, analisa Juan. Inspirados no movimento
cubano de chegar ao poder por meio
da luta armada, muitos jovens venezuelanos
recorreram às armas e começaram a conspirar
contra o governo. Esse setor da esquerda se
articulava com parte das Forças Armadas. No
entanto, duas insurreições contra o presidente
Rómulo Betancourt, em 2 de maio – o Carapunazo
– e em 4 de junho – o Porteñazo – foram
derrotadas.
Os sons e a vista da colina
A família Guerrero vive numa casa bela e
confortável localizada em um condomínio fechado
na parte rica de Caracas, no alto de uma
colina. À noite, os sons dos animais campestres
dão um ar bastante bucólico e aprazível ao ambiente.
Avista é completa da cidade. Em vez de
janelas convencionais, a fachada interna é toda
de vidro. É possível ver as luzes da cidade enquanto
se toma um gole de rum na mesa de jantar.
É gostoso ler o jornal sentado às cadeiras
delicadamente espalhadas num canto da sala de
visitas. Nesses momentos, as portas-janelas de
imensos vidros podem se abrir e, junto com os
raios de sol, a casa recebe a brisa de vento característica
do alto das colinas.
“A gente mora na colina, os que vivem do
outro lado da cidade, em locais como esse,
moram em cerros (morros)”, ironiza Yolanda
Guerrero, a matriarca. A frase é perfeita. Nos
cerros vivem milhões de venezuelanos pobres.
A organização urbana desses morros é
muito semelhante aos do Rio de Janeiro. Cerro
e colina são exatamente o mesmo acidente
geográfico. Mas precisam ter nomes diferentes
para que fique claro que há vida diferente
a habitá-los.
Yolanda é casada com Simon, 65 anos, artista
plástico que por boa parte da vida teve
uma galeria de arte. Eles tiveram três filhas,
Verónica, Yamila e Maria Yolanda. Yolanda e
Simon se conheceram na década de 60. Ele
estava preso, e ela, advogada recém-formada,
foi defendê-lo. Simon pertencia ao MIR e foi
detido num carro repleto de armas. “Não houve
injustiça, caí porque estava conspirando. A
função do governo é prender mesmo e jogar
duro”, admite.
Ele era um dos jovens que estava na luta armada
daqueles anos. Na luta contra o que muitos
ainda imaginam ter sido os anos democráticos
daquele país. “Aquilo nunca foi democracia.
Na época da AD e da Copei havia censura
na imprensa, desaparecidos políticos, torturas
nas celas, tudo o que uma ditadura faz.
Agora, que não há nada disso, eles chamam o
governo de ditador”, sentencia Simon.
Ele e sua família vivem como a minoria venezuelana
– antichavista –, no entanto, na sua
família, apenas a filha Maria Yolanda é de oposição.
“Mas eu os amo do mesmo jeito, os amo
muito”, afirma Simon sempre que se refere à
divergência política da filha e do genro. Ele
quer marcar que não tem ressentimento por
conta da diferença de opção política do casal,
distinção necessária por conta da radicalização
política do país. Há muito ódio na disputa. No
restante da família, todos estão com Chávez.
Os Guerrero são a antítese de sua classe social,
porque acreditam no processo eleitoral. Revolução?
É verdade que há uma guerra de classes na
Venezuela: entre a maioria pobre, o governo
tem força, mas é execrado entre a minoria rica.
A condição social, entretanto, não é o que
divide o país. O que levou a Venezuela a viver
esses intensos últimos anos tem relação
com o amadurecimento político dos setores
populares, que não aceitam não poder escolher
seu caminho. E também tem relação com
a história de muitos que se indignam com as
injustiças locais e querem mudança. Gente de
todos os extratos sociais. Que está organizada
junto com os setores populares e têm convicção
do que querem. “Aqui a minoria quer
mandar. Essa gente se acostumou a ter de tudo
e a fazer a lei a seu favor para ter tudo”,
disse ao final da corrida um taxista que nos levava
até a paróquia de San Juan.
A tensão também tem que ver com a história
de muitos que se indignam com as injustiças
locais e querem mudança. Gente de todos
os extratos sociais, organizada junto aos setores
populares e têm convicção do que quer.
“Nós estamos com Hugo Chávez porque
acreditamos que ele é capaz de construir a
mudança que a sociedade venezuelana precisa,
e fazer avança a organização popular”, diz
Jose Manuel Iglesias, editor do site antiescualidos.
com.
Um exemplo dessa organização pôde ser
visto no dia do plebiscito. No domingo, 15 de
agosto, às 4h da manhã, nas ruas de Caracas,
centenas de pessoas já formavam filas nos colégios
eleitorais. Mais, organizava, kombis,
microônibus e motoboys para ajudar a buscar
pessoas no alto dos cerros. Equipamentos de
som já convocam com músicas e discursos a
população. Tudo antes de o dia amanhecer.
“O que está em jogo é a nossa história”, apostava
Juan Contreras. “Esse processo vai continuar
com ou sem Chávez. Engana-se a oposição
quando pensa que essa transformação é
capricho de um homem só”, afirma.
Mesmo que desejasse, Chávez já não pode
mais voltar atrás nos compromissos que assumiu
com a maioria que o apóia. Gente como
Juan ou como a família Guerrero garantem Chávez,
por acreditar que, com ele, o país está mudando.
Mas pode e precisa mudar muito mais.
É por isso que Chávez ganhou o plebiscito. Ele
incorpora o desejo de transformação e de independência
de um povo e de seu destino. |