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A solidariedade invade o mercado Há poucos anos, cinqüenta experiências de economia solidária Por Anselmo Massad A 150 quilômetros de Recife, Catende é cercada de municípios Em 1993, em meio a uma crise, os donos da usina da região não pensaram muito antes de demitir 2,3 mil dos 2,8 mil empregados sem pagar direitos trabalhistas. Depois de dois anos de embates judiciais, os sindicatos de trabalhadores O patrimônio administrado por eles envolve 48 engenhos, uma área de 26 mil hectares, uma hidrelétrica, várias casas-grandes (antigas sedes de fazendas), oito açudes, além de um parque industrial para a produção de açúcar e ração animal. O processo de liquidação da massa falida termina neste ano e os trabalhadores tendem a adquirir a empresa, que vai ser leiloada. Sobram, em Catende, histórias de vidas transformadas. Luis Cristóvão da Silva, nascido e criado na zona rural, tem vivido os últimos 15 de seus 22 anos em Catende. A única opção de trabalho sempre foi o plantio da Catende é considerado o maior empreendimento autogestionado do país. Mas não é um fenômeno isolado. A economia solidária (ou modelo cooperativo) tem envolvido diversos atores: incubadoras universitárias, entidades Não à toa, em julho de 2003, Paul Singer, economista e um dos principais articuladores da causa (ver págs. 6) foi chamado para ocupar a Secretaria Nacional de Economia Solidária O FBES tem uma característica diferente dos demais fóruns sociais, temáticos ou regionais, já que inclui, além da rede de projetos e de incubadoras de cooperativas populares “O fato de a secretaria ter surgido a partir de uma reivindicação do FBES demarca a diferença para governos anteriores”, avalia Lorival Plácido de Paula, diretor estadual do Criar uma nova cultura “A Senaes é um símbolo da disputa no interior da agenda do governo federal”, pondera Marcio Pochmann, economista e secretário de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade Mas já se caracteriza como uma das marcas do governo Lula a institucionalização das políticas para a economia solidária”, sustenta. Gilmar Carneiro, presidente da Ecosol, agência de crédito solidário da ADS-CUT, acredita que uma das funções da secretaria é criar uma cultura cooperativa, já que o país O que ele defende é que o avanço desses princípios vai forçar, aos poucos, uma reorganização do mercado sob uma orientação solidária. Carneiro aposta em uma ação de longo prazo. “Por dez anos, o (senador Eduardo) Suplicy passou apresentando o programa renda mínima. Se ele ia falar, era quase certo de que seria sobre o assunto. Tanto se esforçou, que hoje é um projeto amplamente conhecido e adotado no país. Acredito que os princípios da economia solidária precisem de um trabalho assim”, compara. O coordenador do programa de cooperativismo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), João Roberto Lopes, lembra que apesar de as cooperativas haverem tido papel de destaque no agronegócio nos anos 50 e 60, não é muito claro o compromisso de muitas dessas empresas com a gestão democrática e participativa, bem como a distribuição dos resultados entre os trabalhadores. “Para completar, algumas cooperativas estão viciadas em práticas empresariais, enquanto outras são usadas para precarizar relações de trabalho”, sustenta. Para “jogar luz” O balanço traz questões relacionadas à quantidade de pessoas envolvidas – cooperados ou funcionários – e suas condições (quantidade e remuneração de mulheres e negros É no mesmo sentido que caminha uma das principais ações da Senaes. Em parceria com o IPEA e a Rede de Gestores do FBES, uma pesquisa nacional está sendo realizada sobre as políticas públicas municipais e estaduais de economia solidária com um mapeamento dos programas e uma análise qualitativa de diferentes experiências de políticas públicas. Há ainda uma negociação com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para que sejam incluídos na Pesquisa do SetorInformal Urbano estudos referentes a iniciativas com propriedade e gestão coletivas. A informalidade, segundo pesquisa da consultoria McKinsey, realizada em junho deste ano, está na casa dos 50% dos empregos nãorurais Conhecer o cenário do país tem dois objetivos principais. Primeiro, permitir uma avaliação mais precisa das mudanças necessárias na legislação para facilitar – e não atravancar Ao mesmo tempo vem embutida uma luta cara às autogestões: a eliminação das falsas cooperativas. As “coopergatos” mantêm a aparência jurídica de cooperativa, mas estão longe de manter uma gestão democrática e transparente, funcionando apenas para debilitar as condições de trabalho. Fechar essas empresas é um passo importante para evitar que Nos 15 meses da Senaes, foram organizadas diversas feiras e encontros de economia solidária, com destaque para um nacional, no Rio de Janeiro, que contou com 2 mil participantes, O objetivo desses eventos é promover a troca de experiências e discutir a linha de atuação dos grupos e da própria secretaria. A Senaes está dividida em dois departamentos, um de estudos e divulgação (comandado por Valmor Schiochet, da incubadora de cooperativas populares da Universidade Federal de Blumenau) e outro de fomento (dirigido por Dione Manetti, ex-diretor (é homem ou mulher) do departamento de economia popular solidária da Secretaria de Desenvolvimento e Assuntos Internacionais do governo Olívio Dutra). A presença da Senaes dentro do Ministério do Trabalho é apontada como um possível limitante no raio de ação do órgão. Isso porque a economia solidária pode ser a base de políticas de inclusão social nas mais diversas áreas, “As limitações vão depender da capacidade de articulação da secretaria com outros ministérios, e esse governo deu demonstrações de esforço em fazer políticas intersetoriais.” Loucos são os que não acreditam No governo federal há alguns exemplos importantes desse tipo de integração. Um exemplo interessante é uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Senaes para dar cabo à progressiva liberação dos internos de manicômios e centros de internação de pessoas com transtornos psiquiátricos. A ação tem como modelo a experiência do Hospital Psiquiátrico A partir de doações de castanhas-do-pará por parte do governo estadual do Acre ao hospital, os internos foram organizados em uma cooperativa para produzir bombons. As pessoas passam por dois cursos, um voltado para os princípios Os 22 integrantes não têm horário fixo, mas uma jornada que pode ser cumprida ao longo da semana, e recebem uma remuneração pelo trabalho. A reintegração dessas pessoas A experiência mostra uma das faces da economia solidária: capacidade para incluir em todos os níveis. O ideal, segundo técnicos da Senaes, seria a formação de cooperativas mistas, Ademar Bertucci, da Cáritas Brasil, propõe a adoção do modelo praticado pela entidade como um caminho para o fomento da economia solidária. Desde a década de 80, a Cáritas O dinheiro funciona como um empréstimo, que deve ser pago aos poucos. Conforme esse empréstimo vai sendo quitado, o dinheiro torna-se disponível para ser aplicado em outros Em busca de mais recursos Até junho, de 190 projetos apresentados a Senaes, 100 firmaram convênios com o órgão para a obtenção Para financiar projetos de economia solidária, em parceria com Mas como conseguir mais dinheiro? A resposta é complicada. Entre as lideranças do FBES discute-se duas hipóteses. Uma é a democratização do sistema “S” “Conseguir assento nas várias instâncias do FAT como pede o A gestão do FAT hoje é tripartite, formada por governo, empresários e sindicalistas. Por não serem empregados, mas donos e empreendedores, os trabalhadores da economia solidária ficam excluídos, já que não podem ser representados Um alento, e ao mesmo tempo uma demonstração de compromisso com o movimento, é o fato de que o suplente da vaga do governo no Conselho Deliberativo do Fundo é Paul Singer, mas isso não se aplica às demais instâncias. |