|
Anterior
(Entrevista)
-
Índice
-
Próxima
(Cuba)
Paulo
Freire
A
lógica
do encantamento
por Glauco Faria
e Nicolau Soares
Seis
anos após sua morte, os ensinamentos de Paulo Freire, de que a educação é
instrumento de conscientização e libertação, continuam influenciando pessoas
em todo o mundo
foto:
Jesus Carlos/Imagenlatina
Marcos Pereira Santos tem 20 anos e é um dos quatro educadores que participam do Centro de Educação e Organização Popular (Ceop) localizado na favela do Jardim São Remo, Zona Oeste de São Paulo. Em parceria com o Mova, programa de alfabetização de jovens e adultos da prefeitura de São Paulo, o projeto
atende a oitenta pessoas da comunidade, que aprendem não só a juntar e rejuntar as letras do alfabeto, mas também, a partir daí, a interpretar e refletir sobre a realidade em que vivem. O jovem Marcos ganha ajuda de custo de
400 reais para dar aulas de segunda a quinta-feira, tendo as sextas reservadas para o curso de formação pedagógica. Recrutado entre os moradores da favela, estranhou de início dar aulas para pessoas mais velhas,com as quais convivia tão de perto. "No
começo, eles se perguntavam 'o que esse moleque que vejo todo dia na rua pode me ensinar?' ". Mas a desconfiança inicial não o intimidou. Ele já tinha superado um obstáculo mais difícil: alfabetizar os próprios pais. "Foi difícil no começo, ficava intimidado com eles. Depois que deu certo, ganhei muito mais segurança", conta o professor. No decorrer do curso, os educandos
foram adquirindo confiança em Marcos, que em nenhum momento adotou postura professoral, esteriotipada. "As pessoas têm uma visão do professor como orador, que fala o tempo todo, mas a gente busca dialogar com os alunos. Não são só eles que aprendem, quem dá aula aprende muita coisa também", conta. Assim como Marcos, muitos educadores
no Brasil trazem no seu modo de agir mais que a simples transmissão de conhecimentos. Muitas vezes sem saber, trazem a marca de um dos maiores pensadores do Brasil, que analisou e difundiu a educação como instrumento de conscientização e libertação. No último 2 de maio, foram completados seis anos da morte de Paulo Freire, que deixa um legado permanente para todos aqueles que se preocupam em ensinar e aprender.
Não se trata de nenhum exagero. Em sua morte, mais de 600 mensagens de condolências foram enviadas à família e ao instituto que leva seu nome, parte vinda de professores de aproximadamente 150 universidades de todo o mundo. Seu nome serve para batizar institutos de educação nos EUA, Canadá, Dinamarca, Suíça, e em inúmeros países da África. Recebeu, entre outros, os prêmios Rei Balduíno para o Desenvolvimento (Bélgica, 1980), Unesco e Educação para a Paz (1986) e Andrés Bello, da Organização dos Estados Americanos, como Educador do Continente (1992). Mas o que esse pernambucano,
nascido no Recife, em 1921, construiu ao
longo de seus 75 anos que pudesse provocar
tanta admiração por onde quer que sua
obra chegasse?
Passagem contada pelo professor da
PUC-SP Mário Sérgio Cortella elucida um
pouco tamanho prestígio. Lembra que, em
março de 1986, numa aula inaugural da
pós-graduação em Educação da PUC, resolveu
provocar seu mestre. Perguntou se
ele se considerava um "clássico", citando
a célebre pérola de Millôr Fernandes, que
diz que "clássico é um escritor que não se
contentou em chatear apenas os contemporâneos".
Sem titubear, Freire respondeu:
"Sou um clássico, sim. Não porque subjetiva
e presunçosamente deste modo me
considere, mas, porque como clássico sou
considerado por todas aquelas e todos
aqueles que encontram em minha obra um
instrumento para enfrentar um clássico
problema: a existência de opressores e
oprimidos. Por isso, enquanto esse problema
persistir, quero continuar chateando,
incomodando e fustigando os que, contemporâneos
meus ou não, defendam a permanência
das desigualdades".
E ele continua incomodando. "Paulo
Freire trouxe uma nova forma de ver a educação,
ao criticar o que chamava de educação
bancária, na qual um professor autoritário
deposita o conhecimento no aluno",
explica Ceres Torres, primeira vice-presidente
da secretaria regional do Rio Grande
do Sul da Associação Nacional dos Docentes
do Ensino Superior (Andes). "Ele traz a
possibilidade de que todos possam aprender,
construindo juntos o conhecimento.
Democratiza as relações entre professor e
aluno e coloca o pólo do processo educativo
na troca, no processo dialógico, como
chama, e não no professor autoritário de
antes."
Foto:
Paulo
Pepe/Nau
Lutgardes:
"Meu pai conviveu muito com os camponeses e operarios antes de escrever o
livro, conhecia bem a realidade de que estava falando
O professor da Faculdade de Educação
da USP Moacir Gadotti, companheiro de
Freire e um dos fundadores do instituto que
leva seu nome, dá outra dimensão à importância
do mestre. "Paulo Freire marcou por
sua vida. Não apenas pela grandeza de sua
obra, mas principalmente por sua causa,
que é a causa do oprimido. Ele a levantou e
tornou-se um símbolo da luta do oprimido",
esclarece. "A opressão em sua obra
vai além daquela caracterizada e estudada
por Marx no conceito de luta de classes.
Pode ocorrer também em situações que vão
além das condições materiais, tanto que os
oprimidos também podem ser opressores
em determinadas situações. Existe opressão
entre gêneros e raças", sustenta. Segundo Gadotti, até a violência na escola pode
ser entendida como uma reação a essa
opressão. O jovem agride porque antes é
vítima, quando não é atendido em um posto
de saúde ou não acha na escola um ambiente
acolhedor. "Por fim, acha visibilidade
ao usar uma arma", acredita.
Paulo Freire dedicou toda a sua vida à
educação. Deixou um legado de idéias, filosofias
e inspiração que está entre os mais
reconhecidos do mundo. Um dos seus filhos
mais nobres, o Mova, que surgiu durante
o período como secretário de Educação
do município de São Paulo, de 1989 a
1991, espalhou-se por todo o país. O projeto,
em certa medida, é semelhante à experiência
pioneira de Freire em Angicos, no
Rio Grande do Norte, em 1963, onde 330
trabalhadores rurais foram alfabetizados
partindo da própria realidade em que viviam.
Começava a se desenvolver aí um
método baseado no diálogo como recurso
principal não apenas para alfabetizar, mas
para despertar na pessoa a chamada consciência
crítica.
Claro que os militares que tomaram o
poder em 1964 não viam com nenhuma
simpatia o método, tomado como subversivo.
Após ser preso, Freire foi exilado no
Chile, onde desenvolveu programas de
educação de adultos no Instituto Chileno
de Reforma Agrária, escrevendo no país
aquele que viria a ser seu principal livro,
Pedagogia do Oprimido, norte de toda a
obra posterior. Lecionou na Universidade
de Harvard, Estados Unidos, no ano de
1969, e em seguida passou a trabalhar co-
mo consultor especial do Departamento de
Educação do Conselho Mundial das Igrejas,
em Genebra, Suíça. Ficou lá por dez
anos, durantes os quais deu consultoria
educacional a vários governos do Terceiro
Mundo, principalmente da África.
Filho caçula do educador, Lutgardes
Costa Freire passou todos os anos do exílio
ao lado do pai. Cientista social, hoje é um
dos coordenadores do Instituto Paulo Freire.
Ele se lembra do período no Chile, durante
o qual foi escrito Pedagogia do Oprimido.
"Meu pai conviveu muito com camponeses
e operários antes de escrever o livro,
conhecia bem a realidade de que estava
falando", sustenta. "Sempre foi uma
pessoa muito acessível, não tinha problemas
em arranjar tempo para atender um estudante,
por exemplo", completa.
Retornou ao Brasil em 1980 para, em
suas palavras, "reaprender" o seu país. Lecionou
na Universidade de Campinas (Unicamp)
e na Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP). Em 1989, assumiu
o cargo de secretário de Educação durante
a gestão de Luíza Erundina, do PT,
partido do qual foi membro fundador.
Mais que um método
Paulo Freire não desenvolveu uma metodologia
do ensino, mas sim uma Teoria do
Conhecimento, que rompia com o elitismo
da educação orientada pelas classes dirigentes.
Para ele, as práticas educacionais
tradicionais eram "domesticadoras" e seguiam
uma tradição em que o professor era
alguém acima do bem e do mal, detentor da
transmissão do saber e que não devia ser
questionado, apenas ouvido. O aluno assumia
então a condição de receptor passivo
do conhecimento, deixando implícita uma
hierarquização das relações. foto:
Gerardo
Lazzari
Moacir
Gadotti: "Paulo Freire marcou por sua vida. Não apenas pela grandeza de
sua obra, mas pricipalmente por sua causa, que é a causa do oprimido"
Freire acreditava que a educação não
pode ser uma via de mão única. Ela deve
partir do diálogo, numa relação em que
aluno e professor são iguais. Dessa forma,
o conhecimento previamente adquirido
pelo aluno em sua prática de vida assume
importância tão grande quanto aquele trazido
pelo professor e a educação se torna
uma troca, uma construção conjunta de
saberes. O processo de educação parte dos
dados obtidos pela análise da própria realidade
de quem aprende. Qualquer transmissão
de conteúdos que esteja fora desse
contexto é entendida como "invasão cultural",
que não respeita o educando como
sujeito do conhecimento, mas sim como
simples receptor. A relação entre professor
e aluno deixa de ser vertical, tornando-
se horizontal.
Em tempos em que a "politização" era
tratada como palavra chula, que contaminava
e distorcia a educação, Paulo Freire
mostrava um novo enfoque. Acreditava
que o ato educativo sempre trazia dentro
de si alguma carga ideológica. Os conservadores
defendem uma pretensa neutralidade
como forma de esconder a prática dominadora
implícita na hierarquização entre
professor e aluno. Não há educação neutra,
já que a realidade prevê a ação do homem
sobre ela. Se alguém apenas tem informação
sobre a realidade e não tem conhecimento
de como agir sobre para transformá-la, simplesmente se sujeita. Em sua
opinião, o conhecimento deve ser usado
não só para entender o mundo, mas também
para recriá-lo.
"Ele valorizava além do saber científico
elaborado o saber primeiro, o saber cotidiano",
aponta Moacir Gadotti, em seu livro
Um Legado de Esperança. Essa preocupação
está presente em toda a sua obra, mas
fica ainda mais clara em seu famoso método
de alfabetização de adultos. Nessa proposta,
estuda-se o dia-a-dia das pessoas e,
a partir dessa vivência, desenvolvem-se os
temas geradores, que irão guiar todo o processo
de aprendizagem. Então, escolhem-se
palavras desse tema que são trabalhadas
desde seu conceito e significado até a separação
de seus fonemas e de suas sílabas,
criando novas palavras que tornam mais
prático o processo de alfabetização. No caso
de um trabalhador urbano, uma das palavras
geradoras poderia ser operário, já
para um trabalhador rural, latifúndio. Esse
processo de divisão da palavra, chamado
silabação, foi considerado ultrapassado pelo
próprio Paulo Freire num momento posterior
de sua obra, o que não invalida em
nada a idéia de trabalhar com o universo
cotidiano do aluno.
Dentro da sistematização do ensino da
palavra geradora, abre-se discussão entre
os educandos e a aula deixa de ter o caráter
de palestra. Todos participam, trazendo seu
conhecimento e discutindo seu papel na
realidade. Freire até preferia não denominar
esse processo de aula, utilizando o termo
círculo de cultura, caracterizado principalmente
pela individualidade e história de
cada aluno. O professor deixa de ser o tirano
do conhecimento e se torna um animador
de debates, que coordena e problematiza
as questões que entram em discussão.
continuação
Anterior
(Entrevista)
-
Índice
-
Próxima
(Cuba)
|